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A escola no acostamento da sociedade do conhecimento

Moaci Alves Carneiro. Publicado em 14 de agosto de 2017.

Por Moaci Alves Carneiro

Decorridos três anos de vigência do Plano Nacional de Educação/PNE, constatamos que as vinte metas, assentadas em duzentos e cinquenta e quatro estratégias permanecem no volume morto das decisões do Estado brasileiro.

O que há são programas em processo de apequenamento: Pronatec, Prouni, Fies, Ciências Sem Fronteiras são alguns dos programas perdidos no nevoeiro da falta de recursos.

O horizonte perceptível é apenas uma linha, mas sem sinalização concreta de terra à vista! O Brasil vai apagando a compreensão de que o processo acelerado de globalização da economia determina a aceleração do acesso a níveis cada vez mais elevados de escolarização da sociedade em geral e, portanto, também dos trabalhadores.

População Economicamente Ativa/PEA sem qualificação educacional crescente faz o país travar e perder competitividade. É que, no contexto da economia planetária integrada, vivemos todos em ambiente de totalidade tecnológica.

Faltam recursos para a educação de qualidade hoje, assim como já faltavam antes da crise fiscal. O que existe agora é que a ladeira educacional em que vivíamos, virou desfiladeiro.

O gasto brasileiro por estudante, aquilo que nossa legislação educacional chama de Custo-Aluno Qualidade/CAQ, nos sacode para o fim da fila em um universo dos trinta e cinco primeiros países postos na vitrine da OCDE.

Fechamos o ranking! Usando a referência em dólares convertidos pela paridade do poder de compra, a situação do Brasil não é um desconforto, é, sim, um desatino!

À guisa de ilustração, pondo-nos ao lado dos quinze países mais bem perfilados, este é o quadro:

1 – Suíça > U$ 16.090; 2 – EE.UU > U$ 15.345; 3 – Noruega > U$ 14.288; 4 – Áustria > U$ 13.116; 5 – Suécia > U$ 12.426; 6 – Dinamarca > U$ 12.136; 7 – Países Baixos > U$ 11.701; 8 – Bélgica > U$ 11.585; 9 – Finlândia > U$ 10.905; 10 – Alemanha > U$ 10.904; 11 – Irlanda > U$ 10.857; 12 – Austrália > U$ 10.711; 13 – Japão > U$ 10.454; 14 – França > U$ 10.454; 15 – Reino Unido > U$ 10.412. A média da OCDE é de U$ 9.487. E o Brasil? Bem… o Brasil aqui está: U$ 3.066!!!

A realidade é que sempre nos faltou uma visão republicana de sociedade e, por isso, os gastos do Estado nacional com educação escolar foram sempre baixos porque enxergados com baixa visão.

Não por acaso, continuamos a confundir creche com assistência social. Equívocos como este tem raízes envergadas em nossa história. O passado se faz presente e nos recria os de sempre!

Há algumas brisas soprando de vez em quando, como é o caso da definição da Base Nacional Comum Curricular/BNCC e da definição dos direitos e objetivos de aprendizagem. Mas… a brisa precisa transformar-se em vento contínuo para inflar as velas da reforma e o barco singrar!

No Brasil, as escolas de Ensino Médio estão distribuídas em escalas de representação social. As de periferia são as que concentram o maior contingente de professores temporários e as que se apresentam em condições mais precárias.

Significa que, em nosso país, a exclusão se dá não apenas no sentido econômico e social, mas também educacional. Basta lembrar que das 3.471 escolas públicas de Ensino Médio sem biblioteca, 80% localizam-se nos bairros populares, nas periferias da cidades e nas regiões mais pobres do país.

As escolas de Ensino Médio, sobretudo as prevalecentemente de contextos populares, precisam ampliar o conjunto dos insumos materiais e simbólicos para poder operar o currículo a partir do perfil dos jovens trabalhadores que habitam as malhas da periferia.

Isto exige dos sistemas de ensino e das escolas uma nova compreensão do conceito de espaço e tempo de aprendizagem. É precisamente a partir da visão deformada deste conceito que se estabelece o anacronismo na forma de compor e operar o currículo e o próprio projeto pedagógico escolar.

Na verdade, estes dois conceitos são prisioneiros da pobreza das escolas. São instituições despossuídas, sem as mínimas condições para “acolher” os que nelas trabalham e os que nelas buscam aprender. Por isso, são incapazes de operar com estratégias pedagógicas plurais.

Verifica-se uma total ausência de insumos que correspondem à garantia de padrão de qualidade, um dos princípios de ministração do ensino (LDB, art. 3º, inc. IX e art. 4º, inc. IX). Nossos governantes costumam escolher rotas de auto-engano para flutuar administrativamente.

Em educação, estas rotas não levam a lugar nenhum. Para deixar o acostamento da sociedade do conhecimento e retornar ao leito das rodovias das demandas sociais concretas, o governo tem que enfrentar, com determinação republicana e vislumbre cívico, nossos indicadores educacionais críticos: 67,1% dos alunos brasileiros postam-se abaixo da linha básica de proficiência em Matemática e 49,2%, quase a metade, em Leitura. Na OCDE, a média é o nível 6.

Em Matemática, estamos no nível 1 ou abaixo dele e, em Leitura, não alcançamos ainda o nível 2! Quem poderá nos salvar e como poderemos ser salvos?! Para “chamar o feito à ordem”, é urgente reimaginar a escola e refundar o currículo. Hoje, é uma estrutura de operação pesada, sobrecarregada por um número excessivo de disciplinas, como se fosse um depósito de produtos estocados!

Os temas transversais só aumentam: educação antidrogas, do consumidor, de trânsito, ambiental, financeira, da diversidade etc. Imagina-se que, multiplicando os conteúdos, a educação vai melhorar. É como se, para corrigir as falhas do motor, se passasse a usar vários tipos de combustível ao mesmo tempo. Ledo engano! A experiência internacional mostra que o currículo enxuto é o currículo arguto.

A sala de aula vai-se transformando em um espaço grávido de emergências temáticas, como se a escola fosse o lugar da purgação da sociedade. Isto nos faz lembrar as sábias palavras de Hannah Arendt, a lúcida filósofa política alemã: a escola não é o mundo e não adianta insistir em ser… Livrar o currículo escolar de tantas adiposidades, sem impermeabilizá-lo das demandas sociais, contextualizando o saber formal, já é um passo à frente.

Como anotei em O nó do Ensino Médio, o MEC sabe que as deficiências de nosso Ensino Médio são gravíssimas. Sabe que, neste particular, nossa educação básica deságua em uma educação sem base, o que nos joga de costas para os anseios do desenvolvimento tecnológico do país e do mundo.

E, não menos grave, sabe que grande parte dos cidadãos brasileiros é abandonada ao risco de uma cidadania menor. Pessoas sem educação escolar básica, e, portanto, sem as precondições para um tirocínio profissional dentro das exigências da sociedade do conhecimento, têm um futuro declinante. A nossa educação básica está doente. Sofre de desvio de rumo e caminha às tontas no acostamento da sociedade do conhecimento.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Moaci Alves Carneiro

Doutor em Educação/Paris; Ex-professor da Faculdade de Educação da UnB e diretor do Encontro de Laboratórios de Cidadania e Educação/ENLACE (Brasília-DF).

falecom@fhc.com.br

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