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15ª Semana Nacional dos Museus, o que fazer?

Noaldo Ribeiro. Publicado em 11 de maio de 2017 às 8:05

Por Noaldo Ribeiro

É incrível e lamentável, mas em pleno século XXI ainda existe gente que tem a equivocada visão de que os museus consistem num amontoado de velharias, peças soltas de séculos pretéritos, condenadas ao desuso. Caso fora assim, os chamados “ferros velhos”, normalmente cravados nas periferias da cidade, seriam excelentes museus.

É preciso atentar para o fato de que museus são espaços que abrigam memórias previamente “lapidadas”, devendo, pois, servir para pesquisa, educação, lazer, turismo e, sobretudo, diálogos, dado que os seus acervos precisam estar distribuídos sob a forma de histórias e narrativas meseográficas.

Trocando em miúdos, para ser digno de ser chamado de museu, o espaço deve adotar a prática de contar histórias que, por sua vez, são extraídas a partir da articulação de memórias que, geralmente, são apresentadas sob a forma de narrativas.

É bom destacar que, além de ser uma construção social, a narrativa é uma reinvenção do passado, interpretado pelo narrador, o que significa, em outros termos, reinventar o passado pelo o olhar daquele que o narra. Assim, pode-se expor a figura de João Carga D’água como um herói da Revolta do Quebra-Quilos ou como um bandido, ou, ainda, simplesmente omiti-lo desse evento histórico.

Isso acontece porque a elaboração da memória se realiza por um processo no qual se debatem o “esquecimento” e a “lembrança”. Nesse embate dialético o “esquecimento” exerce um desempenho crucial, pois permite destacar, segundo o filtro do narrador, o que deve “lembrado”.

Daí, em museus de todo o país, o predomínio de acervos representativos dos poderosos em prejuízo das camadas populares, demonstrando seu poder de legitimar, valorizar socioculturalmente, além de elencar e, em um só tempo, discriminar, produzindo “vozes” e “silêncios”, priorizando o que deve ser visto.

Contudo, na medida em que se estabelecer um diálogo com as camadas sociais, principalmente as “silenciadas” nas narrativas museológicas, até então apresentadas, provocar-se-á, nessas instituições alimentadas pela memória, um redirecionamento que as impeçam a impor a sociedade, complexamente diversificada, uma verdade absoluta.

Intervir nessa realidade requer colocar em discussão as “ausências” (silêncios) de grupos sociais até então ignorados.  Isto, porém não implica em abarrotar as instituições museológicas de peças e memórias, representativas da totalidade de todas as vertentes sociais.

Bem antes disso, é preciso refletir sobre os “silenciados”, os indizíveis pelos museus, identificando as chances oferecidas, por estes, na perspectiva de construir outras narrativas museológicas. São a partir dos “esquecidos”, e não dos “lembrados”, que se deve priorizar a reflexão. São eles que proporcionam a construção do passado e revelam os instrumentos de poder, legitimadores das memórias.

 O conjunto dessas ponderações é apenas uma precária resenha da lavra do Instituto Brasileiro dos Museus (IBRAM), instigando-os a participarem da 15ª Semana Nacional dos Museus, tendo como tema “Museus e histórias controversas: dizer o indizível em museus”.

Literalmente, o IBRAM sugere: “Quais as histórias que nossos museus estão contando? Como eles colaboram para a construção ou para o questionamento das versões oficiais dos grupos dominantes? Quais outras histórias precisam ser lembradas? Como trabalhar na expografia o confronto entre lembranças e esquecimentos?”. Este evento inicia-se de 15 a 21 de maio. O IBRAM pede que os museus brasileiros elaborem programações especiais e que esse pensamento crítico se reverta em diálogos com o público.

Embora se trate de uma boa oportunidade para os museus campinenses se articularem, ganhando nova vida, o momento é adverso. Salvo engano, somente o Museu de Arte Popular da Paraíba detém, atualmente, condições para bem receber o público. O museu Histórico e o da História e Tecnologia do Algodão, de responsabilidade do Poder Público Municipal, necessitam de alguns, mas indispensáveis reparos. Desde o ano passado a Prefeitura enviou projetos e recebeu sinalização de aprovo do Ministério da Cultura. Aliás, o governo trouxe até à cidade o próprio ministro de então, porém mudanças ocorridas no Ministério travaram a vinda dos recursos de modo a reiniciar a investida a partir do zero.

Como, nessas condições, pode-se puxar uma discussão tão complexa? Como o público vai posicionar-se sobre “que outras histórias precisam ser lembradas”, sem enxergar ao vivo e em cores o que está exposto nos museus? Pelo mesmo motivo, “Como trabalhar na expografia o confronto entre lembranças e esquecimentos?”.

Atrair os alunos da Rede Municipal de Ensino para palestras não parece ser uma medida profícua. Não é no embalo de ações esporádicas e sem material especializado que se vai promover a chamada educação patrimonial. Isto exige uma estratégia com início, meio e não fim, mas continuidade.

Daí vem à pergunta: O que fazer? Resta, em função desses embaraços descritos, empreender esforços no sentido de realizar discussões, mesmo que modestas, destinadas a pessoas (professores, pesquisadores, museólogos, diretores de outros museus…) que previamente já tenham conhecimento dos acervos desses museus para, numa discussão teórica, lançarem luz sobre esse instigante tema.

Num momento posterior cabe democratizar a discussão não apenas refletindo sobre o tema proposto pelo IBRAM, mas com a perspectiva de construir uma política para os museus.

Noaldoribeiro13@gmail.com

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Noaldo Ribeiro

* Sociólogo.

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