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A descoberta dos mundos

Jurani Clementino. Publicado em 29 de maio de 2022 às 10:23

“Todos no gol com Taffarel. Vai partir. Vai que é sua, Taffarel. Partiu. Bateu. Acabou, acabou, acabou… É tetra, é tetra, é tetra… O Brasil é tetracampeão do mundo de futebol”. Quem não se lembra dessa narração de Galvão Bueno durante a cobrança de pênaltis entre Brasil e Itália no jogo final da copa de 1994, nos EUA?

Pois é, esses dias me dei conta de que noventa e nove por cento dos meus alunos de graduação desconhecem completamente a emoção de assistir a seleção brasileira jogando e vencendo uma copa do mundo. A descoberta, aparentemente banal, aconteceu depois que exibi o vídeo da escalada do Jornal Nacional (aquela sucessão de manchetes que abrem um telejornal) sobre os atentados de 11 de setembro de 2001. Aquele evento ocorrido na cidade de Nova York, onde aviões foram jogados contra as imponentes Torres do Word Trade Center prédios comerciais símbolos da economia americana. E nessa hora percebi que praticamente todos ali ainda não haviam nascidos naquela época. Ou seja, quando um ano depois, em 2002 o Brasil derrotou a Alemanha, isso mesmo, a Alemanha, por 2 a 0 conquistando o pentacampeonato mundial, no Japão, a maioria deles não tinha chegado ao mundo.

Há 20 anos o Brasil não levanta o troféu Julis Rimet. Há duas décadas o brasileiro não sente essa emoção. Há vinte anos que não sentimos o gostinho de comemorar um título mundial no esporte mais querido dos brasileiros. Porque mesmo para quem não gosta de futebol, mesmo para quem não curte qualquer atividade esportiva, a copa do mundo acaba envolvendo os brasileiros de alguma forma. E nós que assistíamos aos jogos nos anos 80 e 90 em TVs alheias! Em sítios distantes! Junto com uma dezena de outros torcedores que gritavam, choravam, torciam como se estivessem num estádio de futebol porque eram verdadeiras multidões acompanhando aquele evento pela televisão!

Lembro que numa dessas copas, acho a de 1990 ou 1994, o padre Mota organizou, no alpendre de sua casa, localizada no sítio Lagoas, Várzea Alegre – CE uma TV para que os moradores da comunidade e de outros sítios vizinhos pudessem acompanhar a transmissão dos jogos da seleção. Era gente pra tudo que era canto. No alpendre, nos terreiros, debaixo das árvores, na porteira, tudo de olho vidrado naquele aparelho de TV. Aquilo era uma revolução. Os jogadores do outro lado do mundo correndo atrás da bola, disputando com aqueles outros tantos atletas suados, caindo, correndo debaixo de chuva, durante a noite, e a gente ali sentindo a emoção de uma competição mundial de futebol. Sorrindo ou chorando. Reclamando da arbitragem, pedindo para que o técnico substituísse um jogador que não ia bem na partida, ouvindo Galvão Bueno gritando com toda a força do pulmão a frase “Sai que é sua Tafarel”.

Só agora me dei conta de que enquanto a gente fazia aquilo, vivia essas emoções, esses meus alunos ainda nem tinham chegado ao mundo. Eles não sabem o que é isso e é preciso explicar aquele momento. Eles não viram, ao vivo pela televisão, as cenas cinematográficas e, ao mesmo tempo, aterrorizantes do fatídico 11 de Setembro de 2001, quando aviões com passageiros se chocaram contra prédios que viraram imensas bolas de fogo, que logo se transformaram em fumaça e vieram ao chão misturando labaredas, pó e poeira. Essa é a hora que a gente diz: Meu Deus como tempo passa rápido. Já se foram duas décadas desses acontecimentos e meus alunos só têm entre 17 e 21 anos. Como eles são jovens. Como a gente tá ficando velho. Como o tempo consegue ser impiedoso.

Mas, para esses jovens, ainda há esperança. Afinal quem tinha nascido em 1970, quando o Brasil conquistou, lá na cidade do México, o tricampeonato mundial, só pode ver os jogadores levantando a taça novamente, 24 anos depois, em 1994 quando a seleção canarinho alcançou o tetracampeonato mundial ao vencer a seleção italiana nos pênaltis nos Estados Unidos. Aquele pênalti desperdiçado pelo ídolo italiano Roberto Baggio. Ou seja, ainda há tempo para a esperança.

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Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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