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A cara do Brasil

Arlindo Pereira de Almeida. Publicado em 10 de abril de 2019 às 10:29

A recente discussão do projeto de reforma da previdência, na Comissão Especial da Câmara Federal, mostra a face cruel da vergonhosa falta de conhecimento, de muitos, na condução dos negócios que interessam, de fato, à nação. Um deputado,  despreparado até para  fazer parte de câmaras de vereadores de qualquer cidade do Brasil onde os ânimos são mais exaltados, saiu-se com a expressão “ o ministro é “tigrão” com aposentados, mas “tchutchuca” quando mexe com os mais privilegiados do país”. Qual o argumento trazido a não ser a gritaria dos que não têm argumento nenhum? Qual a sua proposta? Essa atitude não é de pessoas de esquerda, muitas delas equilibradas, dispostas a discutir os problemas nacionais de forma racional. Os que agem como o deputado são adeptos do jargão anarquista “hay gobierno? soy contra”, desejando para o Brasil de tanta corrupção, que tudo continue assim,  um Governo que favoreça o enriquecimento de alguns em desfavor da maioria, como aconteceu recentemente.

A reforma da previdência é apenas um teste da grande tarefa à qual devemos nos dedicar. Na linguagem empolada dos doutos, é uma miríade, a quantidade exagerada de problemas a resolver. A previdência é um deles. Vamos enumerar alguns desses desafios.

1º – Contas Públicas – O déficit das contas públicas em 2018 foi da ordem de R$ 120 bilhões. Isso traz o aumento da dívida que já ultrapassa os R$ 4,3 trilhões de reais. Só com juros, mesmo à taxa SELIC de 6,5% anual, significa R$ 280 bilhões no exercício. Como o Governo não tem como pagar, aumenta a dívida. No próximo ano a dívida passa para R$ 4,580 trilhões. Bola de neve que é como o uso do cheque especial pelo cidadão.

2º – O déficit da previdência em 2018 foi de R$ 290 bilhões – R$ 195 bilhões dos abrigados pelo INSS, R$ 46 bilhões dos servidores públicos civis, e R$ 43,9 bilhões dos servidores públicos militares.

3º – O desemprego no país é superior a 13 milhões de pessoas, aos quais devem ser acrescentados os que vivem de “fazer bicos”, os subempregados, os desalentados, aqueles que desistiram de procurar emprego. Essa massa de 28 milhões de brasileiros, que passa por privações de toda natureza, os desesperados, certamente é um caldeirão de cultura que pode conduzir à criminalidade. Os sociólogos e os estatísticos, com certeza vão aprofundar essa questão e trazer suas avaliações sobre a correlação entre miséria e à transgressão das leis.

4º – Na saúde, onde investimos 3,8% do produto interno bruto (PIB), ocupamos o 64º lugar numa avaliação internacional de 183 países, segundo o Banco Mundial. Faltam médicos, o número de leitos é insuficiente, os investimentos são baixos, a demora no atendimento é uma constante. Basta ligar a televisão e os rádios e constatar que isso é a mais pura verdade.

5º – Na educação, o Brasil investe mal, destinando 6% do produto interno bruto, maior mesmo que a média dos países da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico), que reúne 36 países. No PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), dentre 142 países, o Brasil ocupou a 4ª pior avaliação.

6º – Ufa! É demais! Mas um último assunto, mas que não esgota o estoque. As desigualdades de renda e os benefícios da previdência.

68,5% dos brasileiros tem uma renda de até um salário mínimo, cerca de mil reais. Acima de quatro salários mínimos (R$ 4 mil), 3% das pessoas. Os empregados do serviço público federal, poder Executivo, têm uma remuneração média de R$ 9.258,00; os do Legislativo, R$ 18.605,00; os do Judiciário R$ 9.968,00; no Ministério Público R$ 11.821,00.

Já a média das aposentadorias é a que segue, lembrando que o maior valor para os 1% dos beneficiados pelo regime geral do INSS, é de R$ 5.800,00. Executivo R$ 8.477,00. Legislativo (onde se enquadram os deputados) R$ 26.823,00; no Judiciário R$ 18.065,00; e, finalmente o Ministério Público R$ 14.656,00.

Quem vai perder com as reformas?  O que ganha até um salário mínimo que vai se aposentar sem maior prejuízo? Pelo visto muitos defendem a reforma dentro do principio de “que é preciso que tudo mude para continuar como está”, com as benesses para uma população pequena da população.  Só que, se nada mudar o Brasil se inviabiliza como nação e poderemos nos tornar uma Venezuela de 210 milhões de habitantes.

O Governo Federal tem sua parcela de culpa no que está acontecendo nos dias tumultuados de hoje. Má comunicação, decisões que mudam como o clima, um Presidente pouco familiarizado com certas questões, não muito comedido com as palavras. Mas não se pode imputar a Bolsonaro o pecado cometido por seus antecessores, que praticaram ou permitiram o roubo descarado do dinheiro público e levaram o Brasil ao estado aqui relatado em breves palavras.

A culpa de tudo isso, em grande parte é nossa, do cidadão. Quem ocupa uma função pública escolhido nas eleições, lá está por que assim o desejamos. O parlamentar, os governantes de todos os níveis serão ruins assim como quem o elegeu. É duro, mas é verdade.

Mas, vamos terminar lembrando  o compositor Cazuza.

Brasil! Mostra tua cara. Quero ver quem paga, p’ra gente ficar assim
Brasil!

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Arlindo Pereira de Almeida

Economista.

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