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A crônica e a crítica

José Mário. Publicado em 22 de abril de 2018.

Para Ricardo Soares, elegância e poesia no corpo do ensaio.

Etiquetada por muitos como um gênero menor e indigno de se ombrear com outros que são recepcionados com sendo a ela infinitamente superiores, a crônica resiste, persiste e insiste em continuar traçando o seu libertário caminho na república das letras. E o faz, este tem sido o seu marco e marca, desdenhando de todas as classificações e conceitos que nela intentam colar os eternos rotuladores de plantão.

Entrelugar da linguagem, terceira margem do rio das palavras, filha rebelde da grande matriarca chamada literatura, a crônica parece proclamar, em sua acidentada peripécia cotidiana: “a minha glória é esta: não acompanhar ninguém.

Não, não vou por aí! Só vou por onde me levam meus próprios passos”, fazendo seus, os emblemáticos e transgressores versos que cartografam o eu-lírico que preside o ser/fazer de “Cântico Negro”, famoso poema de José Régio, mestre da poética presencista em Portugal.

Assim, singrando os mares revoltos da literatura sem temer perigos ou naufrágios, a crônica tem se tornado presença indelével na cena cultural brasileira, passando a merecer da Teoria e da Crítica literária, por vezes ainda ancoradas no porto hierarquizador do fenômeno literário, um olhar menos discricionário e mais acolhedor.

Para Machado de Assis, também exímio cultivador do (anti) gênero: “a crônica é um animal ainda não domesticado”, e “o cronista um beneditino da história mínima”. A primeira metáfora, belíssima, revela o ser da crônica em toda a sua admirável indomabilidade.

A segunda, não menos luminosa em sua poética conceituação, mostra o cronista como o olho vigilante que flagra, no fremente coração da vida, as realidades que são tão ínfimas e aparentemente desimportantes, que, não fosse o cronista, cairia no esquecimento e na invisibilidade totais.

Para Rodrigo Gurgel, “os cronistas são servos do provisório”. O cronista é o escritor que faz das realidades congenitamente vocacionadas para a impermanência, a sua ração diária de sobrevivência estética.

É aquele que, plantado no território das coisas que aparentemente não ficam, finca a sua possível civilização de palavras, o seu utópico e necessário sonho de eternidade. Para  Antonio Candido, em lapidar e decisivo ensaio, o cronista é aquele que faz da “vida ao rés do chão”, a matéria prima do seu laboratório de transfiguração do real. O pasto incendiado e incendiador do seu senso de observação sempre em estado de alerta.

Para Affonso Romano de Sant’Anna, o cronista escreve com um cronômetro dentro da alma. Perseguido pela guilhotina do tempo, e inserido num mundo em que a lógica insensata da pressa impõe-se como o paradigma comportamental predileto, o cronista, diria o Manuel Bandeira do tocante poema “O martelo”, precisa “salvar do naufrágio os elementos mais cotidianos”. Para Vinícius de Morais, o cronista, que é cronista de verdade, faz da falta de assunto, o assunto privilegiado das suas líricas transcriações da vida como ela é, e como poderia ser.

Para José Castello, a crônica é um gênero movediço e flutuante, êmulo das classificações roçantes das ilusórias exatidões conceituais; é um pássaro que, à semelhança da águia, somente se realiza nas alturas mais inatingíveis, que, entretanto, principia o seu périplo no solo mais desvalido do real.

Para Eduardo Portella, a crônica sobrevive da permanente tensão que há entre o imediatismo circunstancial e o apelo à transcendência. Transida entre o jornalismo e a literatura, a crônica vive o eterno dilema do ser e do não-ser. E, assim sendo, a crônica simplesmente é.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

José Mário

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