Fechar

logo

Fechar

Arimatéa Souza

quarta-feira, 18/12/2019

Práticas insepultas

Acabou o encanto

A Paraíba viveu, outra vez, um dia atípico, robustecido pelo personagem central de um impensável enredo, cujo ´Juízo Final ´ – nome de batismo da 7ª fase da Operação Calvário, ontem desencadeada – enche de melancolia a cidadania tabajarina.

Isso porque, para uma majoritária fatia de paraibanos, o agrupamento político que há nove anos comanda o Estado mostrava-se diferenciado em termos de práticas administrativas e de exercício da ética na gestão pública.

Preliminar

É claro que o que veio à tona, consubstanciado numa decisão acachapante do desembargador Ricardo Vital de Almeida, ainda carece do devido e necessário contraditório.

Matéria-prima

Mas a riqueza de informações e de detalhes sugere um razoável grau de sustentação ao que foi dito (e gravado) pelos protagonistas dessa página negra de nossa história.

Síntese

“Crimes de relevo, que subtraem dinheiro da saúde e da educação de forma perniciosa, trazendo vultoso prejuízo a toda a sociedade paraibana”, sublinhou o desembargador.

Serviços vitais

Tudo isso é ainda mais grave e doloroso porque os núcleos dessas ´tenebrosas transações´, para invocar o verso famoso do compositor Chico Buarque, são as áreas de saúde e educação, que constituem, ao mesmo tempo, fraturas expostas em termos de carência de investimentos e de qualidade, ainda mais no âmbito do serviço público.

Mancha

Igualmente choca e entristece essa apuração devido à trajetória pessoal e política do ex-governador Ricardo Coutinho.

Estandarte

Ele é um dos símbolos e a referência estadual de uma geração de militantes e sindicalistas que “queriam mudar o mundo”, no verso marcante do inesquecível compositor Cazuza.

Indícios

É fato que há alguns meses já havia no ar e nas movimentações do Ministério Público um ´encontro marcado´ com o ex-governador por conta dos contratos que firmou com OSs (organizações sociais), a partir da apuração do MP do Rio de Janeiro.

Mas a dimensão dessas relações ´incestuosas´ impressionou.

A domicílio

As modalidades de captação de recursos clandestinos relatadas no despacho do desembargador – entrega de caixas de papelão repletas de dinheiro na residência oficial do governador – chegam a chocar em alguns momentos.

Duto

Dos autos do processo consta a impressionante estimativa de recursos desviados da ordem de R$ 134 milhões, que teriam sido destinados predominantemente para custear apoios políticos nos processos eleitorais de 2010, 2014 e 2018, assim como os pleitos municipais (pelo menos em João Pessoa) de 2012 e 2016).

Excludentes

A nota divulgada por Ricardo Coutinho após a decretação de sua prisão pondera que “jamais seria possível um Estado ser governado por uma associação criminosa e ter vivenciado os investimentos e avanços nas obras e políticas sociais nunca antes registrados”.

Criminalização

“Lamento que a Paraíba esteja presenciando o seu maior período de desenvolvimento e elevação da autoestima ser totalmente criminalizado”, adendou RC.

Acessibilidade

A nota divulgada pelo governo da Paraíba foi curta e de comedimento: “Desde o início da atual gestão (o governo) tem mantido a postura de colaborar com quaisquer informações ou acesso que a Justiça determinar em seus processos investigativos”.

Decisivas

As delações existentes nesse processo mostram-se fundamentais para o desfecho que se encaminha, notadamente a de Daniel Gomes, controlador da Cruz Vermelha e de outras ´OSs´, que gravou vários diálogos com Ricardo.

Operadora

A ex-secretária de Administração do Estado, Livânia Farias, também ´debulhou´ a operação clandestina.

Pedras na mão

Ao longo do dia houve uma desatada (e cômoda) execração das principais lideranças socialistas no Estado, assim como o exercício de uma sede de vindita na direção do ex-governador, algo fruto (em alguns casos) da própria postura de RC, muitas vezes agressiva e até arrogante diante de interlocutores.

Esse tipo de conduta pode até ser humano, mas denota oportunismo.

Cirúrgico

Quem não vestiu esse ´figurino de ocasião´ foi o ex-senador Cássio Cunha Lima: “O caso é de polícia, e não de política”.

Rigor da lei

Os fatos trazidos à tona nesta terça-feira são gravíssimos e merecem uma investigação célere e a punição proporcional

Freio

O volume bilionário de recursos movimentado no Estado por essas organizações sociais sinaliza que esse tipo de contratação deve ser revisto, e não expandido, como aconteceu com o setor de Educação mais recentemente.

Travado

As sucessivas fases da Operação Calvário têm imposto ao governador João Azevedo uma postura defensiva, uma vez que foi esse núcleo partidário que embalou a vitoriosa campanha do atual governador.

Pelotão

O risco da fragilidade política de João, nesse momento, deverá potencializar a dependência de sua base parlamentar.

Talvez seja o preço a ser pago por “um pouco de paz” para governar.

´Habeas Corpus´

Por falar na base parlamentar, 25 dos 36 deputados paraibanos abrigaram-se, na noite de ontem, no anonimato (voto secreto) para determinar a imediata soltura da deputada Estela Bezerra (PSB).

Fazer a defesa

“Estela deve voltar e responder em liberdade. Nós não estamos votando o mérito da questão (da prisão)”, acentuou o deputado-presidente Adriano Galdino (PSB).

O imprevisível

Num primeiro momento, alguns aliados de Ricardo Coutinho avaliam (e aguardam) que tipo de conduta ele adotará caso permaneça por muito tempo recolhido à prisão, que é preventiva (sem prazo para acabar).

Uma pouco provável, mas não impossível delação do próprio Ricardo, poderia novamente sacudir este Estado, manchar biografias e até ameaçar a continuidade de alguns mandatos eletivos.

Parece que as novidades não cessaram...
Share this page to Telegram

Arquivo da Coluna

Arquivo 2019 Arquivo 2018 Arquivo 2017

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube