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Campina Grande - PB

A arte do útil e do fútil

10/07/2016 às 20:20

Fonte: Da Redação

jose-marioPor José Mário da Silva*

Depois de passar vários anos confinado nos limites da invisibilidade própria do chamado livro esgotado, Crônica: a arte do útil e do fútil de autoria do Professor-Doutor Wellington Pereira, em boa hora é reinserido no espaço do mercado editorial paraibano.

Originalmente escrito como uma exitosa dissertação de mestrado apresentada à Universidade Federal da Paraíba, o livro do eminente intelectual paraibano rapidamente transcendeu o estatuto de uma pesquisa acadêmica mais afeita à geografia interna do ser/fazer universitário e atingiu um horizonte de expectativas bem mais alentado: o daqueles que fazem da crônica literária porta de entrada e porto de permanência no fascinante território da literatura.

Com amplo domínio acerca da matéria sobre a qual se pronuncia de modo seguro e, ao mesmo tempo, valendo-se de uma linguagem dotada de alto poder comunicativo, o Professor Wellington Pereira percorre o itinerário da crônica, desde as suas origens folhetinescas até a sua híbrida e encantadora condição atual: a de uma arte que, transida entre a aparente futilidade da vida que se alimenta “ao rés do chão”, no lúcido dizer de Antonio Candido, e a utilidade antiutilitária dos discursos eminentemente artísticos, transfigura e reinventa o real, porque com Cecília Meireles aprendemos que “a vida só é possível reinventada”.

Teorizando e valendo-se dos aportes conceituais levantados para melhor apreciação do anfíbio gênero objeto de sua iluminada ensaística, Wellington Pereira foca, na parte final do seu rico estudo, nos cronicários de Machado de Assis e de Carlos Drummond de Andrade, dois exímios cultores da crônica nos quadros da literatura brasileira.

No Bruxo do Cosme Velho, a crônica foi a cartografia exata de um olhar vigilante que soube, como poucos, ser fiel à sua dissimulada condição de “terrorista disfarçado de diplomata”; e soube, de igual maneira, captar, por dentro, os bastidores do Brasil oficial e do Brasil real, tornando-se, por isso mesmo, um dos mais ácidos críticos do país. Crítica essa destilada nas asas de uma ironia fina e profundamente demolidora. Aqui, sem penalização do literário, a crônica é crítica social e consciente subversão da história.

Em Carlos Drummond de Andrade, a crônica, diria Eduardo Portella, “vive e sobrevive da permanente tensão que há entre o imediatismo circunstancial e o apelo à transcendência”, na medida em que, lírica em todo o seu cerne, parte do factualismo jornalístico e o supera pela atemporal palavra da literatura.

Crônica: a arte do útil e do fútil ratifica as sobrantes qualidades de pesquisador e de escritor do mestre Wellington Pereira, cuja perícia epistemológica, nada tendo de fútil, em tempos de banalização do saber, é útil roteiro de inteligência e sensibilidade, além de ser referência inafastável de consulta.

(*) Membro da Academia Paraibana de Letras

 

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