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1985 vezes

Ribamildo Bezerra. Publicado em 3 de fevereiro de 2017 às 11:53

Por Ribamildo Bezerra (*)

(Para tornar  essa crônica mais interativa acesse https://www.youtube.com/watch?v=1MnuW9fXWF4 e ouça a canção citada no texto enquanto lê)

Porque o tempo é apenas um vácuo numérico

(autor desconhecido)

Acomodou-se na poltrona semiacolchoada daquele aeroporto. Na prática, um ambiente conhecido já que tantas vezes, a trabalho, cruzou aqueles portões de embarque. Como jornalista aprendeu com a observação alheia, lição dos orientais. A vida sem metais era mais leve e menos burocrática na hora do embarque. Mocassins sem meias, blusa desensacada, relógio e moedas na bagagem de mão.

A notícia do atraso em seu voo, por duas horas, não o tirou do sério. Estava de férias. A primeira depois do fim do seu casamento.  Do divórcio amigável levou apenas os poucos livros, e o transtorno de ansiedade generalizada, adquirida em noites de expectativas, onde as dúvidas, as mágoas e o silêncio o acompanhavam. A famosa TAG  o fazia provocar tsunamis em copos de whisky todas as vezes que os  tremores o visitavam. Da companheira que virou amiga, a certeza de que aquela seria sua única história que teria se dedicado de corpo, neurônios e alma. O amor era um produto de embalagem bela, mas de conteúdo complexo, a ser provado apenas uma vez.

Mesmo estando no ano de 2016, a “tábua de salvação” para não cair em depressão pós- casamento foi fincada há trinta e um anos. Seus dois amigos de infância, daquele inesquecível ano de 1985, depois seriam sem pudor suas “muletas” emocionais diante de um processo difícil de desapego. Reinterpretar aquela situação tão dolorosa na alma com risos e ao lado de amigos foi uma onda necessária para que seu coração não se tornasse submerso em culpa e frustração. Além disso, teria se descoberto na corrida, um esporte que o fez trocar a Noradrenalina e o Cortisol pelo bem-estar da Serotonina e Dopamina. Dizia que, correndo alcançou o seu sorriso. Play List atualizada, já que não corria sem música, iria viajar para competir em um percurso de 10 km em uma cidade litorânea do Rio Grande do Norte, tendo como companheiros seus dois “anjos da guarda”, que lá já estavam praticando o etílico esporte de “levantamento de copo”, traduzido em tremidas selfies.

Nos aeroportos, buscava sempre a leitura de um livro, para espantar diálogos chatos, com gente que não veria nunca mais. Estava difícil a concentração, e logo em duas horas de espera?! Tentou abstrair e de repente sentiu seu coração ser levado por um dos hits que mesmo lançado em 1979 marcaria a sua infância – ‘Rock with you’ do Michael Jackson. Só que ali era uma nova versão, e com convicção tão afetivamente feliz quanto a original. A voz era feminina, e não estranha. O som vinha de um tablet de uma simpática mulher, com seus 30 anos.  Foi atrevido e perguntou: Quem canta? Ela tomou um susto, não quis ser deselegante e respondeu: Patrícia Marx. Ele riu, e tinha certeza de que aquela voz que tanto embalou seus hits infantis, havia sumido para sempre. Pediu o link para acessar pelo celular e ela replicou que poderia ser pelo WhatsApp. Sem problemas, respondeu ele. Justificaria aquele incomodo pela importância daquela música em suas memórias. Seu primeiro baile naquele ano de 1985, aos 11 anos, um beijo precoce dado por uma menina mais velha e jamais esquecido, pelo fato de ter sido engraçado ver outra língua entrar na sua boa sem pedir licença ou explicações.

Ela se divertiu com a justificativa, e disse que aquele período também a tinha marcado… era (ou foi?) o ano do seu nascimento.

Olhou-a de forma criteriosa, sem intenção. Seu sorriso lembrava a apresentadora de um telejornal. De gestos finos, desenhava com as mãos tudo o que falava. Era bela por ser espontânea, transmitia elegância e articulações nas ideias.

Foi um ano de muitos acontecimentos, para o Brasil, disse ele.

Paradoxais, rebateu ela. No dia em que nasci, 21 de abril, meu pai chorou a morte de Tancredo Neves.

Ele lembrava a imagem do porta-voz, Antônio Brito, anunciando em cadeia nacional a morte daquele que representava um novo sonho político para o Brasil.

O sinal da redemocratização viria pelo caminho mais lúdico: as artes.  O Rock In Rio em janeiro daquele ano, e Roque Santeiro, em junho, cinco meses depois. De uma certa forma ela dizia ter ido ao Rock In Rio. Sua mãe era uma daquelas grávidas que pintou a barriga com um símbolo hippie numa alusão direta a Woodstock e que viria ilustrar algumas revistas que cobriram o festival na época. Era a primeira noite que marcaria a história do festival , quando o Fred Mercury, líder da Banda Inglesa Queen, regeu mais de 270 mil vozes cantando a música Love of my life.

Ele lembrava ter visto essa cena pela televisão numa transmissão ao vivo, ao lado do pai que naquela noite exalava Mens Club 42. Mas também foi no festival que descobriu o que era autoestima quando o hit ‘Óculos’, da então desconhecida banda Paralamas do Sucesso, passou a ser o hino de todo nerd que usasse um simbólico “suspensório de lentes” no meio do rosto. Foi um jovem debandado pelas bandas de Rock Nacional.

Ela viu que ele não era um saudosista, mas puxou muitos assuntos sobre aquele ano. Falou de um filme que adotou como um coringa, De Volta Para o Futuro, que viria a  assistir, 12 anos depois, numa Sessão da Tarde. Já ele que gostava da trilogia, se orgulhava de ter assistido as aventuras do Marty McFly e o Doc Brown na tela grande.

Conversaram sobre tantos assuntos que mais pareciam ser amigos de longas datas. Tão instigante cada tema que mal se deram conta que não tinha se apresentado. Só soube que ela era historiadora por causa da defesa de sua tese de Doutorado, sobre a abertura democrática no Brasil pela Dramaturgia – o caso Roque Santeiro de Dias Gomes e Aguinaldo Silva. Aliás, a defesa de sua pesquisa justificava a sua viagem, por coincidência da cidade de onde ele tinha vindo. Destinos cruzados. A espontaneidade da conversa abreviou o tempo e aliviou almas. Sentia ele o sabor dos encontros casuais das comédias só presente nas comédias inglesas.

Ele embarcou primeiro, sem antes falar o quanto o ano de 1985, da geração new wave, ainda mandava sinais além do tempo, e que adorava quebrar regras. Ela não entendeu. Ele disse antes de partir: se a Patrícia Marx fez aquilo com o Michael Jackson, imagina quando ela gravar Mal de Mim, do Djavan.

Dormiu, durante o voo, com a leve sensação de ter tido um agradável presente da vida, aquele encontro. Ao ser recebido pelos dois amigos, foi logo interpelado sobre aquele brilho estranho e nos olhos. Ou tinha bebido durante o trajeto, ou tinha visto passarinho azul. Ele sorriu, mas negou a si mesmo qualquer outra intenção… o tremor do celular no bolso avisava que a conexão com o mundo virtual havia voltado. O primeiro recado no WhatsApp de um número desconhecido trazia  um afetivo lembrete… “Boa viagem… quebre as regras, 1985 chances de nos revermos. Prazer. Paula”. Para ele, não precisaria de uma máquina do tempo como o DeLorean DMC-12 do filme. Suas memórias o levariam àquele encontro quando bem quisesse.

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