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A difícil arte da escrita

Ribamildo Bezerra. Publicado em 20 de maio de 2018 às 21:08

Eram seis da manhã. Um celular toca. Diálogo rápido entre a jovem de pele morena, e alguém do outro lado da linha. Apreciada ali, na quina da cama, o rapaz que mal escutava o que se dizia ao telefone, se perdia na visão dos raios de sol que insistiam em fatiar com luz aquele corpo nu, toda vez que uma corrente de vento agitava aquela cortina blackout, naquelas primeiras horas da manhã.

O cheiro de café coado vindo da janela vizinha invadia o quarto, menor partícula e não menos importante, daquele apartamento que, como uma célula, se somava aquele conjunto habitacional

– “Esperei o dia raiar, para o sol dizer o que já desconfiava”, desabafou quase embriagado de alegria e saudosismo de uma noite ainda presente, diluída ali entre hálitos quentes e perfume.

Como um balde de água fria, ela diz assim que desliga o telefone: Você tem que ir!

O que houve? Insistiu ele.

– Você tem que ir. Foi bom, mas paramos agora, enfatizou ela.

-Você é direta, hein!

– Sou assim não tenho escolha.

– Te fiz algo errado?

– Tudo certo demais. Mas ficamos por aqui, reafirmou num pragmatismo quase orgânico.

Enquanto se vestia, buscava encobrir com pudor o orgulho de ser descartado ali. Disfarçou fazendo uma vista rápida na Biblioteca dela… tocando entre os dedos as capas da Coleção Imortais da Literatura da Abril Cultural.

Era uma coleção de 50 livros, com três volumes especiais constituídos de breves biografias dos autores, marcadas pela ilustração, lançada entre 1970 a 1972. Eram livros ricos em ilustrações, entre pinturas e fotografias.

-Meu pai tinha essa coleção, disse ele – já quebrando o clima da conversa. Foi a única coisa que levou de casa quando nos deixou.

– Você leu algum? Perguntou ela.

– Li apenas um, que justifica não ler mais nenhum da coleção: Os Irmãos Karamazov.

– Mágoas do seu pai? indagou ela.

– Não, completude mesmo. Dostoiévski já disse o que eu precisava ler para uma vida toda, falou em tom quase de empáfia.

– Tome é seu, retirando o livro da estante. Só não vai ter dedicatória.

Falando quase ao mesmo tempo, os dois citaram um trecho da obra, como a comprovar as marcas daquele livro nas suas vidas:

“Eu creio que se deve amar a vida sobre todas as coisas. — Amar a vida mais do que o seu sentido? — Sim, a vida, sem considerações nem lógica, como tu dizes; quando não nos importarmos com a sua lógica compreenderemos o seu sentido.”  Riram da coincidência.

Ao procurar folhear o livro, um texto manuscrito caiu dentre as páginas.  Texto curto, direto, datado de 12 anos passados:

“ Escrevo para ser livre, pois não existem fronteiras quando o seu combustível é o desapego. Quem enxerga o mundo pelas ideias, sempre verá mais além. Meu horizonte está além das coisas, das pessoas, dos sentimentos, meu horizonte será sempre onde a minha inquietude me levar”

Cristina.

– Essa letra é sua? Seu nome é Salete? Por que ocultou seu verdadeiro nome?

 Com os olhos marejados, como se ele tivesse tocado numa ferida profunda e dolorosa, ela simplesmente disse que era hora dele sair dali…e que levasse o bilhete também… Era tudo que ele teria dela. “Nunca esqueça rapaz, escrever é exorcizar o mundo”. Quase empurrando levou-o até a porta e numa frieza descomunal sequer o abraçou ou beijou.

Horas depois – longe dali – o jovem rapaz não conseguiu dormir tomado pelas marcantes lembranças daquela noite. Diante da página em branco e virtual do computador, ousava redigir alguma coisa. Diante do nada falou para si mesmo: POETAS FILHOS DA PUTA.

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Ribamildo Bezerra

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