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Arimatéa Souza

segunda-feira, 08/04/2019

O futuro do ´arraial´

Bate-boca requentado

A cada anúncio da programação anual do Maior São João do Mundo, em Campina Grande, uma recorrente e estéril polêmica é desatada, por força das atrações ´importadas´.

Isso foi potencializado para a edição que se aproxima, diante da abertura da festa ter sido confiada à baiana Ivete Sangalo.

Por motivações múltiplas – algumas reconhecidamente com preocupações telúricas e culturais -, deflagrou-se a ´batalha´ midiática e nas redes sociais acerca da conveniência – alguns falam em desfaçatez – de se contratar Ivete para dar a largada numa festa que pouco tem a ver com as suas origens e carreira artística.

Só falatório

Em algumas críticas, observa-se até um pouco de hipocrisia: ou seja, pessoas que atacam as atrações divulgadas, mas raramente vão prestigiar os shows objeto de sua defesa.

Externo

É importante pontuar que o mais preocupante problema dos festejos juninos campinenses está fora do parque do Povo.

Vitrine

Naquele imenso palco o que se sucede é a produção mais reluzente de um evento que optou por uma fórmula ´infalível´ para segurar o que sugere o seu enunciado: o ´Maior São João do Mundo´.

Sem erro

A ´fórmula´ a qual me retratei acima são grandes e populares atrações, que atraem multidões onde quer que se apresentem, qualquer que seja o período do ano. Igualmente atraem uma legião de fãs de todo o País.

E, no rastro, generosas cotas de publicidade.

´Cerejas´

Adicione-se a isso alguns ´ícones´ remanescentes do apogeu da música essencialmente regional e está pronta na aparência (e no visual) a festa campinense.

Mania de grandeza

Dito de outro jeito: a cidade e os organizadores do evento (por tabela) estão reféns da vaidade e da predatória mania de superlativos que tanto mal já fez ao nosso povo.

E paga-se um preço alto por isso.

Fase

Noutra perspectiva, é importante reconhecer que o forró tradicional não vive um bom momento em termos de artistas e de renovação.

Incidência

Isso se sucede com outros gêneros musicais. Tanto isso é verdade, que o carnaval de Salvador (BA), do Rio de Janeiro e de Recife (PE) tiveram que baixar as suas ´barricadas´ contra ritmos musicais, permitindo – para sobrevivência do produto turístico – que o axé, o samba e o frevo cedessem espaço, respectivamente, ao pagode, à música baiana e aos blocos de rua multifacetados em termos de estilos musicais.

´Divórcio´

Quando frisei acima que o problema principal está fora do Parque do Povo é porque, gradativamente, fatia expressiva da população campinense tem se ´apartado´ da festa, no sentido de não mais se sentir protagonista dela, em alguma medida.

Pura diversão

O que preserva a dimensão atual é que outro corte populacional passou a ´consumir´ o evento.

E isso vai muito além de apenas uma variação semântica.

Sintomático

Chegamos ao estágio no qual o efetivo policial para dar segurança ao Parque do Povo toma por base, em primeiro plano, o tipo de música da noitada, antes mesmo da quantidade de público esperado.

Compreensível

Não sou admirador da grande maioria dos artistas que têm sido contratados para a festa campinense.

Mas prevalece, como deve ser, a preferência da maioria na ´equação´ atual do evento.

Investimento

Mas, por dever de justiça, cabe reconhecer que o profissionalismo impera na maioria dos contratados, o que passa por cuidados com o som, iluminação, figurino, músicos, dançarinos, etc. É também, por esse zelo, a razão de tanto sucesso Brasil afora.

Bonde da…

Boa parte dos artistas que fazem a cultura regional não profissionalizou, na medida necessária e indispensável nos tempos atuais, as suas carreiras.

… História

Por muito anos, trataram apenas de tentar supervalorizar os cachês nas apresentações no Parque do Povo.

Sem atratividade

Por essa e outras razões, é fato que são contados a dedo os artistas regionais que conseguem atrair um grande público ao PP.

Ressalva

Cito como exceção Elba Ramalho. Mas o seu caso se enquadra na dedicação com a produção de seu show, o que – juntamente com o seu talento – a faz um ponto fora da curva no contexto que estou abordando.

Antevisão

Os que acompanham há anos o Maior São João do Mundo mais de perto devem recordar que na fase embrionária das bandas (muitas rotuladas como ´forró de plástico´) e de outras artistas ´não genuínos´, esses cantores e grupos se ofereciam para apresentações gratuitas ou a preços simbólicos no PP, por vislumbrar no local um palco ímpar para o mercado regional.

Estancou

A prefeitura campinense teve que reconhecer que o custo do Maior São João do Mundo já não cabia em seu orçamento anual, e que não poderia continuar ´trincando´ financeiramente a cada mês de julho para saldar as despesas do evento – crescentes e milionárias.

Repasse

A modalidade concebida pela gestão do prefeito Romero Rodrigues foi ´engenhosa´, ao repassar a captação de recursos (patrocínios) e a produção da festa à iniciativa privada.

Prioridade

Mas quem ganha o processo licitatório tem compromisso primeira e instintivamente com o lucro, o que é natural.

´Cotas´

Os aspectos culturais são ´salpicados´ na programação, como forma de dar suporte ao discurso de preservação do regionalismo.

Desmonte

Lá atrás nos anos, a prefeitura campinense (Governo Veneziano) abriu mão da posse e do controle das barracas que davam suporte à festa junina.

Um grande volume de madeira rumo ao lixo da história.

Cativo

Aí surgiu a anual (e milionária) locação dessas estruturas.

Nesse contexto, o empresário Jomário Souto virou uma espécie de ´sócio´ da festa, ao produzi-las.

Elementar

Afinal de contas, uma empresa que eventualmente vença uma licitação para executar o projeto do São João por dois anos não vai imobilizar recursos para construir barracas, palcos e camarotes que poderão virar uma imensa sucata, caso não vença a licitação nos anos subsequentes.

´Comodato´

E aqui não vai uma crítica ao empresário citado. Mérito dele que teve a visão e a retaguarda político-administrativa para se inserir nesse negócio, transformando-se no maior beneficiário privado do Parque do Povo, na larga maioria dos eventos que lá acontecem.

É até louvável que ele tenha ousado concorrer para a condução integral da festa.

Origem

Repiso um dos tópicos iniciais: a maior preocupação com a festa junina campinense reside fora do Parque do Povo.

Puxe por…

Ilustre leitor que resida em Campina: quanto tempo você não observa no mês de junho a bodega, barbearia, salão de beleza, mercadinho ou outro espaço público devidamente ´vestido´ de São João?

… Sua mente

Quanto tempo a sua casa, de sua vizinha, a sua rua, as ruas centrais de Campina não se ´paramentam´ de cores para festejar o ´padroeiro festivo´ da cidade? E a maioria das lojas, bancos e outros espaços públicos?

Confraternização

Quanto tempo você não se reúne com a sua turma de escola ou de trabalho, com a sua vizinhança para dançar ou brincar nas noites juninas numa quadrilha junina em seu bairro?

Calor junino

Diria até, quanto tempo você não arrisca a comprar lenha legalizada para fazer uma fogueira em sua casa e se confraternizar com os amigos?

´Ilha´

Poderia citar a singular experiência vivida pelo Sítio São João, um local que inequivocamente agrega valor à festa junina e oferece um ´verniz´ cultural ao evento.

Dosar

Mas é importante que o mercantilismo crescente das edições mais recentes não relegue a segundo plano a sua gênese folclórica.

Retrato

Como dito acima, o ´Maior São João do Mundo´ vive o artificialismo de uma majestosa árvore que perde lentamente as suas raízes, na minha modesta e limitada visão, evidentemente.

Se…

É tempo de ajustar os rumos e progressivamente trazê-lo ao caminho original, se é que as forças vivas da cidade desejam resgatar um produto turístico diferenciado.

Acomodação

Mas até aqui (e há muitos anos e governos) inexistem predisposição e vontade política de fugir da ´fórmula´ imediatista do sucesso para algo consolidado e que vá além dos mandatos e de muitas gerações.

Contra a maré

Evidentemente é contra majoritário e infrutífero esse tipo de abordagem, especialmente quando milhares de jovens já fazem as suas programações para comparecimento ao PP.

Alerta

Todavia, é necessário cravar, pelo menos, oportunas reflexões para que a ilusão não se converta, daqui a alguns anos, num baque profundo, por força de um choque de realidade.

Incenso

Até porque, logo vão surgir pela imprensa as divulgações ufanistas (e exageradas) de ´2 milhões de pessoas´ na festa campinense para deleite da superficialidade.

Ação…

As ponderações acima não significam um discurso apocalíptico, até porque uma festa como o São João já ganhou tanta notoriedade que não se desintegra ´da noite para o dia´.

Mas a curva e a fase são de declive.

… Preventiva

Como também é lento e silencioso, mas contínuo, o definhamento da feira central, outro patrimônio da cidade só decantado (e pensado) para angariar premiações – muitas delas decorrentes muito mais da história acumulada do que da atualidade.

Repaginação

Uma feira como a nossa, se limpa e organizada, seria uma insuperável programação diurna para os festejos juninos – algo sempre reclamado pelas agências de turismo.

Mas esse é assunto para outra edição.

Preocupação filial

Toda essa alongada abordagem é decorrência de quem almeja que Campina Grande tenha a real dimensão do São João para a sua imagem e economia, buscando que o tema mereça a importância necessária.

A sabedoria popular ensina que, às vezes, se perde uma boiada pela falta de um grito.

Como canta Elba Ramalho, na essência, “quero mais desta festa, que põe fogo no meu coração”.

Veneziano já articula 2020 em Campina...
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