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A crônica e o cronista

Jurani Clementino. Publicado em 15 de junho de 2018 às 12:19

Vez por outra, as pessoas me perguntam como é o meu processo de produção textual. Como eu elaboro as minhas crônicas. Acho que é somente nessas horas que reflito sobre a minha prática. Porque às vezes eu escrevo como se tivesse andando de bicicleta. Não sei direito explicar como se faz isso. Acaba sendo natural. A gente vai incorporando e torna-se comum. Daí percebo que não gosto de escrever por obrigação. Minha escrita é uma prática de liberdade. E isso me realiza. Não escrevo sobre aquilo que não sei, que não vi, que não vivi. Prefiro aquilo que acho que conheço. Parto do princípio de que você só sabe falar sobre as coisas pelas quais você tem proximidade. Então eu escrevo sobre experiências vividas, sobre afetos, sobre sentimentos. Construo uma prosa bem ao estilo canção do exílio, marcada quase sempre por uma poesia de dor e saudade. As pessoas que servem de inspiração para os meus textos são figuras comuns com as quais tive a sorte de cruzar o caminho e pelas quais guardo imenso carinho e respeito. Não enfeito meus textos porque acho a minha imaginação muito limitada. Acredito que só escrevo porque leio. E leio muito. Então chego à conclusão que só consegue escrever aquele que exercita a leitura. Parece clichê, mas não é. Isso é fato. O escritor, por mais medíocre que seja, precisa ler.

Minhas inspirações vêm de todos os lados: ao ouvir uma música, ver uma fotografia, conversar com um amigo, assistir um filme, observar as pessoas nas ruas, ver um pássaro voando… tudo isso serve de matéria-prima para as minhas crônicas. Meu texto nunca é feito pela metade. Sempre sai de uma tacada só. Às vezes, muito raramente, eu mexo, corto palavras, reconstruo frases e, mesmo quando faço isso, a ideia original permanece. Algumas histórias parecem adormecidas em mim e demoram pra se concretizar. E eu preciso estar sempre de sobreaviso porque quando a inspiração chega, tenho que dar atenção a ela. Esteja onde estiver, seja a hora que for. Ou ela não me deixa em paz. É o que a gente chama de insights. Eles são traiçoeiros e passageiros: Depois que vão embora a gente não consegue mais recuperá-los.

 Só mais uma informação importante: escrevo há muito tempo. Quando morava em Várzea Alegre, Ceará, já escrevia pra Rádio Cultura. Num concurso de redação promovido pela emissora eu tirei o primeiro lugar. Portanto, para quem pretende seguir esse caminho, o meu recado é simples, leia muito. Eu não sei se os jovens me escutam ou me leem. Mas acho que sim. Alguns professores têm me falado que apresentaram meus livros aos seus alunos e até me convidaram para partilhar um pouco da minha experiência como escritor. Enfim, escrever não é uma tarefa fácil. Mas é possível. Em resumo, escrever é como andar de bicicleta, só se aprende praticando. E não se explica assim, tão facilmente.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Jurani Clementino

Jornalista, Doutor em Ciências Sociais, Escritor e Professor Universitário. Autor de: Forró no Sítio (Crônicas, 2018) e Zé Clementino: o ´matuto que devolveu o trono ao rei. (biografia, 2013).

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