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A autêntica experiência do Ressuscitado

Padre José Assis Pereira. Publicado em 29 de abril de 2017 às 16:43

Por: Padre Assis

Neste Terceiro Domingo do Tempo Pascal o relato de São Lucas sobre os discípulos de Emaús (cf. Lc 24,13-35) se presta a muitas interpretações e reflexões pessoais, espiritualmente valiosas. Que cada um de nós o leia e o medite segundo o que o Espírito lhe sugira. Eu me limitarei a escrever algumas das reflexões que agora me parecem interessantes.

Os dois discípulos que caminham para o povoado de Emaús reconhecem suas ilusões frustradas. Se haviam gerado maravilhosas expectativas ao lado daquele maravilhoso profeta da Galiléia, mas agora, quem iria mantê-las? Era preciso esquecer o quanto antes e voltar à rotina cotidiana: isso era o que deviam fazer, por isso deixam para trás Jerusalém. Ante aquela morte vergonhosa, nenhuma utopia podia subsistir.

Quando se lhes tinha nublado a fé, também se lhes nublou a alegria e a esperança: “nós esperávamos que ele fosse libertar Israel, mas, apesar de tudo isso, já faz três dias que todas essas coisas aconteceram!” (v. 21)

Mas, irrompe um forasteiro em meio àquelas lamentações, reprovando-lhes que se fechem nelas, porque não há razão para todo esse pessimismo: “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua gloria?” (v. 26) A Escritura havia previsto o que iria ocorrer com Ele.

E os caminhantes descobrem novas ressonâncias nas passagens que lhes são apresentadas e agora lhes deslumbram. Intuem algo, querem saber mais e o convidam a ficar com eles aquela tarde.

Estando à mesa compartilhando uma ceia, um gesto do estranho se apresentou assombrosamente familiar: “quando se sentou à mesa com eles, tomou o pão, abençoou-o, parti-o e lhes distribuía.” (v. 30) Sim, era Ele, sem duvida! Primeiro a Escritura desvelando seu segredo, agora o pão partido descobrindo sua identidade. A “fração do pão”, a Eucaristia conduziu-os ao encontro com o Ressuscitado. Têm que avisar aos onze e seus companheiros! E voltaram a Jerusalém para compartilhar o incrível.

Muitas vezes nós temos tido a mesma tentação dos discípulos de Emaús: fugir, deixar tudo, nos vence o cansaço, o desânimo, a desilusão, a desesperança, o sentido de fracasso… Também em muitas ocasiões temos experimentado como Jesus não nos abandona, se aproxima de nós como se aproximou dos discípulos de Emaús e foi companheiro de caminhada: “o próprio Jesus se aproximou e começou a caminhar com eles.” (v, 15)

Ele quer compartilhar nossas angustias, nossos problemas, quer tirar-nos das trevas, quer dar-nos uma palavra de animo que clareie nossas duvidas: “E começando por Moisés e seguindo pelos profetas lhes explicou o que se referia a Ele em toda a Escritura”. Comprovamos então, como o fizeram os discípulos de Emaús, que Ele é nossa única esperança. Jesus Cristo, o Senhor Ressuscitado, é o único que dá sentido ao mistério da vida.

Aos discípulos de Emaús a fé na ressurreição lhes mudou a vida. Eles passaram pelo mesmo que havia passado os outros discípulos de Jesus: antes de ver o Ressuscitado andavam tristes e amedrontados; depois de vê-lo recobraram a alegria, a coragem e a vontade de viver e pregar. Sim, eu creio que também agora, hoje mesmo, a fé ou a não fé na ressurreição de Jesus nos muda a vida, com tudo o que isto implica.

Crer na Ressurreição é crer na vida imortal, uma vida na qual viveremos para sempre, segundo o juízo misericordioso que Deus faz de cada um de nós. Não crer na ressurreição é crer que tudo se acaba definitivamente para a pessoa quando esta morre corporalmente.

E, naturalmente crer que esta vida mortal é tudo o que temos, ou crer que esta vida temporal é só caminho para outra vida imortal, condiciona muito nosso estilo de vida atual.

A fé na ressurreição deve ser fonte de vida e esperança para todos nós, os que cremos na Ressurreição de Jesus.

No entanto, como podemos fazer hoje essa experiência do encontro com Jesus e reconhecê-lo presente em nossa vida?  Este relato é uma catequese de como podemos chegar a ter uma autêntica experiência do Ressuscitado. O encontramos em primeiro lugar na “Palavra”. Eles compreenderam as Escrituras e se deram conta de que “não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho e nos explicava as Escrituras?” (v. 32) É meditando a Palavra de Deus e aplicando-a cotidianamente em nossa vida como podemos reconhecer o Deus de Amor que Jesus nos anunciou.

Em segundo lugar podemos encontrar a Jesus Cristo na Eucaristia. Aos discípulos de Emaús “se lhes abriram os olhos e o reconheceram… e contaram como tinham reconhecido Jesus ao partir o pão.” (v. 35) Precisamos permanentemente celebrar a Eucaristia para que nunca duvidemos da presença ressuscitada de Jesus e de sua atuação entre nós.

Precisamos celebrar a Eucaristia para ter a coragem de retornar a Jerusalém, voltar à missão e anunciar que Ele está vivo. A Eucaristia é, ao mesmo tempo, ponto de chegada da fé no Ressuscitado, celebração de sua presença salvífica e ponto de partida para nova missão.

Mas há um terceiro lugar de encontro que os cristãos necessitamos recuperar: a comunidade. A fé se vive em comunidade. Não se pode ser cristão como “livre atirador”, sozinho, isolado, necessitamos a comunidade para crescer como crentes. Os discípulos de Emaús retificaram seu caminho “e voltaram para Jerusalém”, a sua comunidade, “onde encontraram os onze reunidos com os outros” (v. 33) que disseram:

“Realmente, o Senhor ressuscitou e apareceu a Simão”. (v. 34) Temos que aprender que Igreja-comunidade é amizade, é companhia, não é isolamento, mas sim compartilhar o pão de uma mesma mesa na qual Jesus é comensal e é alimento. Três lugares de encontro e três apoios fundamentais para o cristão. A assembleia da fé que escuta a Palavra de Deus e celebra a Eucaristia tem de ser um lugar de encontro com Cristo para os que não o conhecem nos dias de hoje.

Que este encontro com o Ressuscitado mude nossas tristezas e decepções na alegria de saber que Ele está conosco e nos acompanha como divino peregrino no caminho de nossas vidas.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Padre José Assis Pereira

* Padre José Assis Pereira Soares é párcoco da Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no bairro da Palmeira.

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