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Arimatéa Souza

Um jeito atípico de imortalidade

Da Redação. Publicado em 13 de junho de 2020 às 13:32.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Ao cabo de pouco mais de 1 ano da realização da solenidade de minha posse na Academia de Letras de Campina Grande, eis que me dei conta da necessidade de compartilhar do texto que verbalizei na ocasião com os amigos e leitores que não tomaram parte na aludida solenidade.

É o que segue, consciente de que o tempo já avançou bastante entre o presente e o momento de ingresso na confraria da Rainha da Borborema.

As ilustrações fotográficas são do querido amigo e notável profissional, repórter-fotográfico Leonardo Silva.

Em tempo: ao final, está disponível o link com o discurso de acolhida, pronunciado pelo amigo e mestre, acadêmico Ailton Elisiário.

Muito boa noite a cada um e a todos

Aqui estou! Chego premido pelos prazos e em descompasso com o intervalo de tempo natural entre a eleição e o solene ato de posse. Chego tangido pelas cobranças afetuosas do querido amigo e professor Ailton Elisiário e pelas inquirições públicas da professora Betinha Marinheiro. Chego, diria de outro modo, não há como negar, por contemplar bem próximo o precipício do jubilamento.

Chego diante da inquestionável notificação de nosso presidente, professor Josemir Camilo, um amigo cuja convivência acadêmica foi precedida pela colaboração e até perseguição cotidianas, com outros conselheiros, do desafio de levar adiante o sonho de manter em Campina Grande uma histórica fundação cultural, como é o caso da querida Furne que, por sinal, fornece abrigo a esta Casa de Amaury Vasconcelos, enquanto a sede definitiva não se converte em realidade.

Chego para esta casa onde possuo amizades tecidas com a maturação do tempo e com a identidade de conceitos. Esta posse é fruto da vontade de 16 acadêmicos, muitos deles a essa altura apenas habitando a nossa lembrança. Mas esta posse é igualmente mérito de pessoas que transitaram por minha vida com durações variadas, mas com singulares influências e contribuições.

Parafraseando o meu inesquecível amigo e imortal Robério Maracajá, chego aqui para servir à Academia. Ele (Robério) foi além na sua artesanal e genuína arte de modelar frases e disse que “a máquina de escrever e depois o teclado do computador sempre foi as minhas asas. E o escrever, assim me parece, uma janela aberta ao infinito”.

Além do pai biológico, João Lopes de Souza, há muitos anos noutra dimensão, devo registrar que na cronologia das recordações tive a bênção de contar com valiosos ensinamentos e orientações. Foram verdadeiros pais adotivos que me ajudaram nessa trajetória simples, mas que muito me orgulha. Resumiria em quatro pessoas, desejando homenagear a todas.

Inicialmente cito o advogado José Cursino de Siqueira, ex-superintendente da querida Rádio Caturité, um homem de coragem ímpar e de retidão contagiante, que ensinava harmonizando em doses certas a força do exemplo e a riqueza de sua densa formação intelectual.

Menciono o querido jornalista William Monteiro de Lima, que me ofereceu as primeiras e inesquecíveis orientações na debutância da atividade jornalística. Além de sua cultura, William tem um diferencial que me é caro: mora também no querido bairro Liberdade, um espaço geográfico que não prescindiu de mim nem na minha chegada ao mundo, pois nasci na rua Rio de Janeiro, local onde minha mãe morou por quase 72 anos – diga-se de passagem – na mesma casa. Ainda sobre William Monteiro, registro e alerto aos colegas acadêmicos que urge a vinda dele para esta Academia.

Ainda nesse leque do que chamaria de ´paternidade conquistada´, destaco agora o jornalista e executivo Mozart Santos, um baiano que adotou Campina Grande como a sua terra. Diria como anverso da encantadora Paris, para onde se desloca com frequência em busca das luzes próprias à chamada cidade da luz. Falo da reenergizante capital francesa. A sua experiência, estímulo e amizade são indeléveis.

Registro, ainda, a imensa influência de um presente que Deus me deu, que foi a amizade com o inesquecível Dom Luís Gonzaga Fernandes, ex-bispo diocesano desta cidade. Religioso de cultura imensurável, mas que simultaneamente sabia evangelizar com uma simplicidade pouco comum, assimilável por todos os públicos.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Guardo dele muitas recordações e ensinamentos que sintetizaria na reprodução recorrente que ele fazia de uma frase do escritor português Fernando Pessoa, que tanto Dom Luís adorava: “Ari, lembre sempre: a vida é muito curta para todos os nossos ideais”.

Mas muitos questionavam – e hão de questionar neste instante – por qual razão esse novo acadêmico permaneceu por tanto tempo refratário ao ´batismo´ desta Academia?

Poderia elencar diversos motivos de gradações diversas e de assimilação passível de contestação. Entretanto, concentro a justificativa na frenética atividade laboral que desempenho.

O jornalismo mudou bastante desde que, na distante década de 80 do século passado, perambulava pelas redações dos jornais locais Diário da Borborema, Jornal da Paraíba e Gazeta do Sertão em busca de espaço para a publicação de artigos e crônicas que escrevia e de uma chance para um estágio, mesmo não remunerado.

Sou, efetivamente, um profissional de imprensa analógico, que transpira muito para minimamente conseguir acompanhar o alucinante ritmo do noticiário na atualidade, que consome esforço, dedicação e, principalmente, tempo. Mas mantenho a imprescindível paixão para executar esse labor. E isso requer tempo quase integral.

Essa formação analógica não impediu de, há 16 anos, juntamente com alguns colegas, lançar as sementes do que estava por vir de forma intensa no mundo da comunicação, com o lançamento do site de notícias PARAIBAONLINE, uma mistura de ousadia e utopia que em 2019 faz 16 anos de vida.

Mas, como disse o inesquecível amigo e acadêmico Ronaldo Cunha Lima, ao tomar posse na Academia Paraibana de Letras, “não sofri pela espera nessa longa trajetória que me trouxe até aqui. Aproveitei o tempo para enriquecer a vida e sedimentar a lama existencial. O tempo conspirou para que estivéssemos juntos hoje. O meu velho sonho curtido nessa longínqua estrada de ansiedades somente é maiúsculo porque é desse jeito”.

Mais recentemente, em outra solenidade de posse nesta Academia, o procurador de justiça e acadêmico Agnelo Amorim sublinhou que “espichar o tempo da nossa passagem pelo mundo, como se estivéssemos assim fazendo com um couro de bode, não é novidade. Agora, encurtar a dita imortalidade ou as vereadas para se chegar lá, pode parecer ilógico, por motivos óbvios, mesmo que se esteja diante de retardatários da perenidade transitória”.

Entre a minha já distante candidatura e eleição e esta posse, ficaram pelo caminho as três Marias de minha vida. Na cronologia do chamamento de Deus, primeiro elevou-se Maria Odete, a tia que encarnava a minha segunda mãe. Depois Luíza, a única irmã que por muitos anos desempenhou diuturnamente as atribuições de mãe, diante da necessidade do trabalho externo de nossa genitora. E, por fim, Dona Madalena, minha mãe e até cúmplice, de convivência intensa e diária. Rigorosamente diária, até os dias atuais, em outra dimensão.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Esta cerimônia não deve ser uma linha de chegada. Há de ser plataforma para consumar a essência da inspiração e razão de ser desta entidade: catapultar no tempo as palavras, exemplos e, especialmente, o saber dos que nos antecederam, perpetuando a magia do conhecimento em prosa e verso.

Daí vir a tão decantada e deturpada imortalidade. Nada de humano, como não ilações generosas ou irônicas correntemente feitas. A imortalidade é a busca incessante para fazer do acervo dos membros desta Casa uma espécie de legado às gerações que se sucedem. Além do mais, como disse com a sua insuperável verve de sagacidade o acadêmico Agnelo Amorim, a dita imortalidade nossa se esvai após a localidade Cajá no caminho que nos leva à Capital do Estado.

Permitam-me reiterar a satisfação adicional de passar a integrar uma entidade abrigada – transitoriamente, é verdade – nas dependências da Fundação Universidade Regional do Nordeste – berço da amada e inesquecível UEPB.

A Furne pegou-me menino de calça curtas e, muitos anos depois, entregou-me homem feito e diplomado à sociedade. Corre nas minhas veias um sentimento imprescritível por essa instituição.

Quero ser instrumento e adubo para que se intensifiquem as parcerias entre a Academia de Letras e a Furne, em prol da educação e da cultura de nossa região. Como canta Beto Guedes, um mais um é sempre mais que dois.

Não me canso de repetir uma lapidar frase pronunciada por um amigo memorável, cuja saudade bate à porta a cada dia, por força do seu desmedido carinho para comigo e em razão de sua inteligência privilegiada.

Falo do professor e acadêmico Vital do Rego, para quem a Furne/UEPB era o maior patrimônio e a maior esperança de Campina Grande.

Tenho outros registros e agradecimentos a fazer, mas a condição de novo acadêmico impõe que antes disso mergulhe sobre os que me antecederam nessa cadeira que passo a ocupar – e, espero, honrar dia a dia.

Começo a louvação aos ditos imortais desta cadeira 17. E aí vai a primeira confissão pública. Até há alguns anos, Manoel Tavares Cavalcanti, o patrono, era para mim um obscuro personagem de nossa história que emprestava o seu nome a uma conhecida rua do centro campinense, próxima à antiga estação rodoviária.

Mas o patrono desta cadeira 17 teve uma trajetória marcante, ao ponto de ser escolhido para essa honraria. Nascido na vizinha cidade de Alagoa Nova, em agosto de 1881, Tavares Cavalcanti tinha na sua memória extraordinária um de seus traços marcantes.

Além de historiador, jurista e pensador, o imortal Tavares Cavalcanti também enveredou pelo magistério, tendo lecionado no famoso Liceu de João Pessoa com uma particularidade que traduz a sua excepcionalidade: ensinou todas as disciplinas que a escola o designou: História Geral, História do Brasil, Ciências Físicas e Naturais, História da Literatura Brasileira, línguas latinas e economia. Um verdadeiro artista dos sete instrumentos, para invocar a expressão de Ernani Satyro, sobre quem me reportarei logo a seguir.

Mas a tal da política o fisgou. E o professor polivalente se quedou aos encantamentos da tribuna e foi ser deputado no começo do século passado. Alternadamente, conquistou mandatos até 1929.

Destaco, por nos tocar diretamente a um drama recente, um discurso de Tavares Cavalcanti em 1910 na Câmara Federal. Da tribuna, alertou sobre a calamitosa situação do abastecimento d´água de várias cidades paraibanas, notadamente de Campina Grande, que vinha sendo socorrida, em termos de água potável, por meio do transporte ferroviário. Como se deduz, o fantasma da falta d´água nos acompanha e nos ameaça há muitas décadas.

Ainda na Câmara Federal, em 1929, Tavares Cavalcanti proclama que “governar não é resolver um ou outro problema, mas resolver a complexidade dos problemas e, ainda mais, coordenar as atividades e energias em torno de prioritários assuntos”.

Ao sintetizar o perfil de Tavares Cavalcanti, Ernani Satyro realçou que ele “não trazia o facho para o incêndio, nem a carga para a tempestade. Não trazia o grito para a arrancada. Mas nunca fugiu da linha de frente. Nunca foi infiel ao compromisso”.

E verbalizo agora a segunda confissão do dia. Até mergulhar há alguns anos na vida de Ernani Satyro, através de conversas com o ex-deputado e acadêmico Evaldo Gonçalves, não tinha a dimensão de sua intelectualidade.

Ernani, era, por assim dizer, um ex-governador da Paraíba que tratou com equidade as duas maiores cidades do Estado, algo raro em tempos recentes e cuja ausência tem nos custado caro e até nos mutilado.

Para ficar apenas em dois exemplos emblemáticos, o seu governo construiu – de forma praticamente simultânea – os estádios e as centrais de abastecimento de João Pessoa e de Campina.

Também passou pela Câmara Federal, Superior Tribunal Militar e foi prefeito de Joao Pessoa. No total foram oito mandatos públicos. Diria que a política arrebatou pra si o invejável homem das letras.

O apego de Ernani a Campina foi proclamado em seu discurso nesta Casa. Disse com todas as letras que era Campina a cidade que queria para ser acadêmico, mesmo já pertencendo a outras entidades similares. Ele exclamou muitas vezes que Campina foi escolhida para ser o seu segundo berço, após a cidade natal – Patos no Sertão.

Não por acaso, os seus dois primeiros romances – O Quadro Negro e Mariana – são ambientados em Patos e Campina, respectivamente.

Aliás, a obra O Quadro Negro mereceu uma menção especial do notável poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, reproduzida no volume inicial do livro “Ernani Sátyro, Amigo Velho – Uma Biografia”, de autoria de seu sobrinho, Flávio Sátyro Fernandes, ex-conselheiro do Tribunal de Contas do Estado.

“O Quadro Negro não me pareceu apenas um romance a mais, mas uma obra literária em que o dom de fixar o mundo exterior se alia a uma fina percepção do mundo interior, resultando daí uma impressão de verdade artística”, dimensionou Drummond.

Em memorável discurso no Congresso Nacional – e bem sintonizado com os dias atuais -, Ernani Satyro afirmou que “o maior mal que as oposições podem causar ao povo e ao governo é dar tréguas ao seu combate de críticas a erros e desatinos. Os governos tomam-se da maior audácia e supõem mortos os protestos da oposição independente. É preferível arrostar com qualificativo injusto de oposicionista sistemático a permitir com o silêncio que recrudesça a fúria dos potentados”.

Quando do transcurso do cinquentenário de vida pública de Ernani, o ex-deputado Evaldo Gonçalves resgatou três momentos que atestam bem o ímpeto e a personalidade do ex-governador e ex-ocupante desta cadeira de número 17.

“Se grande é a vida, dentro da vida o mais importante é lutar. De minha parte, enquanto me restar uma gota de energia, estarei lutando”.

Ainda Ernani: “Pequeno, muito pequeno, é o meu poder de decisão nos grandes problemas do meu País. Ninguém, no entanto, mais do que eu, empenha todo o seu ser em tudo aquilo de quanto participa. Nervos, sangue, espírito, coração. Eu estou todo em tudo quanto faço”.

“Não vim ao mundo apenas para testemunhar. Vim para pugnar, acusando ou defendendo. Julgando executando, construindo e humanizando”, verbalizou Ernani Satyro.

Enveredo agora pelo mais recente ocupante desta cadeira 17, e a quem me cabe suceder na linha direta. Falo do professor, jornalista, escritor e educador Stênio Lopes, um cearense nascido em 1916 na cidade de Pacoti, que também adotou Campina como o seu segundo berço.

Permito-me logo mencionar o mais distante, no tempo, ponto de interseção pessoal com o professor Stênio. Na década de 60 do século passado, ele atuou como superintendente da Rádio Caturité, casa que me acolhe desde a década de 80, o meu segundo lar, por assim dizer.

Mas adiante, e cito isto como uma demonstração palpável da sua assimilação do espírito campinense, o Jornal da Paraíba, do qual fui editor, carecia de um editorialista, ou seja, de alguém que escrevesse de forma impessoal a opinião da empresa sobre os fatos em evidência.

Sugeri à direção do JP o nome do professor Stênio, com imediata acolhida. E, ao procurá-lo para fazer o convite, desidratei as suas resistências de ordem temporal com o argumento de que a cidade que sediava o jornal carecia de alguém que tivesse sintonia com o seu pulsar. E a aceitação foi imediata.

O professor Almiro de Sá Ferreira, ex-superintendente do Senar na Paraíba, pontifica em prefácio de um livro do professor Itapuan Botto Targino que “Stênio não é daqueles que estão no mundo simplesmente para passar, para testemunhar. Ele veio ao mundo, definitivamente, para ser protagonista de uma nobre missão social, de cunho educacional e cultural”.

Citei há pouco o professor Itapuan Targino, porque no seu livro sobre Stênio ele introduz a obra acentuando que “predestinado é aquele que nasce com a missão de fazer alguma coisa útil, exercer determinada função, quase sempre ligada a uma causa nobre. Um homem com esse perfil associa de tal forma a sua maneira de trabalhar em favor dessa causa, desse princípio, que fica difícil separar o homem e a empresa ou instituição a que pertence ou pertenceu”.

Essa referência não foi em vão. Diz respeito à prolongada e diária vinculação do professor José Stênio de Lucena Lopes ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – o Senai, que ele ajudou em sua ampliação e consolidação no Estado. Foram trinta anos de dedicação sequencial.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Stênio Lopes exerceu outros cargos relevantes, a exemplo de Delegado Regional do Ensino, no Ceará; professor de vários colégios; articulista de vários jornais; secretário de Educação de Campina Grande; e membro do Conselho Estadual de Educação.

No plano acadêmico, ele publicou vários livros além da intensa produção para a imprensa regional, começando por ´Roteiro de Eça de Queiroz´, por ocasião do centenário de nascimento do romancista português.

Cabe realçar neste instante a obra ´Velha Fazenda, Velhos Costumes´, que reproduz rica e contextualizadamente a vida nas fazendas pelo interior nordestino.

Na contracapa da obra, o acadêmico Agnelo Amorim grifa que “as obras literárias valem e permanecem pelo que representam e projetam, em termos de naturalidade, espontaneidade, registro e mensagem”.

Essa mesma obra – ´Velha Fazenda, Velhos Costumes´ – mereceu do lendário político e escritor paraibano José Américo de Almeida uma correspondência, na qual José Américo diz que leu a obra “com a emoção de estar revendo também a minha infância. Estou, desse modo, apto a testemunhar a fidelidade de suas reminiscências no traço humano, na fixação do panorama social, na fotografia dos aspectos físicos, em tudo que compõem essa moldura antiga”.

Na parte final da correspondência, José Américo afirma a Stênio Lopes que “a seca tem seu quadro real, vivido com a sobriedade comovente de quem que se acostumou com a adversidade do meio e a pinta com as cores próprias, sem nenhum romantismo, para poder merecer fé”.

Quando da chamada de Stênio ao plano superior, oportunamente o presidente da Federação das Indústrias da Paraíba, Francisco Buega Gadelha, frisou que ele era um ícone de Campina e “preocupou-se imensamente com o desenvolvimento da cidade, como se fosse um nativo”.

Quando do lançamento do livro de Stênio ´Campina Grande e seu Destino´, o ex-senador Marcondes Gadelha revelou que “eu comprei as suas ideias antes dessa publicação, como autor do prefácio. Fiquei impressionado com o volume de informações e a consistência das análises. Na verdade, é um curso completo sobre Campina”.

Entusiasta desde sempre pela causa da transposição do Rio São Francisco, Marcondes Gadelha destacou a conversão de Stênio à obra após uma incisiva resistência inicial. Posteriormente, o professor Stênio asseverou que “sem a transposição Campina não tem futuro”. O tempo mostrou que Stênio e Marcondes estavam absolutamente certos.

Marcelo de Figueiredo Lopes, um dos filhos do professor Stênio, frisou, quando de sua morte, a total inserção do pai na vida social da cidade, e que, mesmo nos momentos crespusculares da vida, ele alertava acerca dos “descuidos” das autoridades com a barragem de ´Boqueirão´ e o desmatamento de suas margens, o que deixava a área em seu entorno à beira da desertificação.

Adriano, outro filho de Stênio, lapidou a síntese perfeita: “Eu perdi um amigo e ganhei um anjo da guarda”.

Ganhamos todos nós, campinenses, acrescento agora.

Como foi possível perceber, passei ao largo do registro fúnebre dos que me antecederam, por entender que a essência da Academia é dar contornos de perenidade às obras de seus ocupantes, atemporalmente. Como dizia o papa João Paulo II, um corpo frio e inerte não é, não pode ser, a última etapa da vida.

Muito mais poderia falar acerca dos acadêmicos aqui mencionados. Mas esse é um saudável compromisso e exercício que se descortina com este ato.

Já vou avançando para a conclusão deste discurso, onde as palavras ficam secundarizadas diante da alegria e da gratidão de tê-los a testemunhá-las.

São incontáveis os agradecimentos que deveria fazer neste instante. Pessoas que foram especiais na minha caminhada de tantos anos na atividade jornalística e até nas que a precederam. Por contingência do tempo, simbolizarei a gratidão em algumas delas, mas todos os meus amigos, colegas de trabalho e familiares sintam-se reverenciados.

Inicio por meus pais. Filho caçula de uma família humilde, tive o singular privilégio de ser o único entre os meus irmãos a estudar num colégio privado – o então renomado e para muitos inatingível Colégio Integrado da Furne. Para esse intento, foi indispensável a ajuda da minha prima Lucimar, aqui presente, que criou as condições para que eu pudesse desfrutar da melhor formação escolar possível àquela época.

Para que esse privilégio fosse possível, muitas adequações e limitações tiveram que ser feitas no orçamento familiar. Mas em nenhum momento houve um só lamento ou hesitação a esse respeito. O fato de estar aqui hoje é fruto e consequência das opções de meus pais.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Meu pai João, que já se foi como já registrei, tinha apenas o antigo primário, mas total consciência de que nenhum investimento seria mais valioso e duradouro do que a educação. Apesar de suas limitações curriculares, alertava – há muitas décadas – que não havia outra modalidade de ascensão social decente que não passasse pela educação.

Reverencio dois tios – Sílvia e Manoel -, que residiam no longínquo Rio de Janeiro. Eles custearam por muitos anos boa parte do meu material escolar e até de anuidades escolares. A gratidão a eles é imorredoura, pela ajuda em si e pela sensibilidade em identificá-la.

Devo aproveitar este momento para externar um agradecimento público a uma pessoa que não desfruto da convivência há muito anos, mas que teve uma decisiva importância na minha formação humana. Falo da profissional em Ciências Contábeis Rosemary Barbosa Souza Lira, com quem tive o prazer de desempenhar a minha primeira experiência de emprego.

Além dos ensinamentos profissionais, Rosa – como costumo chamá-la – teve um papel marcante na minha formação. Ensinou-me, há muitos anos, o respeito à igualdade de gêneros, num tempo em que poucos falavam ou respeitavam isso, e igualmente ajudou-me a tecer sonhos e contemplar o horizonte não como algo inalcançável, mas como um norte a ser buscado.

Minha mãe nunca fugiu à regra comum às famílias: um carinho sempre diferencial aos caçulas, com o adicional de uma gravidez de risco já beirando os 50 anos de idade, na distante década de 60 do século passado. Não por acaso, amanhã é a data de seu aniversário.

Meus irmãos – Manoel, Luíza, Edson e Luiz -, os dois primeiros já no plano superior, sempre foram parceiros constantes do meu apego pela leitura. Todos, indistintamente, subsidiaram parte de minha formação. É dever de justiça agradecer publicamente! Na verdade, na adolescência, a leitura era uma das poucas alternativas que restavam diante do rigoroso controle de minha mãe no tocante às saídas para brincar fora do alcance de seus olhos.

Nesse campo da leitura, permitam-se fazer uma breve digressão. Duas pessoas foram muito importantes nessa compulsão pelo aprendizado. A primeira delas, o padre José Assis Pereira Soares, amigo de mais de três décadas, que incentivou-me muito a avançar no campo das ciências humanas.

O outro registro é encharcado de saudade, de muita saudade. Refiro-me outra vez ao meu amigo, e não erraria se dissesse um pouco de pai, dom Luís Gonzaga Fernandes. A falta que ele me faz dói na alma. Poucas vezes se observam amigos de gerações tão afastadas se entenderem de maneira ampla. Para Dom Luís, ler era tão indispensável quanto respirar.

Nesse campo das vinculações sentimentais, há cadeira cativa para duas pessoas jurídicas facilmente identificáveis. A minha querida Rádio Caturité, que chamo de minha segunda casa. E também a Rede Paraíba de Comunicação, onde atuei durante quase três décadas. Ressalto a pessoa de seu diretor-presidente, José Carlos da Silva Júnior, empresário que dignifica nossa terra e é, ao mesmo tempo, espelho e referência.

Agrega-se nesse leque de generosas acolhidas e convivência a TV Itararé, onde reluz a inteligência e a inquietude empreendedora do doutor Dalton Gadelha.

Por fim, mas com acumulada intensidade, a manifesta devoção aos filhos ofertados por Deus e gerados pela companheira de mais de três décadas Rosa Lúcia Vieira Souza.

Thiago, o caçula, é, em muitos aspectos, reprodução fidedigna do meu pai: nos gestos, nos hábitos, no humor e em várias outras facetas. Deborah Camilla – aquela mestre-de-cerimônias ali – é a primogênita que me confere o prazer de herdar a minha profissão, com reconhecido talento e identificação.

A satisfação é potencializada porque – acreditem – em nenhum momento a doutrinei na opção profissional. Pelo contrário. Mas, como diz a sabedoria popular, a gente nasce pro que é.

E o que dizer da companheira Rosa Lúcia? Os anos já falam quase tudo. Começamos a namorar quando tinha 16 anos e ela 15. Um criou o outro. Um completou o outro. Um faz a catarse do outro, diante das intempéries do mundo contemporâneo.

Em Rosa Lúcia, a tolerância e a compreensão jorram abundantemente. Ela absorve, entende e estimula minha devoção ao jornalismo. Além dos filhos que me deu, brinda-me cotidianamente com um desmedido carinho; conserva os arroubos e a inocência próprias da juventude; embala de alegria e de afeto todos os dias, com a regularidade das auroras.

O que dizer mais, depois dessas prolongadas palavras, para apor o ponto final e renovar a todos e a cada um o agradecimento sincero pelas presenças nesta noite?

Registro o agradecimento a todos que, em escala variada, contribuíram para que essa solenidade ocorresse, em especial à direção do Fórum Afonso Campos, na pessoa do juiz Gustavo Lira; do gerente Agnelo Oliveira, e do fraternal amigo e juiz Horácio Ferreira de Melo Júnior.

Foto: Leonardo Silva

Foto: Leonardo Silva

Agradecimento particular ao agora confrade e professor Ailton Elisiário, que foi um adepto de minha candidatura desde o primeiro instante e que há pouco fez, com a generosidade e sensibilidades que lhes são próprias, o discurso de recepção.

Ailton também é uma pessoa para quem o bairro da Liberdade é mais do que um conceito intocável. Significa também personagens, ambientes e caminhos que emolduraram boa parte de sua vida num bairro que tem esse nome e esse estado de espírito.

Não há como deixar de propagar o cumulativo amor a Campina Grande. Uma cidade singular. Sobre Campina, uma frase traduz tudo: o limite do amor, é a amar sem limites!

Para embalar o boa noite, uma feliz expressão do papa Francisco: “Deus não cansa de perdoar… Nós é que cansamos de pedir perdão”.

Muito obrigado, um abraço e um beijo para todos!

Discurso de recepção ao novo acadêmico:

https://paraibaonline.com.br/ariblog/discurso-de-saudacao-a-posse-de-arimatea-souza-na-academia-de-letras/

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