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A ampulheta

Ailton Elisiário. Publicado em 15 de janeiro de 2019 às 8:04

Hoje ganhei de minha mulher uma ampulheta. Como ela me disse, “sendo seu aniversário e gostando você de simbologia, acho que esta é uma boa lembrança”. De fato, ao virar mais uma folha do meu livro da vida, a ampulheta me fez reviver muitas cenas da minha história. A ampulheta que ela me presenteou faz a contagem do tempo a cada cinco minutos e nesse tempo em que a areia caía da âmbula superior para a inferior, com o olhar fixo em seu movimento minha mente projetou o filme de toda a minha existência.

Rememorei meu tempo de criança revendo minhas brincadeiras de menino, minha adolescência achando que era o dono do mundo, minha maturidade desejando dar conta de minhas responsabilidades, minha atualidade sentindo a paz de minha consciência. Anos de muita luta, de enfrentamento de dificuldades, de dores e sofrimentos, mas de igual modo também de superação de obstáculos, de conquistas de objetivos, de vitórias decisivas, de alegrias e felicidades, tudo repassado com emoção em apenas cinco minutos na passagem da areia na pequena ampulheta.

A ampulheta nos faz lembrar a passagem do tempo, mas esta ampulheta em especial me faz lembrar que minha alma tem pressa. Justo porque é curto o nosso tempo aqui. Se eu pudesse manter a ampulheta na horizontal não me preocuparia com o tempo, porque ele não passaria. Aí então, eu teria todo o tempo do mundo para meus projetos, minhas iniciativas, meus sonhos, que não param de florescer em minha alma. O tempo é permanente, nós somos temporários. A eternidade que queremos é aqui e agora, com nossos parentes, nossos amigos, nossos irmãos. Daí, temos que valorizar nossos momentos.

Não só trabalho, nem patrimônio. Não apenas acúmulo, nem desejos pessoais. Não somente eu, nem meus interesses. Nada faz sentido quando há unicamente a prevalência do eu. Nada somos por nós próprios. O amor infinito da família, a amizade verdadeira dos amigos leais, a boa relação dos companheiros de trabalho, os bons sentimentos da fraternidade, devem estar no topo da vida para que esta possa ser na realidade bem vivida e receber sua justificação. Viver exclusivamente para si próprio é terrivelmente tenebroso.

Se a ampulheta não pode ficar deitada, que bom seria pelo menos que o funil da ampulheta ficasse mais estreito, pois retardaria a queda da areia e mais tempo eu teria para as pessoas que eu amo, tanto as que estão comigo hoje quanto as que estão na minha memória, na minha saudade. Se com aquelas aprendo todos os dias e por elas posso fazer alguma coisa, com estas aprendi outrora e também por elas fiz algo. E por isto, este é um dia de alegria e de agradecimentos. Alegria por viver e agradecimento por fazer por elas e também por elas ter sido agraciado.

Neste dia, pois, tenho um só desejo e um só pedido. Meu desejo é que continue gozando da afeição da minha família, dos parentes, dos amigos, dos irmãos, para que eu possa continuar reconhecido pelo meu Criador. Meu pedido é que nossos laços de amor e amizade se tornem cada vez mais apertados, para que juntos e de mãos dadas possamos manter unidos nossos corações batendo no mesmo compasso da melodia do amor e da solidariedade. Só assim é que tem sentido a ampulheta jamais parar de contar o tempo.

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

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Ailton Elisiário

O autor é economista, advogado, professor da Universidade Estadual da Paraíba e membro da Academia de Letras de Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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