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A Caneta de Agnello Amorim

Noaldo Ribeiro. Publicado em 29 de março de 2018 às 20:08

No tempo em que a missa era rezada em latim, o celebrante, por ocasião do prefácio, interpelava os fiéis instando-os a elevar os corações. Não resta dúvida de que a celebração da Eucaristia implica um transe místico, alimentado pela fé, que envolve emocionalmente o crente, fazendo-o voltar o seu coração para as coisas sublimes. Existe algo de parecido em ser campinense. Há um quê de místico no fato de viver e morar nesta cidade. Há um certo transporte espiritual que faz de Campina Grande mais do que uma cidade onde nasceu ou mora o cidadão, é como se ela fosse a própria pátria. Tu és brasileiro? Sim! Sou campinense”.

Esta curta citação de Rômulo de Araújo Lima, porém longuíssima para os padrões do facebook, do twitter, e do waltssap, exprime em toda a dimensão do que Otávio Amorim batizou de Campinismo – mais que admiração e amor, uma verdadeira devoção pela cidade.

A história tem mostrado que uma legião de “campinistas”, mesmo nos momentos mais difíceis da cidade, eleva a sua autoestima às alturas, afastando-a do precipício da decadência. Esta sentimentalidade pode até parecer um destempero, porém, se assim o for, tem mais tempero que des.

Independente de possíveis polêmicas, não objeto desta ranhura, a verdade é que Campina tem preciosas peculiaridades, sob a forma de histórias, muitas delas escondidas sobre lençóis a espera de algum caçador de botijas.

Nas redondezas do Açude Velho, apartamento, 8º andar, Agnello Amorim abre a vidraça. Pega sua caneta linguaruda, conectada em linha direta com seu cérebro privilegiado, e tatua no papel virtual detalhes de Histórias Submersas, provável título do seu próximo livro.

Com fino humor, porém pontiagudo que nem alfinete, Agnello registra o trajeto existencial de Seu Omega, pai de Ivan Sodré, “O Lorde”. O velho Omega, exímio degustador de destilados e fermentados, passava a maior parte do tempo em estado de embriaguês, pouco degustando a dor e a delícia da vida real. Morando em frente à Praça Clementino Procópio, num dia de rara lucidez, descobre após 30 anos que uma fanfarra tocava a sua porta diariamente.

José Martins, um ingênuo cidadão comum, foi instado a acreditar que era um combativo comunista. Não se sabe os nomes dos mentores intelectuais que puseram na cabeça de Martins este atributo. A verdade é que a repressão levou a sério a “ameaça” do “perigoso revolucionário”, mais tarde injusta e severamente castigado.

A verve do Mito das Cortes também revela a verdadeira história da montagem teatral da Paixão de Cristo, nos anos setentas, dirigida pelo finado Antonio Alfredo Câmara. Tota, seu irmão, encarnava o centurião encarregado de crucificar Cristo. Sendo Tota inimigo do ator que representava o Nazareno, quase que crucifica, na vera, o seu desafeto.

Não vou resenhar a obra, concluo adiantando que nem Gregório Bezerra (o homem feito de ferro e de flor), não escapa da pena de Agnello que conta a chegada inesperada de um delegado da polícia federal numa reunião clandestina, em sua casa, na qual o mito do comunismo no Brasil estava presente. Surpreendentemente, o delegado nada mais queria que um autógrafo do lendário comunista.

De qualidade literária inconteste, os contos de Agnello nada têm de provincianos. Mesmo tendo como cenário a cidade de Campina Grande, Minha Borborema, as narrações poderiam ter ocorrido nos escombros das cidades iraquianas, na luminosidade da tentadora Paris ou em qualquer lugar.

Quando será lançamento este livro? Agnello responde: Em breve. Contudo, alguém que não se sabe quem, faz um prognóstico que Ronaldo do Sebo não conseguirá comercializá-lo. Agnello sobreviverá a ele. Aguardem!

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Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

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