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Arimatéa Souza

sábado, 16/12/2017

Ode a Campina

O ´príncipe´ da Rainha

Com a sua sapiência ímpar, o dramaturgo inglês William Shakespeare dizia que “a gratidão é o único tesouro dos humildes”.

Pois bem, esta semana a cidade de Campina Grande, através de seu Poder Legislativo, fez justiça à obstinação do ex-senador Marcondes Gadelha em tornar realidade a obra da transposição de águas do Rio São Francisco, que permite à Rainha da Borborema ter água de forma permanente, ao alcance das mãos, bem como descortinar um novo ciclo em seu desenvolvimento.

A colossal obra, na verdade, é fruto de mãos e vozes que se somaram para torná-la realidade. Muitos já mereceram o reconhecimento público, vários ainda desfrutarão dessa materialização do que está latente na alma.

Nesse momento, a homenagem singela de APARTE é compartilhar – que lindo verbo! – com os que não compareceram à sessão trechos do discurso de Marcondes, feito com o brilhantismo de sempre. É o que segue.

Dilema

“Há uma questão mal resolvida, entre os entendidos, sobre o que é mais significativo: se a cidadania natural ou aquela adquirida. Da cidadania natural, se diz que é apenas obra do acaso. É a arte do destino, ou quando muito um produto da conspiração dos anjos.

Eco

“No entanto, ela repercute pela nossa formação; pela moldagem da nossa personalidade; pela nossa configuração afetiva. Pode-se dizer que a terra que guarda o nosso umbigo é a que guarda o essencial de nossa história.

Complexa

“Da cidadania adquirida, se diz que é bem mais consciente, porque é escolhida, objeto de deliberação (colegiada). E exige o concurso de, pelo menos, duas vontades: a de quem outorga, e a de quem recebe, além de um julgamento de mérito, que torna ainda mais honroso, atraente e sedutor o título concedido.

Consenso

“Nessa controvérsia, entre cidadania natural e cidadania adquirida, a única coisa certa que se tem é que uma cria o ego, e a outra lhe dá volume.

Ao largo

“Não me aflige essa polêmica, porque me mantenho fiel, da mesma forma, às minhas origens, ao tempo em que acolho, com o mais veludoso ciúme e zelo filial os laços da nova cidadania. Posso dizer que essa cerimônia, na verdade, é apenas a oficialização de uma situação de fato preexistente. É apenas o registro, em papel passado, de um vínculo de pertencer muito antigo.

Encantamento

“Campina capturou bem cedo os meus sentimentos. Foi a primeira cidade grande que eu conheci, e o meu primeiro alumbramento (…) Aqui vim, pela primeira vez, trazido pelo meu pai aos 7 anos de idade.

Mergulho

“Fosse como fosse, esta cidade me desafiava. E aí decidi mergulhar de ponta cabeça na sua cultura, nas suas tradições, para entendê-la melhor, ou para procurar decifrá-la.

Canção marcante

“Comecei por sua dimensão lúdica, ouvindo com devoção as músicas de Rosil Cavalcante, que compôs com Raymundo Asfora essa obra prima que é Tropeiros da Borborema, uma espécie de hino extraoficial de Campina Grande (…) Torci pelo Treze.

Atração

“A segunda característica que me seduzia em Campina era a sua paixão pela política. A política aqui chegou ao ´estado da arte´, e eu me empolgava vendo aquelas multidões ocupando praças e logradores; a veemência de seus oradores; a competência de seus líderes. Aquilo tudo me influenciou na minha opção pela política.

Ímã

“E Campina, por conta disso, era o centro de gravidade da Paraíba e o ponto de convergência de todas as forças interessadas no bem coletivo e progresso social.

Símbolos

“Do seu rico passado, da sua larga tradição histórica, eu evoco aqui três ícones para reverenciar: Cristiano Lauritzen, Félix Araújo e Argemiro de Figueiredo.

Gestor

“Cristiano por curiosidade. Ele era dinamarquês de origem e governou esta cidade durante 19 anos ininterruptos. Só saiu do posto pela morte, sendo substituído por seu filho, Ernani Lauritzen. Ele tinha uma visão surpreendente de estadista.

Idealista

“Félix Araújo pelo idealismo, quase romântico. Sucumbiu na via pública, na mão de sicários (extremistas), por amor à verdade.

Traços…

“Argemiro pela integridade, pela dignidade de que tanto somos carentes nesses dias de derrelição (desamparo) moral que estamos vivendo; de corrupção desenfreada; de falta de controle sobre os que avançam no erário público.

… Marcantes

“Admirava em Argemiro a elegância na tribuna, a profundidade da linguagem estendida. E depois passei a admirar ainda mais no convívio, porque foi o meu padrinho de casamento. Ele defendia até as ultimas consequências as suas ideias.

Arrojo

“A terceira dimensão de Campina, na verdade, é a sua quintessência (melhor parte): é o empreendedorismo, que é mais do que uma atividade, é uma atitude. Atitude de autoconfiança, de determinação, de coragem, que associada à criatividade, à inventividade e à engenhosidade é capaz de operar milagres.

Sem cobranças

“Ao me outorgar esse título de cidadão, Campina não me fez perguntas; não me indagou a que eu venho ou ao que me proponho. Não pediu as minhas digitais.

Sem…

“Mas não tem com que se preocupar. A única ideia perigosa que eu carrego comigo é uma frase de Terêncio (escritor romano), que dizia: ´Sou homem, nada do que é humano me é estranho´.

 

… Temor

“Estranho nos dois sentidos: estranho no sentido de alheio, indiferente ou desconectado; ou estranho no sentido de surpreendente, exótico ou irreal.

Concretude

“Tudo o que eu fiz na minha vida pública ou privada foi, na verdade, tentar colocar esse princípio em ação.

´Contágio´

“Parece fácil, mas adianto logo, para quem pensa assim, que Sartre (Jean-Paul Sartre, escritor e filósofo francês) dizia exatamente o posto: ´o inferno são os outros´, no sentido de que toda a interação, todo o contato, todo o compromisso com os outros resulta em perda de substância da liberdade individual. E, por consequência, do próprio conteúdo existencial, porque a liberdade é a base e o motor de toda a transcendência.

A densidade…

“Já a frase de Terêncio resume toda a filosofia ocidental. Ela supõe a alteridade, ou seja, a existência de uma fração do outro em cada um de nós, e vice-versa. Isso leva a uma solidariedade ontológica irrecorrível, por onde se organiza toda a vida em sociedade.

… Do ´ser´

“Mas ela é exigente, e exige que se abdique de toda zona de conforto para se entregar resoluta e incondicionalmente a cada causa. Ela exige boa fé, altruísmo. Exige resiliência, propensão para o perdão e tolerância.

Risco

“E aí é que mora o perigo, porque existe sempre a possibilidade de uma grande frustração ou decepção na ponta da linha. Mas esse é um risco calculado.

Destino…

“Eu acredito no prospecto humano. Eu acredito que mesmo aos trancos, barrancos e solavancos, a linha da evolução é sempre ascendente e aponta para o bem.

… Inexorável

“Eu acredito que por cada ação praticada com reta intenção o lucro é de Deus, mas um dia Ele bota nas nossas contas. E por acreditar nessas coisas todas é que eu abracei esse preceito, sem hesitação.

´Fantasma do colapso´

“Foi assim que eu abracei a causa da transposição de águas do Rio São Francisco. Eu vi que esta cidade, vocacionada para ser a grande metrópole regional; vocacionada para ser a líder de um processo de construção econômica e social deste Estado; Campina tinha contra si o estigma da natureza, que era a escassez d´água.

Pêndulo

“Diversas tentativas foram feitas para resolver esse problema, mas a insegurança hídrica recorrente criou uma espécie de sistema cíclico, no qual se alternavam progresso intenso com estagnação, dependendo da disponibilidade d´água.

Riscos

“O drama concreto do racionamento ou a sua iminência foi o grande argumento que usei para convencer desta obra fundamental, não apenas para Campina, mas para 12 milhões de nordestinos, incluindo Fortaleza (CE).

Enfrentamento

“Enfrentei a intolerância, a adjetivação maliciosa, a desconfiança, a indiferença. Havia contra nós um concerto monumental de forças, encampadas pelos grandes Estados, chamados doadores.

Apelação

“Enfrentamos a ira orientada por interesses políticos, como em Sergipe, quando fui vítima de agressão física.

Luz no horizonte

“Mas a cada situação com essa, mais reforçava em mim a ideia e o princípio de que o bem que seria acarretado pela obra justificava todo sacrifício, todo o sofrimento, toda a hostilidade e dificuldades a que estávamos sujeitos. Quanto mais me agrediam, mais eu via a esperança brilhando na ponta dos canais e sendo colhida na concha da mão.

Razão de viver

“Essa foi uma ação que me deixou compensado e justificado por toda a minha vida pública. Se não tivesse feito mais nada significativo, a obra da transposição já seria o documento mais firme que eu teria para mostrar aos homens e a Deus o esforço desprendido.

Maturidade

“Eu sei que o tempo muda as percepções. E quando a gente começa a varrer as folhas do outono, a gente se torna mais reflexivo. Ou melhor, mais revisionista. E tende a reavaliar cada passo empreendido.

Tudo outra vez

“Quanto a mim, digo que se tivesse que começar tudo de novo, eu voltaria pelo mesmo caminho e procederia da mesma forma, só que com mais intensidade e mais paixão.

Reflorescer

“Confiaria mais na intuição e menos na razão. Evitaria enquadrar a realidade, atento ao que dizia Goethe (escritor e estadista alemão): ´meu filho a teoria é cinzenta, e árvore da vida reverdece sempre´.”

Sentimento atemporal  

Ainda Marcondes Gadelha: “Amigos de Campina Grande. Há na Bíblia uma famosa e singela oração, que diz apenas ´Senhor, fazei que com que, transitando entre as coisas que passam, eu saiba abraçar as que não passam´ (Romanos 8,28).

“Eu lhes digo que não vai passar nunca em mim a emoção, a felicidade, a alegria, o prazer, a honra, o orgulho de poder abraçá-los, estreitá-los ao peito e chamá-los de conterrâneos. Obrigado a todos por esse gesto, que Deus os ilumine!”

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