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Campina Grande - PB

A compaixão

17/06/2017 às 11:38

Fonte: Da Redação

POR: Padre Assis

O Evangelho de São Mateus narra o discurso da missão, trata-se de uma catequese sobre a escolha, o chamado e o envio dos “Doze”. “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos.” (cf. Mt 9, 36-37)

Jesus trabalha incansavelmente, se consome pelos seus. Ele procura as pessoas em sua situação concreta, busca os oprimidos, os sofridos, os sem esperança. À vista de tanta miséria espiritual e corporal Ele se enche de “compaixão”. Mais vezes no Evangelho Jesus parte da compaixão.

Em Jesus temos o grande exemplo de compaixão: Ele assumiu nossos condicionamentos, inclusive o maior de todos, que é a morte. A compaixão não é apenas um sentimento ou um traço da personalidade de Jesus, mas resume sua missão e seu trabalho.

“Ele viveu em tudo a condição humana, menos o pecado, anunciou aos pobres a salvação, aos oprimidos, a liberdade, aos tristes, a alegria…” (Oração Eucarística IV) A obra da compaixão é a obra de Jesus. Ele não só vestiu uma roupa externa, mas nossa carne e nossa história. Ninguém teve um coração mais aberto ao necessitado do que Ele, isso é ter compaixão. Jesus é a encarnação da compaixão e misericórdia divinas.

Compaixão, às vezes essa palavra tem na linguagem comum um sentido negativo. Nietzsche (filosofo Alemão do séc. XIX) com sua crítica ao cristianismo, considerou que a compaixão é um sentimento depressivo e contagioso, próprio dos fracos, que atua como efeito multiplicador e conservador de todas as misérias.

Mas, não é assim na Escritura. Compaixão vem do latim “compassionem = cum-passio”, que significa sofrimento compartilhado, compreender e participar do sofrimento do outro.

Como a conversão, a compaixão é um processo que começa com o reconhecimento daquele que é tratado como não pessoa. O outro é digno de compaixão por estar ferido em sua dignidade. Compadecer-se é um dever ético que devolve à pessoa sua dignidade e reconhecimento do seu valor.

A compaixão passa pelo reconhecimento da pessoa sofredora ou o momento do ir e do vir. Ir ao encontro do outro, do próximo caído só é possível a partir da sensibilidade que vai mais além da simpatia ou da pena.

Um segundo passo no processo da compaixão é a responsabilidade diante do sofredor, o momento do ficar. O encontro com aquele que sofre, o faz ficar comovido e o move a assumir uma responsabilidade para com o outro.

A primeira resposta não é o fazer, mas antes, o dizer “eis-me aqui!”, conta comigo. É também compreender o mais objetivamente possível as causas estruturais, econômicas, políticas ou sociais que conduzem ao sofrimento injusto.

O terceiro e último passo neste caminho da compaixão é assumir a realidade da pessoa sofredora, momento do sair. O ficar não constitui, o final do processo, é um ficar para sair, tanto quanto possível dessa situação dolorosa, especialmente quando o sofrimento é provocado injustamente.

Na verdade, só pode ajudar alguém aquele que participa da necessidade do outro, aquele que se coloca não apenas ao lado do outro, mas na pessoa ou no lugar do outro.

Ter compaixão é condição essencial para seguir Jesus. Ele nos convida a ter um olhar contemplativo sobre a nossa realidade, como o seu, para vermos as multidões subalimentadas e sofrendo de doenças endêmicas, multidões esmagadas pela violência e pelas injustiças, multidões sufocadas pelo medo, multidões sem iniciativa e sem estímulo. Mas também novas multidões que não têm esses problemas, mas estão seduzidas pelos ídolos do dinheiro e do poder, da satisfação imediata, do prazer, da competição e do sucesso.

Jesus ao contemplar a realidade das multidões do seu tempo percebeu que elas pareciam “ovelhas sem pastor”, encheu-se de compaixão e disse que precisava de trabalhadores para tratar dessas “ovelhas” ou dessa “messe” ou colheita.

A contemplação das multidões cansadas e abatidas permitiu a Jesus constatar a vastidão do trabalho evangelizador a ser levado a cabo. O olhar contemplativo de Jesus tem consequências práticas. Não basta ver, é preciso fazer alguma coisa, Jesus logo convidou pessoas para trabalhar na “messe do Senhor”, para que a colheita não se perdesse. Jesus percebe que a missão requer a colaboração de muitas pessoas, a missão nasce, portanto, da percepção da realidade e da compaixão com o povo que sofre e se traduz em gestos, é continuadora da prática libertadora de Jesus.

Jesus organiza um grupo dos doze apóstolos, e os envia com recomendações para que continue no mundo a sua missão de manifestar a compaixão de Deus pelos pobres e sofredores; curando doentes, ressuscitando mortos, purificando leprosos… Tudo feito na total gratuidade, “de graça recebeste, de graça daí” (v.8).

Continuar a missão de Jesus implica que rezemos e trabalhemos sem descanso. Isso implica sermos competentes e eficientes; que estimulemos a criatividade, que andemos nesta urgência.

Diante de nossos olhos cotidianamente estão “as multidões cansadas e abatidas, como ovelhas sem pastor”. É, portanto urgente uma ação evangelizadora, “uma colheita” que ajude a construir uma sociedade nova, baseada na verdade, fraternidade e gratuidade, fruto da contemplação desta realidade, da mística do seguimento de Jesus e acompanhada de ações concretas que revelem os mesmos sentimentos de Cristo, a compaixão e a solidariedade efetivas. O que nossas comunidades cristãs têm feito como gestos de compaixão?

Hoje estamos assistindo ao fenômeno em que a “evangelização” está se transformando em negócio lucrativo. Pelo exemplo de Jesus, evidencia-se que a evangelização não é proselitismo sectário, nem propaganda de mercadoria, nem oferta interesseira de uma tecnologia, mas anúncio da alegria do Evangelho que liberta e salva.

O anúncio não deve constar só de palavras, belos e emocionados testemunhos, mas de gestos concretos que sejam sinal vivo dessa libertação que o “Reino dos céus que está próximo” traz. A expressão “recebestes de graça, dai de graça”. Quer dizer que como Jesus os evangelizadores desenvolvem seu trabalho evangelizador de forma gratuita. Sua recompensa será a alegria de ter servido e amado os irmãos com a mesma generosidade que aprendeu de Jesus.

São Mateus ao apresentar a missão dos discípulos em paralelo e em absoluta continuidade com a missão de Jesus, convida a Igreja a continuar a obra libertadora que Ele começou em favor da humanidade.

Dá-nos, Senhor, a graça de perseverarmos fiéis na missão de anunciar o “Reino” continuando na história a obra libertadora e missão de Jesus, solidários e compassivos com os sofredores.

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