Arimatéa Souza

quinta-feira, 24/06/2021

Retalhos memoráveis

Aurora crepuscular

Ao amanhecer da última terça-feira, a informação no celular, permeada por lágrimas, de Cássio Cunha Lima: o jornalista e historiador Josué Sylvestre havia partido horas antes, na distante cidade de Curitiba (PR), local que escolheu para viver a aposentadoria na proximidade dos familiares que lá residiam.

Agravamento

Há algum tempo, um quadro crescentemente agravado de diabetes, potencializado por enfermidades degenerativas, minimizaram a qualidade de vida de Josué e inviabilizaram os seus deslocamentos para Campina Grande – inseparável de seu imaginário, apesar de ser natural de Carpina (PE).

Contato

Conheci Josué já com muitos anos de atividade jornalística. Nas suas vindas a Campina, sempre comparecia à redação do Jornal da Paraíba para conversar sobre a política local.

Remessas

Num mundo anterior à internet, semanalmente eram postados nas agências dos Correios os exemplares anteriores do Jornal da Paraíba.

E ele sempre me dizia que a leitura começava por APARTE.

Afeição

Nas periódicas conversas com o ex-senador Ivandro Cunha Lima, ele me falava do apreço desmedido que tinha por Josué e a plena identificação que existia.

Cativo

Tratavam-se como irmãos. Josué tinha o ´seu quarto´ nas dependências da casa de Ivandro, às margens do Açude Velho.

Proximidade

Josué também era muito próximo – um misto de fã e de conselheiro – do ex-senador Ronaldo Cunha Lima, algo desdobrado para o seu filho Cássio Cunha Lima.

Moderação

O historiador teve uma participação imensurável quando da crise ocorrida no processo sucessório de 1998 – a chamada ´guerra no PMDB´ da Paraíba -, quando houve um estremecimento nas relações habitualmente de ´pai para filho´ entre Ivandro e Ronaldo.

Amortecimento

Com a sua ponderação e sensatez, Josué ajudou para que o episódio não descambasse para consequências imprevisíveis.

Interlocutor comum

A aproximação com Josué foi intensificada por intermédio de um interlocutor comum: inesquecível amigo/irmão e jornalista William Monteiro (já chamado ao plano superior).

´Assembleia´

Em determinado período, Josué soube que tínhamos o que era chamado de ´bacurau´ dos domingos à noite, que começava na Praça da Bandeira e se estendia para o restaurante Manoel da Carne de Sol, literalmente varando a madrugada.

´Inscrito´

Prontamente, ele avisou que gostaria de participar dessas ´sessões´ quando estivesse em Campina.

E assim ocorreu por muitos e muitos anos.

Comensais

Além da – digamos – ´presença fixa´ minha e de William, periodicamente participavam o ex-deputado Gilbran Asfora, o jornalista Geovaldo de Carvalho, o médico Saulo Freire, e vez por outra, o próprio Cássio.

Companhia

Em muitas ocasiões, Josué chegava ao restaurante tendo ao seu lado o adolescente Bruno Cunha Lima, sobre quem falarei mais à frente.

Leque…

As conversas versavam sobre os temas mais variados possíveis, com predominância para a politica, evidentemente.

… Aberto

“A gente resolve no domingo à noite todos os problemas da humanidade”, costumava dizer William, com sua verve bem humorada.

´Meninos, eu vi´

Mas, em muitos momentos, a conversa se transformava numa aula de história, no testemunho vivo de alguém que estudou, pesquisou e também testemunhou fatos marcantes e memoráveis.

Degustação

O cardápio era quase sempre escolhido por Josué, porque as passagens por Campina igualmente serviam para o seu reencontro com a culinária regional: carne de sol e acompanhamentos; um refrigerante light e um pequeno cálice com suco de limão sem açúcar.

Ritual

Ao final do jantar, uma indispensável sobremesa: invariavelmente doces regionais, seguidos por incontáveis cafés expressos com adoçante.

Atenuantes

Por ser diabético, quase sempre Josué nos convidava a ´dividir´ uma porção de doce com ele.

E sempre levava consigo um medicamento para ´neutralizar´ o consumo não recomendado.

Sob o luar

Quando já era madrugada, deixávamos o restaurante e protagonizávamos outra recorrente ´liturgia´: um bate-papo complementar na porta de Manoel da Carne de Sol.

´Digestão´

Todos de pé, desfrutando do gostoso frio de Campina, numa espécie de intervalo entre a refeição e o sono por vir.

Recolhimento

Vários minutos depois, Josué ´escalava´, principalmente William, para deixá-lo na casa de Ivandro.

Virtual

Tamanha foi a sua identificação com esse espaço de bate-papo informal, que em incontáveis domingos ele ligava para mim ou para ´Nezinho´ (ele também chamava William dessa maneira) e pedia que ligássemos para ele colocando o celular no ´viva voz´, como forma de tomar parte nas conversas mesmo estando em Curitiba.

O detalhe

Durante muitos anos, poucas horas depois (5 da manhã), eu teria que me acordar para participar do telejornal ´Bom Dia Paraíba´.

Incentivador

Josué Sylvestre era um entusiasta da vocação para a política de Bruno Cunha Lima, algo por ele apontado muito precocemente.

Projeção

O acadêmico vislumbrava em BCL a consumação de mandatos eletivos não galgados pelo avô Ivandro, a exemplo do cargo de prefeito de Campina.

Mão dupla

Bruno merecia da parte dele o carinho, atenções e orientações que um avô ou pai repassa aos netos e/ou filhos.

A atenção, retribuição e o respeito eram inteiramente recíprocos da parte de BCL.

Catequese

Em conversa com este colunista, ainda na manhã de terça-feira, Bruno sublinhava que Josué teve um papel marcante em sua formação pessoal, religiosa e política.

De sua voz, embargada, desprendia-se a sensação de orfandade.

Ex-senador

Nas redes sociais, Cássio tratou do sentimento que o invadiu diante de mais uma despedida.

Porção perdida

“A morte de um amigo sepulta um pedaço de nossa história (…) Era companhia sempre agradável e presença constante nas nossas vidas.

“Vazio”

“Tive o privilégio de receber dele amor paterno (…) A presença de Josué me trazia uma agradável sensação de amparo e segurança. Sim, foi arrimo e esteio durante toda a minha trajetória. Um vazio toma conta do meu coração.

“Catástrofe”

“Como disse (o escritor) Nelson Rodrigues, ´a morte de um velho amigo é uma catástrofe na memória. Todas as relações com o passado ficam alteradas´.”

Atemporal

Para muitos, esta edição poderá soar como agudamente pessoal e introspectiva.

Mas o encadeamento dos anos nos banha de cumulativa gratidão por ter tido o prazer e o privilégio da convivência com pessoas singulares, que pela experiência, ensinamento e discernimento nos fazem mais humanos, sensíveis, preparados e felizes.

Muito além

Josué Sylvestre, confrade na Academia de Letras de Campina Grande, é imortal nas recordações de seus amigos.

Cabe invocar uma frase (de autoria controversa) que encanta os poetas e tribunos: “A morte está enganada. Eu vou viver depois dela”.

“... Aqui tudo mudou... Cadê São João?... (compositor Antonio Barros)...
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