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Arimatéa Souza

segunda-feira, 27/07/2020

Um conterrâneo imortal

Marco histórico

Este domingo foi um dia de significado muito especial para os brasileiros, particularmente nós paraibanos.

Trata-se da data precisa do centenário de nascimento do economista e professor Celso Furtado, provavelmente o intelectual brasileiro mais ouvido e respeitado no exterior, algo que perpassa o alcance e a repercussão dos 30 livros publicados em 11 idiomas.

Além do…

Sem perder de vista (e de foco) as suas origens, sejam elas telúricas ou no que tinham e têm de desumano e injusto, Celso sempre esteve muito distante da pecha de provinciano.

… Horizonte

“Tinha os pés no Brasil e a cabeça no mundo”, na expressão da economista e sua amiga Tânia Bacelar, professora da Universidade Federal de Pernambuco.

Desapontamento

É oportuno retomar a expressão ´mazela´ que utilizei acima. Celso morreu, em certa medida, frustrado por não conseguir contemplar em vida um Brasil enfrentando as suas vulnerabilidades e injustiças; sem dar o salto histórico tão almejado.

Feridas expostas

Regionalizando essa desesperança, é possível citar o inconformismo dele com o latifúndio – predominantemente improdutivo – e a historicamente conhecida ´indústria da seca´ no Nordeste.

Locomotiva

A sua preocupação com a realidade nordestina o fez conceber a criação da Sudene – Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste – como um órgão indutor para encurtar os desníveis subnacionais.

Desidratada

A autarquia acabou sendo esvaziada do ponto de vista orçamentário e político no começo da década passada.

Fosso

Em um de seus últimos livros escritos, quando muitos críticos tentaram vinculá-lo à pecha de retrógrado, Celso lamentou: “Em nenhum momento de nossa história foi tão grande a distância entre o que somos e o que esperávamos ser”.

Diagnóstico

Exagerando no poder de síntese, o ilustre conterrâneo se debruçou sobre a investigação e a análise do subdesenvolvimento, como forma de encontrar as condições e mecanismos para superá-lo.

Profundidade

A sua visão entendia que a estratégia de desenvolvimento das economias periféricas (como a nossa) deveria basear-se em mudanças estruturais da sociedade.

Rodopiar

Mantida inalterada a situação – avaliava – ocorreria tão somente (e repetidamente) a reprodução das condições que preservam e até ampliam o subdesenvolvimento.

Auge

Furtado morreu no começo do século atual (2004), quando estava em evidência – para não dizer na moda – o discurso do liberalismo econômico desenfreado, que deu margem à famosa expressão ´estado mínimo´ (pequeno), ou seja, a restrita intervenção do poder público nas relações econômicas.

Coerência

O paraibano permaneceu apegado aos seus conceitos, apesar do rótulo de ´retrógado´ acima já referido, e que certamente o indignava.

Limitação

Ele reiterava naquele momento que as forças do mercado não eram capazes de garantir crescimento econômico e desenvolvimento, ao mesmo tempo, razão pela qual o planejamento e a intervenção estatais eram indispensáveis.

Ritmos distintos

Celso incorporou-se e contribuiu com a Cepal (Comissão Econômica para a América Latina), que defendia um modelo intervencionista na América Latina, a partir da constatação de que a insuficiência do desenvolvimento resultava, notadamente, da deterioração das relações de troca entre países centrais (desenvolvidos) e os periféricos, a partir do fato de os preços entre produtos industrializados e os primários evoluir de forma desfavorável para os últimos.

´Bíblia´

Celso Furtado perfilou-se ao lado da famosa teoria econômica keynesiana, concebida pelo renomado economista inglês John Maynard Keynes, simbolizada no livro ´Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda´.

Inevitável

Na essência, essa teoria considera que a dinâmica do crescimento das economias capitalistas não pode prescindir do Estado e de suas políticas fiscal e monetária contra cíclicas.
Ou seja, que a intervenção do Estado é não somente importante, como imprescindível.

Reflorescer

É preciso nesse ponto um corte histórico. Estamos vivendo um momento ímpar e preocupante de pandemia, instante no qual essa teoria keynesiana está sendo resgatada e até sublimada, uma vez que a calamitosa situação está a demonstrar o peso decisivo do poder público na adoção e no impulsionamento de medidas para o enfrentamento da adversa realidade, mitigando o quanto possível os seus nefastos efeitos.

SUS

No caso brasileiro, a melhor personificação para essa dependência do Estado é o Sistema Único de Saúde, tão aviltado, mas que está sendo decisivo para que a dilapidação de vidas e da esperança do rejuvenescimento não seja muito pior.

Sentido amplo

Voltando a Celso Furtado, invoco o que disse sobre ele o professor da Fundação Getúlio Vargas Marco Antonio Cintra: “Com Celso, a expressão ´desenvolvimento´ passa a ser entendida como crescimento integrado a redução das desigualdades sociais. Ou seja, uma estratégia de crescimento que contemple a sociedade como um todo, e que integre crescimento e redistribuição de renda”.

Empoderamento popular

Por fim, um ensinamento atemporal do conterrâneo centenário: “O ponto de partida de qualquer novo projeto alternativo de nação terá que ser, inevitavelmente, o aumento da participação e do poder do povo nos centros de decisão do país”.

Quanto tempo vai durar a versão ´paz & amor´ de Bolsonaro?...
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