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Campina Grande - PB

Coluna de Elizabeth Marinheiro: Tessituras

09/04/2017 às 13:05

Fonte: Da Redação

Por Elizabeth Marinheiro (*)

Acompanhei, sem assiduidade, a novela “Lei do Amor”. Chamava-me a atenção “cantar pela serra ao luar”, guiada por Bachianas de Vila Lobos.

As recordações do outrora, dentro de mim, traziam fatos emocionantes: os rios do sítio do meu pai; mamãe criando aves e porcos para vender; o trenzinho empurrado por meu irmão Figueiredo Agra; o claro-escuro do campo; as dificuldades familiares; até uma cobra dentro de uma cristaleira, descoberta nos longos da noite insípida…

Talvez, meu lado caipira tenha origem nos interlúdios de uma criança que desconhecia cidades. Mantenho saudade dessa infância.

Tal caipirismo leva-me, hoje, à vertente encantatória do amigo FERREIRA GULLAR, com quem convivi em minha casa e nos diversos encontros na Livraria Travessa, de Ipanema (RJ).

Conversas sérias e lúdicas, entre um e outro café.

Inúmeros estudos em torno da Poética do consagrado Autor maranhense. O ir e vir nas tessituras da escrita, avanços e recuos no tempo, interpolações e digressões já foram vistos, em “Poema Sujo”, que nem traços de Ravel, Smitano, Sibelius, Rakmaninoff e outros. Não sei…

Do “Poema Sujo” prefiro vincar a desarticulação dos campos semânticos estético; a alta voltagem da memória; a desconstrução do estatuto estético, transformando, por este prisma, a cidade de São Luis em catarse liríca.

Como bem disse Otto Maria Carpeux, o “Poema Sujo” é um Poema nacional porque mesmo exilado está perto, desvelando um “Brasil mesmo em versos ‘sujos’ e, portanto sinceros. Nada mais atual!

As neuroses do Modernismo/22 e da Geração/45 não são destronados apenas em “Poema Sujo”. Em “A Luta Corporal”, “Na vertigem do Dia”, “João Boa-Morte, cabra marcado para morrer”, a exemplo, Gullar, ao fugir dos experimentalismos, desmantelou o verbo para falar as dores do homem enclausurado.

Por esses títulos, passam os ruidos urbanos; o silêncio das coisas; o carnaval; a infância, enfim, a existência no quarto “militar” de Buenos Aires desmantelando sintaxes e fronteiras a fim de fundar a novissima Literatura Brasileira.

Se meu Poeta partiu sabendo que “o dia claro ainda não surgiu”, ele permanecerá como testemunho de uma época e legítimo inovador da Poesia e Prosa brasileiras.

Pessoalmente, permanecerei com o inconsciente coletivo (também dicção gullariana) e cantarei:

“Lá vai o trem com o menino

Lá vai a vida a rodar

Lá vai ciranda e destino

Cidade e noite a girar

Lá vai o trem sem destino

pro dia novo encontrar

Correndo vai pela terra

Vai pela serra, vai pelo mar

Cantando pela serra ao luar

Correndo entre as estrelas a voar

No ar, no ar…” FERREIRA GULLAR (in novela Lei do amor)

No trem-menino chegarei às estrelas que giram em torno do meu imaginário!

ABRAÇOS ESPECIAIS.

Bem amigos para Roberto Loureiro; Carmem/Mouna Noujaim; Gustavo M. Ramalho; Luciene Pereira (CLIPSI); Inezita Maracajá; Ignezinha Dantas; Virgílio Brasileiro; Conceição Araújo; Lindomar Farias;

E ao meu leitor, muitas esperanças.

(*) Ensaísta

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