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Campina Grande - PB

A Escola Sem Paredes

04/07/2017 às 10:46

Fonte: Da Redação

Por Moaci Alves Carneiro (*)

A Escola Sem Paredes é o título de um livro meu (São Paulo: Escrituras, 2002), de conteúdo tenuemente conceitual e formato singelamente poético. Ao longo do tempo, tem inspirado programas e agendas de formação continuada de professores. Está em sua introdução: A Escola Sem Paredes/ não parece escola não / Tem vida, tem alegria / Tem até pedagogia!. Em viagem a Brasília, certa feita, o imenso mestre de todos nós educadores, Rubem Alves, me disse: seu “A Escola Sem Paredes” é um sorriso pedagógico!

Estes registros iniciais têm esta direção: a escola e a sala de aula precisam ser prolongamento da vida e, não, um intervalo. O currículo só tem sentido se for vivenciado, pois sua função é ser chave de ignição da sala de aula. Neste sentido, é produzido cada dia pelo extravasamento das áreas de conhecimento, pela permeabilidade do corpo de disciplinas, pela funcionalidade dos métodos de ensino e pela dimensão vivencialmente utilitária da avaliação.

A desconformidade de uma escola que funciona de costas para a vida somente introduz silicone na paisagem mental dos alunos. Estes se comportam como ausentes-presentes no dia-a-dia da sala de aula. O currículo obeso contribui, muitas vezes, para esta situação de fluidez presencial e de ausência mental.

No ensino médio, esta referência situacional não é rara. O bloco de disciplinas é tão amplo que não há tempo para o aluno aprender a ressignificar a vida no ambiente escolar. Aprende-se tudo, menos a conviver e a reviver emoções vitais. O aluno esta diariamente na escola, mas esta parece nunca estar em sua vida. Faltam espaço e tempo para esta viagem de construção identitária. Conclusão: a escola não educa verdadeiramente quando suas salas de aula funcionam descoladas da vida concreta dos alunos. Por isso, precisa estar mais atenta ao perfil dos alunos de hoje. São participantes da sociedade do conhecimento, mas são, igualmente, cidadãos da sociedade líquida. Neste cenário de fluidez constante e de pressa instalada em todos os espaços sociais, a escola é convocada a reciclar permanentemente o conceito operacional de espaço e tempo de aprendizagem. A escola precisa compreender que estamos diante de uma nova arquitetura da vida social e, portanto, de uma nova compreensão de currículo em ação.

O anacronismo dos currículos da escola brasileira começa pela visão deformada de espaço e tempo de aprendizagem dos próprios educadores. Na verdade, estes dois conceitos são prisioneiros da disponibilidade dos espaços físicos da escola. Assim, tempo vira sinônimo de horário e espaço, sinônimo de sala de aula. Tamanha deformação tem contribuído, ao logo do tempo, para obscurecer a dimensão pedagógica relevante da experiência extra-escolar (LDB, art. 3º, Inc. X) e, em decorrência, para tornar as disciplinas escolares e o currículo fechado dispositivos acadêmicos descolados da existência concreta dos alunos. De fato, a tradição escolar brasileira é radicalmente formal e formalizante. Importa dizer que o saber sistematizado encorpa um tipo de hegemonia de conhecimentos que beneficia só extratos restritos da sociedade, em prejuízo da coletividade ampla. Os próprios professores recebem uma formação limitadora sob o ponto de vista cultural, o que lhes dificulta o desenvolvimento da capacidade para construir interseções de saberes no bojo das disciplinas que ministram e no desenvolvimento de estratégias que identifiquem e valorizem o repertório vivencial do aluno.

É preciso compreender que o tempo físico e o espaço físico inserem-se no contexto social do qual o sujeito não apenas faz parte, mas se apropria, cotidianamente, para a construção de sua identidade. Este processo de apropriação coincide com a própria história de vida de cada um. No caso do aluno do ensino médio, esta história constitui o seu enredo de inquietações e perturbações, onde o vivido, quase sempre, é o permitido, mas, quase nunca, é o desejado. Ou seja, o espaço real e o tempo concreto são dispositivos de modulação do ser e, por isso, são entes plurais, são espaço e tempo nem sempre captáveis pelo relógio e pelos diversos instrumentos de medição física.

Reconceituar tempo e espaço escolares significa abrir o currículo para todo o processo de captação da modulação variada do ser humano. Neste sentido, as disciplinas, os conteúdos transversais, as práticas pedagógicas formais e não-formais e, portanto, o conjunto de atividades extra-escolares, tudo é currículo, porque tudo pertence às operações da vida. Operações que são criação e recriação humanas, aprendizagens do sujeito físico e do sujeito coletivo nas interrelações com o mundo e, sobretudo, funções que são projetos de vida.

Na escola de ensino médio, é urgente recuperar estas dimensões de espaço e de tempo, tornando as áreas de conhecimento e o correspondente currículo não preocupações para os alunos, mas ocupações para toda a comunidade escolar e para o desenvolvimento de competências para cada aluno. Nesta perspectiva, o aluno jovem que frequenta a escola de ensino médio espera encontrar, na sala de aula, respostas às inquietações de sua realidade existencial. Esse quadro de vivências muitas vezes perturbadoras hospeda-se em perguntas cruciais do aluno, como as que seguem: Quem sou? Como sou? Quem poderei ser? O que devo fazer para ser o que desejo?

Responder a questões tão complexas implica em revolver emoções. Por isso, a alternativa é muito clara: ou a escola se abre à emoção, ou se fechará, cada vez mais ao conhecimento.

(*) Doutor em Educação/Paris

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