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Arimatéa Souza

Rua minha deusa

Arimatéa Souza. Publicado em 24 de julho de 2022 às 21:24.

De cara, devo dizer que o título escolhido acima é um trocadilho com a música ´A Deusa da Minha Rua´, uma das canções marcantes do inesquecível e singular cantor Nelson Gonçalves. Quero falar sobre a rua Rio de Janeiro, no bairro da Liberdade, em Campina Grande. Meu berço, há tantas décadas.

Foto: Paraibaonline

Foto: Paraibaonline

Tão cúmplices ´nos conhecemos´, que ao nascer na referida rua lá permaneci, enquanto minha mãe (Dona Madalena) teve que ser levada para internação hospitalar devido a complicações pós-parto.

Meus pais foram a segunda família a habitar a ´RJ´, na primeira metade do século passado. Oportunamente haverei de me aprofundar neste aspecto.

A rua, similar a tantas outras na percepção dos habituais transeuntes, ou de quem por nunca ou pouco transitou por lá, era um logradouro como outro qualquer. Mas o seu diferencial derivava notadamente de sua agitada rotina

No presente antológica rotina e movimentada rotina é quase uma página inteiramente virada. As noites são varadas com absoluto silêncio ou com calçadas abandonadas.

No passado saltitante na memória, as conversas fluíam. A bem da verdade, até ´ilegalidades consumistas´ aconteciam, sob a tolerância ou desconhecimento de que não interrompia o sono para reprimir a boemia vicejante nas vizinhanças.

Gradativamente, muitos ´visitantes´ se agregaram a esse ´plenário à luz da lua´, ou ao ´bacurau´ na expressão de seus protagonistas da época.

A vida matrimonial me levou a deixar a ´Rio de Janeiro´ como morador regular, convertendo-me em ´frequentador diurno´, em face das visitas diárias à residência onde minha mãe e irmã residiam – o emblemático número 291.

Com o passar do tempo, a Páscoa sucessiva dos moradores mais antigos e a mudança de residência das gerações seguintes fizeram com que a ´RJ´ inexoravelmente modificasse o seu perfil.

Remanescem por lá poucos moradores dos tempos áureos de memoráveis festas, incontáveis brincadeiras, históricos comícios, paixões adolescentes e de alegrias obtidas com simplicidade e espontaneidade.

Em suas esquinas instala-se progressivamente o silêncio – a modalidade mais dura de manifestação da saudade. Onde havia muitas conversas, sorrisos e até cantorias, reina a frieza da ausência em qualquer estação do ano.

Estas lembranças reflorescem diante da amarga contemplação da monotonia dos tempos recentes, incrementada pela violência e, mais recentemente, pela pandemia.

As confraternizações são episódicas, as cadeiras nas calçadas sumiram. Prevalecem pavimentos vazios, portões de ferro acochados por cadeados e apenas réstias de luzes que são vistas nos interiores das casas, como se fossem velas acesas iluminando o que sobrou na resistência ao tempo.

O jornalista Josê Neûmanne Pinto, em recente palestra, exteriorizou o seu infortúnio sentimental ao recordar que “as cidades sem portas de minha infância; as ruas vívidas que não existem mais”.

Passar à noite na Rua Rio de Janeiro, qualquer que seja a noite, mesmo nas horas iniciais do ´reinado da lua´, representa a mutilação espacial de ciclo da vida. É inocular melancolia pelos olhos.

Esta crônica é uma homenagem ao meu inesquecível amigo William Monteiro, um frequentador diário da ´Rio de Janeiro´.

Quando nossas conversas migraram da ´RJ´ para a Praça da Bandeira no turno da noite, o retorno pela madrugada ao bairro da Liberdade ocorria – invariavelmente – transitando pela ´RJ´.

William ´Nezinho´ já se foi.

Mas sigo percorrendo diariamente a mesma rua, como quem pede a bênção a quem lhe deu luz, carinho, proteção, régua e compasso para progredir na vida sem perder as referências de suas origens nem largar pelo caminho os valores ministrados simultaneamente às primeiras ´mamadeiras´.

Transitar diariamente na ´RJ´ – reforço – é um tributo solitário e silencioso à rua que me apresentou ao mundo.

E também – e principalmente – uma reverência ao mais antigo e eterno amor da minha vida: minha mãe.

Quem sabe não foi diante de similar angústia que o poeta Carlos Drummond de Andrade não escreveu seu marcante verso: “Com a chave na mão quer abrir a porta, já não existe porta”.

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