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A demolição do Capitólio

Noaldo Ribeiro. Publicado em 7 de março de 2018 às 10:19

“O prédio em questão não apresenta nem nunca apresentou nenhuma qualidade arquitetônica ou artística digna de apreciação, apenas antes da última reforma ocorrida nos anos setenta continha traços minimalistas que embora sem uma arquitetura genuína, se relacionava inteligentemente com a praça, na medida em que o seu ‘hall’ vazava o prédio no sentido leste\oeste, de onde se tinha uma bela fotografia urbana…”.

As palavras acima são da lavra do arquiteto responsável pela relatoria que indeferiu o projeto de Requalificação do Cine Capitólio, apresentado pela Prefeitura Municipal de Campina Grande. Resultado: as centenas de pessoas que diariamente passam diante do antigo cinema deparam-se com as suas ruínas, prestes a desabar sobre a cabeça de alguém de má sorte – infortúnio que ainda não ocorreu, talvez por conta de um Termo de Ajuste de Conduta (TAC), celebrado entre o Ministério Público e a Defesa Civil do Município que obriga esta última a vistoriar sistematicamente as quadro paredes que lhes resta.

De quebra, impulsionado pelo abandono daquela edificação, instalou-se, bem a sua frente, uma feira de produtos eletrônicos, visitada vez por outra, por guarnições policiais. Ainda decorre dessa situação, o isolamento da bela Praça Clementino Procópio que, a cada dia, avança para tornar-se uma “Cracolândia”.

Por que o Projeto da PMCG não foi aprovado?

Dentre os argumentos utilizados pelo Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural da Paraíba (IFHAEP), indeferindo a execução do Projeto de Requalificação do Capitólio, destacam-se: a) A previsão da “… utilização de materiais conflitantes…”. Quer dizer, materiais não idênticos aos originais, usados há mais de 50 anos atrás. Ora, caso o edifício do velho cinema tivesse alguma qualidade arquitetônica ou artística digna de apreciação…”, o que é negado pela relatoria, esse argumento teria alguma validade; b) O IFHAEP não aceitou, igualmente, o aumento na altura da fachada do prédio por impedir a visão de sua cobertura (telha de amianto) – cobertura esta que já ruiu há muito tempo e talvez nem mais habite o imaginário popular, salvo se alguma pesquisa provar o contrário; c) Argumenta-se, ainda, que o Capitólio localiza-se em Zona Rigorosa de Preservação (ZRP), fato que obrigaria que a requalificação proposta viesse a respeitar os dois primeiros critérios, tese que se anula na medida em que o relator acrescenta: “… não o prédio, mas o lugar é rico em significado”.

A Motivação do Tombamento

Neste caso, visto que o parecer afirma que “… não o prédio, mas o lugar é rico em significado”, pode-se deduzir que a instituição do velho cine como patrimônio cultural se deu em função de vinculações subjetivas, de valores imateriais e afetivos, devidamente previstos pela Constituição de 1988. Ocorre, porém, que a memória do Capitólio perpassou várias gerações, o que significa que cada uma delas tem um sentimento de pertencimento bem particular. As gerações mais remotas, cuja figura do saudoso Virgilio Brasileiro era emblemática, propunham que se restaurasse o cinema tal como o foi desde sua origem. Gerações mais recentes aceitam a proposição de requalificação (adequar as suas instalações, convertendo-as num espaço multiuso). Entretanto, fez-se um silêncio sepulcral sobre o período do Capitólio\Pornô, fase curta, porém marcante. Tanto é que ainda hoje é efusivamente rememorada pelos frequentadores de então. A esse respeito, cabe lembrar Jacques Le Goff quando se refere a certos casos, relegados aos “... silêncios da história” e, portanto, transformados em “… mecanismos de manipulação da memória coletiva”.

Este enredamento, no entendimento abalizado de Ulpiano Meneses, membro do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural Nacional (IFHAN), não pode ser mensurado por “… pesquisas de opinião, muito menos com adesão a abaixo-assinados e manifestações equivalentes. Envolve mecanismos complexos, como as representações sociais e o imaginário social, para os quais a psicologia social desenvolveu métodos de pesquisa adequados”. Tal procedimento se não foi feito (parece que não o foi), já não cabe mais fazê-lo. O tempo necessário para sua realização, talvez fosse o tempo equivalente para lei da gravidade levar o velho prédio ao chão.

O Que é o Lugar?

Por “lugar rico em significado”, aludido pelo relator, deve-se entender não apenas o local do prédio, mas principalmente o seu entorno, marcado pela demolição da antiga Igreja do Rosário (bem próxima às ruínas do Capitólio), a Praça Clementino Procópio e suas adjacências, palco de acontecimentos que foram escritos com letra maiúscula na história da cidade.

Deve-se acrescentar, também, que a atual proposta para o Capitólio propõe a sua conversão num espaço de múltiplas atividades, incluindo salão de exibição de filmes, comércio variado, praça de alimentação, livrarias e a recuperação, em novos moldes, da relação entre o prédio e a praça, propiciando, como ressalta o parecer do relator, “uma bela fotografia urbana”.

Ponto Final

Mesmo sabendo-se e reconhecendo-se a idoneidade do IFHAEP, sem dúvida, instituição merecedora dos melhores créditos, o mesmo aplicando-se ao seu Conselho de Proteção dos Bens Históricos e Culturais (COMPEC), é preciso apressar a resolução desse impasse que enfeia o Centro Histórico e causa outros efeitos deletérios. É certo que o tombamento do cinema inspirou-se em boa fé, prospectando o resguardo e preservação de sua história e da história da cidade.

Contudo, o simples tombamento do cinema não basta. É preciso dotar-lhe de função social. Isto não é um fenômeno localizado. Quando se outorgou a Ouro Preto o título de monumento mundial, Carlos Drummond alertou com toques de ironia: “Qualquer dia Ouro Preto se torna monumento interplanetário e continuará com os mesmos problemas”. É evidente que não se pretende fazer comparações, mas no caso local pode-se, em breve futuro, consumar-se o prenúncio feito pelo velho poeta a Ouro Preto, só que revertido para Campina Grande.

Última Sessão – As Ruínas do Capitólio

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Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

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