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1516

Álvaro Neto. Publicado em 2 de maio de 2018 às 9:22

Foto: acervo pessoal

 

No último dia 23 de abril completaram 502 anos daquela que é considerada por muitos a regulamentação mais antiga de controle de alimentos que existe no mundo: A Lei da Pureza Alemã. A lei promulgada pelo duque Guilherme IV da Baviera determinava que a cerveja só poderia ser produzida com água, malte e lúpulo. A levedura não era utilizada à época no fabrico da cerveja.

Existem alguns mitos que justificam o ato do duque, dentre eles uma ressaca, já que alguns cervejeiros da Baviera estavam numa fase inovadora, criativa, utilizando elementos novos na cerveja que não, necessariamente, a deixavam num bom padrão de qualidade.

Outro argumento era o da preservação da produção de trigo exclusivamente para a indústria alimentícia, em razão de uma safra frustrada, que poderia comprometer seu fornecimento. Ou ainda, que o objetivo era boicotar a fabricação de cervejas de trigo, na época monopólio de outra casa nobre, a casa dos Degenberg. Seria um golpe fatal, pois em 1602 quando Sigismund Degenberg faleceu sem deixar herdeiros, as propriedades da família foram repassadas ao clã dominante. Advinha qual era????

A Lei da Pureza Alemã é conhecida como Reinheitsgebot (te desafio a pronunciar), nome que recebeu apenas em 1918 quando já se tornara bem diferente da promulgada em 1516, para se adaptar as condições atuais do mercado produtor mundial.

Dizer que é a lei do tipo mais antiga da Alemanha é constetável. Em Augsburg, em 1156, havia uma lei muito mais diretamente ligada à qualidade da bebida, que determinava que o cervejeiro que fizesse cerveja ruim teria que doá-la aos pobres, ou simplesmente jogá-la fora. Outras legislações cervejeiras apareceram em Nuremberg em 1293, em Munique em 1363 até que em 1447 surgiu a limitação dos ingredientes, ignorada pelos cervejeiros por 40 anos, até que o duque Albrecht IV (pai de Guilherme IV) repetiu a ordem, que aparece em outra lei em 1493. Todas essas normas vieram antes da Reinheitsgebot, que, pelo visto, não trouxe grandes novidades.

Fato é que independente dos mitos e histórias que a cercam, a Reinheitsgebot se tornou um referencial para a produção de cervejas com qualidade e embora muitas das cervejarias que estampam em seus rótulos afirmem que a seguem (sem a seguirem), se preocupam em oferecer produtos de elevado padrão ao público consumidor.

Enquanto escrevo estou tomando uma Weihenstephaner 1516 cervejaria alemã, considerada a mais antiga em atividade no mundo. Sua fundação data de 1040. Uma cerveja do estilo kellerbier, de coloração âmbar, com boa formação e permanência de espuma, no aroma um agradável floral e de casca de pão que se confirmam na boca, equilibrados com o frutado do lúpulo. Uma cerveja refrescante, de alto drinkability nos seu 5,6% de graduação alcoólica. Prost!

Os artigos postados no Paraibaonline expressam essencialmente os pensamentos, valores e conceitos de seus autores, não representando, necessariamente, a linha editorial do portal, mas como estímulo e exercício da pluralidade de opiniões.

Álvaro Neto

Beer Sommelier formado pela Doemens Akademie de Munique e proprietário da Soul Cervejeiro, em Campina Grande.

falecom@fhc.com.br

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