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Arimatéa Souza

quarta-feira, 10/05/2017

Heróis nacionais

Campos opostos

O País deverá novamente parar, hoje, para acompanhar o que foi revestido por parte da mídia como o embate entre o lendário ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva e o paradigmático juiz coordenador da Operação Lava Jato, no âmbito do Judiciário, Sérgio Moro.

A bem da verdade, nas preliminares do que deveria ser uma rotineira audiência de instrução, os dois protagonistas exageraram nos procedimentos.

 

 

Motes

No que toca ao magistrado, ele permitiu à defesa de Lula pinçar atitudes desprezíveis, mais que ganharam certa relevância devido ao contexto de belicosidade entre as partes.

Sem embasamento

É o caso da tentativa de impor ao petista o comparecimento aos depoimentos das 87 testemunhas de defesa que os seus advogados arrolaram numa das ações.

Exorbitou

Mesmo com a nítida inspiração de tentar postergar indefinidamente a tramitação do caso, fugia à competência do magistrado esse tipo de atitude, posteriormente reparada pelo Tribunal Regional Federal que atua na região Sul.

Incabível

Outra decisão questionável diz respeito à proibição para que a assessoria de Lula grave o depoimento.

No limite, creio, o que poderia ocorrer posteriormente seria proibição do uso eleitoral do conteúdo.

Protagonismo

Moro – presumo – também se equivocou ao postar, no final de semana passado, um vídeo nas redes sociais aconselhando os ´defensores´ da Lava Jato a não ocuparem as ruas de Curitiba, nesta quarta-feira, para externar, diante da presença de Lula, o apoio à referida operação.

Reposicionamento

Posteriormente, numa palestra em Curitiba, Moro se deu conta da inconveniência de sua incursão nas redes sociais e observou que a sua condição era de magistrado.

“Eu não sou um dos times em campo, eu sou o juiz”, grifou.

Incitação

Do lado de Lula, a vastidão da irresponsabilidade cívica é imensa, a começar pelo estímulo para que os movimentos sociais e os partidos ditos de esquerda ocupem hoje as ruas curitibanas para ´desagravá-lo´.

O detalhe

Na programação, está agendado um discurso de Lula, em praça pública, após a audiência.

Inconsequente

Líder inquestionável, o petista está adotando uma estratégia temerária, ao fazer uso desse carisma para insuflar uma reação de seus adeptos ao rito judicial.

Nem a sombra

Nem de longe é uma postura digna do estadista que o petista proclama ser. Efetivamente, ele transita na raia da leviandade histórica.

Para coroar esse enredo, só falta ele se negar a comparecer hoje à Justiça Federal.

Ameaçador

No final de semana, durante encontro estadual do PT em São Paulo, Lula chegou ao paroxismo de ameaçar, caso eleito presidente em 2018, “mandar prender” quem espalha “mentiras” contra ele.

“Se eles não me prenderem, quem sabe um dia eu mando prender eles por mentir”, verbalizou com todas as letras.

Extrapolação

Registre-se que a frase denota uma verve ditatorial do ex-presidente, devido ao fato de nos regimes democráticos não constar das prerrogativas do chefe do Executivo “mandar prender”, algo da esfera de competência do Judiciário.

 

Deboche

Para descontração dos militantes que estavam no evento citado, mas para deboche de quem desfruta da racionalidade, Lula comentou que o apartamento tríplex na valorizada região do balneário do Guarujá (SP) – cuja posse oculta é atribuída a ele, e é o objeto do depoimento de hoje -, na verdade era “três moradias” do programa ´Minha Casa Minha Vida´ “uma em cima da outra”.

Rotas…

Enquanto Lula revelava às plateias gentis ao seu discurso que estava desejoso de prestar o depoimento em Curitiba, os seus advogados tentaram, por diversas vezes, adiar essa fase processual, na qual, frise-se, a lei penal lhe faculta a possibilidade de não responder eventuais perguntas ou, no limite, faltar com a verdade, por não existir pena expressa para falso testemunho originário de acusado.

… Opostas

“É a primeira oportunidade na qual eu vou ter, de viva voz, o direito de me defender. O direito que tenho de falar, porque faz três anos que estou ouvindo”, sublinhou o ex-presidente no final de abril, em evento em Brasília, para realçar que estava ansioso para a chegada do dia do depoimento.

Demagogia

É lógico que é facultado a um acusado tentar postergar o seu julgamento, mais ainda no caso do petista, que pretende concorrer às eleições do ano que vem, e que por essa razão luta contra o tempo, uma vez que uma eventual condenação, confirmada por um Tribunal, o deixaria inelegível.

Mas, em assim sendo, o mínimo que se espera é que se abra mão da encenação.

Descompasso

Ainda ontem, uma nova demonstração do vácuo entre o que diz Lula para consumo externo e o que executam os seus advogados: foram protocolados três recursos no Superior Tribunal de Justiça para tentar adiar o depoimento de hoje.

Manchas…

Se é juridicamente correto que até o momento não apareceram provas materiais do envolvimento de Lula com esse colossal esquema de desvios de recursos públicos, igualmente é evidente que o seu papel nessa engrenagem é indeclinável, e pouco nobre.

… Visíveis

Os depoimentos e indícios surgem às dezenas, num turbilhão que macula crescentemente a sua outrora singular biografia.

Balancete

Nesse ´rodo´ de combate à impunidade e à corrupção, a ´Lava Jato´ já lista 267 réus e 131 condenações.

´Ficha corrida´

Lula já é réu em cinco ações penais; é acusado de crimes como corrupção em 17 ações; tem 211 imputações de lavagem de dinheiro.

Mais: quatro denúncias de tráfico de influência, três de organização criminosa e uma de obstrução ao trabalho da Justiça.

Pilar de…

O que sustenta Lula é a conjunção de fatores que propiciam, apesar de tudo, a sua folgada dianteira nas sondagens antecipadas sobre a sucessão presidencial de 2018, fruto de uma vantagem confortável na região Nordeste.

… Apoio

Essa convergência de causas envolve a rejeição e antipatia ao Governo Temer, piorada pelas reformas trabalhista e previdenciária que deflagrou em nível congressual; a memória das inegáveis conquistas sociais de seus dois mandatos; e o fato de praticamente toda a classe política brasileira estar chafurdando na lama do descrédito, bem como a crença – predominantemente verossímil – de que os políticos pensam primeiramente em seus interesses particulares.

Pagando pra ver

Lula – que se rotula ainda na atualidade como o “pobre coitadinho de Garanhuns” (PE) – parece não se dar conta de que tem, em torno de um si, um torniquete de acusações que caminha para lhe converter, em carne e osso, num novo personagem Macunaíma, o herói sem caráter concebido no começo do século passado pelo escritor Mário de Andrade.

No romance, Macunaíma, um mentiroso contumaz, é abandonado pela mãe. No presente, Lula testa a tolerância nacional.

O ´mago´ sinaliza que vai às urnas...
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