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Arimatéa Souza

sábado, 02/02/2019

O poder ´se enfrenta´

Reviravolta

A tentação que inspira o voto secreto para mudanças de postura é algo previsível, mas inimaginável na sua dimensão e, em muitos casos, na sua personalização.

O capítulo histórico escrito ontem pelos deputados estaduais paraibanos que abriram (marcantemente) a 11ª legislatura foge aos anteriores dos Anais da ´Casa de Epitácio Pessoa´.

Na mesma sessão, a unanimidade impensada para a eleição da mesa diretora do 1º biênio foi a ´corrente de ignição´ para o escrutínio seguinte, no qual aliados à distância adubaram (por força da pressão) o descumprimento de acordos apalavrados nos dias anteriores, inclusive na véspera (5ª feira).

Por tabela

Mais do que negar ao ex-líder governista Hervázio Bezerra (PSB) o cargo de presidente, deputados da base exprimiram um silencioso, mas duro recado à cúpula: faz-se necessário um mínimo de autonomia.

Autonomia

Na verdade, Hervázio foi o instrumento de exteriorização da repulsa ao que governistas consideraram excessiva tentativa de intromissão do ex-presidente da ALPB, Gervásio Maia (PSB), ontem diplomado deputado federal, e do ex-governador Ricardo Coutinho na sucessão na ALPB.

Embrião

Recorde o leitor que numa ação urdida por deputados governistas, no ´apagar luzes´ de 2018 (e da legislatura anterior) foi aprovada uma emenda constitucional do deputado Ricardo Barbosa (PSB) proibindo a reeleição e a antecipação da eleição da mesa diretora.

´Tratorada´

O então presidente Gervásio, que num primeiro momento demonstrou certa indiferença no tocante à referida emenda, dias depois resolveu refazer a tramitação, culminando com um parecer da Procuradoria Jurídica da ALPB que levou à anulação de todas as votações.

Equalização

Houve a coincidência temporal desse fato com declarações do então governador Ricardo Coutinho, que renovadamente bateu pesado na conduta de deputados aliados na apreciação da mencionada emenda.

Mobilização

Nas últimas semanas, o que se observou nos bastidores políticos foi a deliberada intenção do núcleo parlamentar mais próximo a Ricardo de emplacar na presidência da ALPB no 2º biênio – uma vez que se desenhava um nítido favoritismo de Adriano Galdino (PSB) para o 1º biênio.

Presidenciáveis

Desse ´coletivo´ mais particular ao PSB, constavam os nomes das deputadas Cida Ramos e Estela Bezerra, como também dos deputados Buba Germano e Hervázio Bezerra.

Último ato

Seria presunção do colunista informar todas as tratativas mais relevantes desse processo, muito menos numa única edição desta coluna.

Mas cito a conversa de 22 deputados anteontem com o governador João Azevedo, quando foi reiterado o apoio a Hervázio para o 2º biênio.

Rebelião

O deputado Tião Gomes (Avante) insubordinou-se contra a decisão da base aliada e informou que seria candidato em qualquer circunstância.

Ruído

O primeiro sintoma de algo anormal no processo de ontem na ALPB foi o fato de apenas 19 deputados (exatamente o número mínimo necessário no regimento interno) terem subscrito o pedido de realização da eleição para o 2º biênio.

Sem caneta

A disputa para o 1º biênio transcorreu-se sem atropelos, apenas com a particularidade colocada em prática pela mesa que presidia os trabalhos: cada deputado deveria votar com um carimbo, que seria a expressão positiva de seu voto, uma vez que apenas uma chapa foi registrada.

Convencionado

Quem optasse pela abstenção, deveria carimbar várias vezes.

E a cédula sem alterações representaria o voto e branco.

Consenso

Apurados os votos, a chapa liderada por Adriano obteve a totalidade do colegiado: 36 votos, algo não observável há muito tempo na ALPB.

Prazo

Quando o plenário se debruçou sobre o 2º biênio a tensão tomou conta do ambiente.

Já investido na condição de presidente para o 1º biênio, Adriano disse que foi informado de que haveria disputa e fixou um prazo de 20 minutos para o registro de chapas.

Racha

A imagem foi emblemática: Tião deixou o plenário para se reunir com a maioria da bancada de oposição para montar a chapa.

Apelo final

Na retomada da sessão, Hervázio ocupou a tribuna e limitou a ler a composição de sua chapa.

O novo líder do Governo, Ricardo Barbosa (PSB) renovou, em vão, o pedido para que Adriano cumprisse o que foi acordado na véspera em favor de Hervázio.

Mágoas

Na sua prolongada intervenção, Tião relatou as perseguições que teria sido vítima, protagonizadas por seu próprio agrupamento político.

Convite público

Após exclamar que “a Assembleia precisa é de paz”, anunciou que abriria mão da candidatura, se Adriano aceitasse ser o ´cabeça-de-chapa´.

Cutucadas

Em renovadas ´indiretas´ para o seu concorrente, Tião fez alusões a um deputado governista que ´tomava café´ na Granja (Santana, residência do governador) e jantava na residência do senador José Maranhão (MDB), que concorreu ao governo no ano passado.

Assimilação

Para surpresa de muitos, Adriano disse que topava e que considerava ser a melhor alternativa para garantir um ambiente favorável à gestão de Joao Azevedo.

Dessa maneira, Tião passou a integrar a chapa na condição de 1º vice-presidente.

Sem ´selfie´

Após uma breve suspensão para a confecção de chapas, o processo eleitoral trouxe nova surpresa: Adriano proibiu que os deputados fossem para a cabine de votação com o aparelho celular, alegando que foi informado de que haveria uma pressão da cúpula governista para que cada deputado aliado filmasse o seu próprio voto.

Balas trocadas

Numa de suas poucas intervenções durante a sessão, Hervázio cobrou de Adriano que repetisse os mesmos procedimentos adotados na 1ª eleição do dia.

“Vossa excelência quer filmar o voto?” – indagou Adriano. “Mantenha a coerência”, devolveu Hervázio.

Placar elástico

Apurados os votos, veio à tona a expressão numérica da insubordinação da bancada governista às pressões externas: 23 votos para Adriano e apenas 13 para Hervázio.

Maioria multifacetada

As ilações de traição surgiram de parte a parte, mas esse é outro ´capítulo´ para uma próxima edição.

Por hoje, encerro sublinhando uma constatação que permanecia à sombra: o que se chama de ´base governista´ é muito mais amplo e heterogêneo do que o ´núcleo duro´ que orbita Ricardo Coutinho e que incorporou o bucólico nome de ´coletivo girassol´.

Outra lição adicional: para a nossa cultura política a inexistência de um mandato recomenda comedimento adicional, no sentido de evitar dispersão e de eventualmente escutar um bordão ao mesmo tempo antigo, perverso e frequentemente verossímil: ´rei posto, rei morto´.

A ´lua-de-mel´ de João Azevedo no governo foi efêmera...
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