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A arca da fraternidade

Ailton Elisiário. Publicado em 12 de fevereiro de 2019 às 21:53

O Papa Francisco esteve agora visitando os Emirados Árabes Unidos, lugar de domínio da religião muçulmana e onde vivem cerca de um milhão de cristãos. O Papa recebera antes no Vaticano o Grande Imã Ahmed Muhammad Ahmed al-Tayeb, da Mesquita Al-Azhar do Cairo, no Egito, que é a maior autoridade do Islã sunita, encerrando dez anos de tensões entre a Santa Sé e a Mesquita de Al-Azhar.

Neste encontro o Papa e o Grande Imã assinaram um documento pelo qual convidam todas as pessoas de fé a se unirem e trabalharem juntas pela paz e pela convivência comum. A declaração conjunta objetiva estreitar os laços de irmandade entre as duas religiões e trilhar caminhos de paz e conciliação.

O documento que tem por título “Documento sobre a fraternidade humana em prol da paz mundial e da convivência comum” diz que “o pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o fato de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam”.

Nele os dois líderes religiosos escreveram: “Rogamos a nós mesmos e aos líderes do mundo inteiro, aos artífices da política internacional e da economia mundial, que se empenhem seriamente para difundir a cultura da tolerância, da convivência e da paz; que intervenham, o quanto antes possível, para impedir o derramamento de sangue inocente, e ponham fim às guerras, aos conflitos, à degradação ambiental e ao declínio cultural e moral que o mundo vive atualmente”.

Numa síntese simbólica do ato, o Papa Francisco comentou: “De acordo com o relato bíblico, a fim de preservar a humanidade da destruição, Deus pediu a Noé que entrasse na arca junto com sua família. Nós também em nome de Deus, a fim de salvaguardar a paz, precisamos entrar juntos como uma família numa arca que pode navegar pelos mares tempestuosos do mundo: a arca da fraternidade”.

No entanto, enquanto o papa e o imã buscam uma aproximação, contra isto se insurgem autoridades, setores da Igreja e católicos ultraconservadores alegando traição ao passado da Igreja e à doutrina católica e que as palavras do papa derrubam o Evangelho. Em outras palavras, estão a dizer que o papa é herege.

O historiador católico Roberto de Mattei disse que as declarações do Papa Francisco estão em desacordo com os ensinamentos dos papas Gregório XVI a Pio XI e o 4° Concílio de Latrão convocado por Inocêncio III, em 1213, desprezando os ensinamentos mais recentes dos papas Paulo VI a Bento XVI e o Concílio Vaticano II convocado por João XXIII, em 1961, que direciona a Igreja nos dias atuais. Disse ele: “Se os homens, de fato, em nome da fraternidade, são obrigados a viver juntos sem um fim que dê sentido ao seu sentido de pertencimento, a arca se torna uma prisão, e a fraternidade – imposta em palavras – é destinada à fragmentação e ao caos”.

Uma declaração de confronto e de não aceitação ao diálogo. Uma defesa do exclusivismo da Igreja e de rejeição ao pluralismo religioso. Pluralismo que a própria Igreja estimula, conforme a Carta Encíclica Ecclesiam Suam, do Papa Paulo VI. Nela, o Sumo Pontífice afirma que “a Igreja deve entrar em diálogo com o mundo em que vive” e passa a detalhar, em quatro grandes dimensões, as perspectivas dialogais da Igreja: a) o diálogo no interior da própria Igreja Católica; b) o diálogo com os cristãos não-católicos; c) o diálogo com os crentes em Deus, não cristãos; d) o diálogo com os homens de boa vontade, com aquilo que é humano.

Onde o papa derruba a doutrina do Evangelho? Ele está fazendo o que a Igreja mesma manda fazer. Então, há que se indagar: do que é feito o dogma da infalibilidade papal? O pontífice quando fala “ex cathedra”, isto é, no exercício de seu ofício de pastor e mestre de todos os cristãos, define uma doutrina de fé ou costumes que deve ser sustentada por toda a Igreja.

Na verdade, o papa está disseminando o Evangelho de Jesus Cristo que é Amor. Amor é união, respeito, compreensão, carinho, fraternidade. O Documento conclui desejando ser “um convite à reconciliação e à fraternidade entre todos os crentes, mais ainda entre os crentes e os não-crentes, e entre todas as pessoas de boa vontade; um símbolo do abraço entre o Oriente e o Ocidente, entre o Norte e o Sul e entre todos aqueles que acreditam que Deus nos criou para nos conhecermos, cooperarmos entre nós e vivermos como irmãos que se amam”.

As religiões devem estar unidas em torno da paz. O proselitismo religioso é que se constitui o grande mal, pois na ânsia de se sobrepor às demais, cada religião torna-se o verdugo de todas as outras gerando conflitos e guerras. A melhor forma de se evitar tais violências é exatamente o respeito mútuo. Este é o caminho de aproximação dos fiéis dessas diferentes religiões para um trabalho comum em prol da humanidade.

 

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

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