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Arimatéa Souza

sábado, 11/04/2020

O destino em jogo

Leia e reflita

Coube ao Frei Raniero Cantalamessa, da Ordem Francisca, fazer a pregação da Sexta-feira da Paixão na Basílica de São Pedro.

É um momento confiado há décadas a esse religioso.

Um resumo de suas palavras é algo particularmente oportuno e até necessário para esse incomum momento que o mundo enfrenta. É o que segue.

Contexto…

“São Gregório Magno dizia que a Escritura cresce com aqueles que a leem. Exprime significados sempre novos segundo as perguntas que o homem traz no coração ao lê-la.

… Atual

“E nós, neste ano, lemos a narrativa da Paixão com uma pergunta – melhor, com um grito – no coração que se levanta de toda a terra. Devemos procurar colher a resposta que a palavra de Deus lhe dá.

Assimilação

“A cruz é melhor compreendida pelos seus efeitos do que pelas suas causas. E quais foram os efeitos da morte de Cristo? Justificados pela fé nele, reconciliados e em paz com Deus, replenos de esperança de uma vida eterna!

Significado

“Mas há um efeito que a situação em ato nos ajuda a colher em particular. A cruz de Cristo mudou o sentido da dor e do sofrimento humano. De todo sofrimento, físico e moral. Ela não é mais um castigo, uma maldição. Foi redimida pela raiz, quando o Filho de Deus a tomou sobre si.

“Receptivo”

´Sofrer – escrevia São João Paulo II do seu leito no hospital após o atentado – significa tornar-se particularmente receptivo, particularmente aberto à ação das forças salvíficas de Deus, oferecidas em Cristo à humanidade´.

Convertido

“Graças à cruz de Cristo, o sofrimento se tornou também ele, à sua maneira, uma espécie de ´sacramento universal de salvação´ para o gênero humano.

Em dois…

“Qual é a luz que tudo isso lança sobre a situação dramática que a humanidade está vivendo? Também aqui, mais do que para as causas, devemos olhar para os efeitos.

… Sentidos

“Não apenas os negativos, dos quais ouvimos todo dia as tristes manchetes, mas também os positivos, que somente uma observação mais atenta nos ajudar a colher.

Despertar

“A pandemia de coronavírus nos despertou bruscamente do perigo maior que sempre correram os indivíduos e a humanidade, o do delírio de onipotência. Temos a ocasião – escreveu um conhecido Rabino judeu – de celebrar este ano um especial êxodo pascal, o ´do exílio da consciência´.

Ínfimo

“Bastou o menor e mais informe (sem forma própria) elemento da natureza, um vírus, para nos recordar que somos mortais, que o poderio militar e a tecnologia não bastam para nos salvar.

Fragilidade

“Não dura muito o homem rico e poderoso: – diz um salmo da Bíblia – é semelhante ao gado gordo que se abate”. E é verdade!

Embevecido

“Enquanto pintava os afrescos da catedral de São Paulo em Londres, o pintor James Thornhill, a um certo ponto, foi tomado por tanto entusiasmo por um afresco seu que, afastando-se para vê-lo melhor, não percebia que quase despencava no vão do andaime.

Impactar

“Um assistente, horrorizado, entendeu que um grito de chamada teria apenas acelerado o desastre. Sem pensar duas vezes, molhou um pincel na tinta e o arremessou contra o afresco. O mestre, pasmo, deu um passo adiante. A sua obra estava comprometida, mas ele estava salvo.

Ação…

“Assim Deus às vezes faz conosco: confunde os nossos projetos e a nossa tranquilidade, para nos salvar do abismo que não vemos. Mas cuidado para não nos enganarmos. Não foi Deus que arremessou o pincel contra o afresco de nossa orgulhosa civilização tecnológica. Deus é nosso aliado, não do vírus!

… Divina

“Se esses flagelos fossem castigos de Deus, não seria explicado por que eles caem igualmente nos bons e nos maus, e por que geralmente são os pobres que têm as maiores consequências. Eles seriam mais pecadores que outros?

“Vergonha”

“Aquele que chorou um dia pela morte de Lázaro chora hoje pelo flagelo que caiu sobre a humanidade. Sim, Deus “sofre”, como todo pai e toda mãe. Quando descobrirmos um dia isso, teremos vergonha de todas as acusações que fizemos contra ele na vida. Deus participa da nossa dor para superá-la.

Sem abandonar

“´Deus – escreve Santo Agostinho –, por ser soberanamente bom, nunca deixaria qualquer mal existir em suas obras se não fosse bastante poderoso e bom para fazer resultar do mal o bem´.

Livre arbítrio

“Será que Deus Pai quis a morte do seu Filho, a fim de daí tirar o bem? Não, simplesmente permitiu que a liberdade humana fizesse o seu percurso, contudo, fazendo-a servir ao seu plano, não ao dos homens. Isto vale também para os males naturais, como terremotos e pestilências. Não os provoca.

Autonomia

“Ele deu também à natureza uma espécie de liberdade, claro, qualitativamente diversa daquela moral do homem, mas ainda assim, sempre uma forma de liberdade. Liberdade de evoluir-se segundo suas leis de desenvolvimento.

Sem ´automação´

“Não criou o mundo como um relógio pré-programado em cada mínimo movimento. É o que alguns chamam de acaso, e que a Bíblia chama, ao contrário, de ´sabedoria de Deus´.

Sentimento…

“O outro fruto positivo da presente crise de saúde é o sentimento de solidariedade. Quando foi, desde que há memória, que os homens de todas as nações se sentiram tão unidos, tão iguais, tão pouco contenciosos, como neste momento de dor?

… Comum

“Esquecemo-nos dos muros por construir. O vírus não conhece fronteiras. Em um segundo, abateu todas as barreiras e as distinções: de raça, de religião, de censo, de poder.

Sem recuar

“Não devemos voltar atrás quando este momento tiver passado. Como tem nos exortado o Santo Padre (Francisco), não devemos desperdiçar esta ocasião. Não deixemos que tanta dor, tantas mortes, tanto esforço heroico por parte dos profissionais de saúde tenha sido em vão. É esta a ´recessão´ que mais devemos temer.

Futuro…

“´Transformarão suas espadas em arados e suas lanças em foices: não pegarão em armas uns contra os outros e não mais travarão combate (Is 2,4)´. É o momento de tornar real algo desta profecia de Isaías, da qual a humanidade desde sempre aguarda o cumprimento.

… Em jogo

“Demos um basta à trágica corrida às armas. Vocês gritam com todas as suas forças, jovens, porque é acima de tudo o seu destino que está em jogo.

Direcionamento

“Destinemos os intermináveis recursos empregados às armas a finalidades de que, nestas situações, vemos a necessidade e a urgência: a saúde, o saneamento, a alimentação, o cuidado da criação. Deixemos à geração que virá, se necessário, um mundo mais pobre de coisas e dinheiro, porém mais rico de humanidade”.

Exortação final

Frei Cantalamessa: “´Depois de três dias eu ressuscitarei´, Jesus predisse (Mt 9:31). Nós também, depois desses dias que esperamos que sejam curtos, ressuscitemos e saíamos dos túmulos de nossas casas. Não para voltar à vida anterior como Lázaro, mas para uma nova vida, como Jesus. Uma vida mais fraterna, mais humana. Mais cristã!”

É preciso cantar

“Tomai, comei, é meu corpo e meu sangue que dou

Vivei no amor, eu vou preparar a ceia na casa do Pai

Vou partir; deixo o meu testamento

Vivei no amor: Eis meu mandamento”.

(música sacra Comei, Tomai, de Waldeci Farias)

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