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1817, A cidade das fitas brancas

Josemir Camilo. Publicado em 30 de agosto de 2017 às 7:59

Por Josemir Camilo de Melo (*)

No final de agosto, a capital da Paraíba assistiu ao encerramento solene da III Semana do Patrimônio, atividade registrada em A União (27/08/2017), pelo confrade do Instituto Histórico de Campina Grande, Thomas Bruno. O ponto alto foi a apresentação da bandeira revolucionária de 1817, toda branca, com um arco íris quase completo, ao centro. Imitação da de Pernambuco, sugestão dos de lá? Este período e o começo de setembro são de comemorar os revolucionários paraibanos de 1817, quando houve condenações e enforcamentos. O absolutismo matou uma revolução que seria regional, uma República Nordestina, cuja capital (administrativa) seria no interior da Paraíba, por sugestão do revolucionário pernambucano, o Padre João Ribeiro.

A Revolução, passo a passo, pode ser entendida, graças aos esforços do historiador e fundador do Instituto Histórico e Geográfico Paraibano, Irineu Ferreira Pinto, em seu primeiro volume de “Datas e Notas para a História da Paraíba”. Resumimos, aqui, algumas informações do autor.

Ruídos do estouro da Revolução Republicana no Recife, de 6 de março, chegaram à Paraíba, um dia depois. Arregimentação de rebeldes, organização de tropas, conjuras em esquinas, salões e conventos, levaram a eclosão do movimento republicano na capital paraibana. Em 14 de março, os militares, Amaro Gomes Coutinho e Estevão Carneiro da Cunha proclamaram a República e levantaram a bandeira branca da liberdade; distribuíram fitas brancas para serem levadas no braço. A Junta provisória republicana recebeu o apoio de milícias armadas vindas do Pilar, sob o comando do Padre Ignacio Leopoldo e de Antônio Pereira, que entraram na capital, com mais de 2.000 homens, comandados pelo sargento-mor das Ordenanças, Antônio Galdino Alves da Silva, do Pilar e o Capitão Manoel da Costa Lima. Formou-se a Junta Republicana, eleita entre aqueles líderes, com o Padre Antônio Pereira de Albuquerque, Ignacio Leopoldo de Albuquerque Maranhão, o mineiro e militar, Francisco José da Silveira e Francisco Xavier Monteiro da Franca..

Assim que assumiu o poder, leis sobre a economia foram emitidas. A Junta tomou as seguintes atitudes: aboliu novos impostos sobre carne verde, lojas, taverna etc., extinguiu as bandeiras e insígnias reais portuguesas, trocando-as por fitas brancas da liberdade; reduziu pela metade os direitos da Alfândega; removeu a criação de gado para o interior, em benefício da agricultura; perdoo metade dos direitos sobre o algodão exportado, e reservou, ao governo revolucionário, a venda de pau brasil. Declarou a igualdade entre estrangeiros e nacionais; instituiu o tratamento ‘vós’. Este documento foi assinado de engenho Pacatuba, em 24 de março de 1817, o 1º da Independência”. Trata-se, aqui, talvez, do primeiro registro desta expressão comemorativa, antecipando-se à de 1822.

A Junta conclamou voluntários ao serviço militar pelo prazo de 5 anos, proibiu a prisão por simples denúncia, ou acusações; perdoou, até, criminosos (nisto, foi criticada pelo Padre João Ribeiro, em carta). Para assegurar a expansão das ideias republicanas, a Junta fez seguir, para o Rio Grande do Norte, uma tropa de 50 homens, comandada por José Peregrino Xavier de Carvalho.

A revolução prosseguiu com a adesão de índios da Bahia da Traição, e da Vila Nova da Rainha (Campina Grande), sob a liderança do vigário Virgínio Campello e do português, José Nunes Vianna, comandante das Ordenanças que, depois, virou a casaca. Leu-se, no pelourinho da vila, um edital do governo republicano, levantando nessa ocasião, a bandeira branca da revolução.

No entanto, fracassado o movimento em Pernambuco, também caiu o da Paraíba. Na condenação, na Paraíba, um militar foi preso por ter comprado, com dinheiro de seu próprio bolso, fitas brancas e distribuídas com populares, que amarravam em seus braços e saíam aspirando a liberdade do jugo português. Os paraibanos foram julgados em Pernambuco, e condenados à morte por enforcamento, em 21 de agosto no Recife: José Peregrino Xavier de Carvalho, Francisco José da Silveira e Amaro Gomes da Silva Coutinho. Dias depois, saiu a condenação, à cadeia e degredo em Angola, do Padre Virgínio Rodrigues Campello. Em 6 de setembro foram enforcados, no Recife, os padres Antônio Pereira de Albuquerque e Ignacio Leopoldo de Albuquerque Maranhão; quase todos tiveram cabeças e mãos decepadas e expostas, em suas localidades, como foram as de Amaro Coutinho e Peregrino de Carvalho, na capital e arredores. Bandeiras brancas e fitas brancas para nossos eternos heróis.

(*) Professor, historiador, presidente da ALCG

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Josemir Camilo

* PhD em História pela UFPE, professor aposentado da UFPB, membro do Instituto Histórico de Campina Grande.

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