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Arimatéa Souza

quarta-feira, 06/02/2019

Fratura exposta

Desgaste da convivência

Pra começo de conversa, recorde-se o arremate da coluna Aparte, edição da última segunda-feira: “A ´insurreição´ continua…”

A abertura do ano legislativo na Câmara campinense, sem a presença do prefeito Romero Rodrigues, serviu para que viesse à ribalta o caldo de desavenças que apimenta as relações na base governista.

Trata-se, na verdade, de uma queda-de-braço entre a atual presidente Ivonete Ludgério (PSD) e alguns edis que, quando da chegada ao Legislativo, se perfilaram com visível afinação com a atual ´algoz´.

Bifurcação

Com o passar do tempo, as afinidades deram lugar aos interesses particulares, com a apimentada adicional das sequelas do processo eleitoral na mesa diretora no começo de 2017.

Empossados

Mas vamos ao capítulo mais recente – o de ontem. Os vereadores que não tinham assinado o termo de posse na mesa diretora para o biênio que se inicia colocaram as suas assinaturas, mesmo o prazo legal já tendo se expirado.

Trio

Márcio Melo (ex-PSDC) e Saulo Germano (ex-PSDC) assumiram a 1ª e 2ª secretarias, respectivamente.

Sargento Neto (PRTB) a 3ª Secretaria.

Dois tempos

No caso de Neto, ato contínuo ele comunicou ao plenário que estava formalizando a sua imediata renúncia do cargo.

Reformulação

Mais: estava recolhendo assinaturas para mudar as normas internas, conferindo mais poderes aos demais membros da mesa diretora, particularmente ao ocupante da 1ª Secretaria.

Corte histórico

A administração da Câmara campinense é, inegavelmente, presidencialista (concentração de poderes na presidência), algo introduzido na gestão do então presidente (lá se vão muitos anos) Rômulo Gouveia.

Todos os sucessores deles mantiveram esse ´status quo´.

Pronunciamento

O vereador Márcio Melo concedeu uma entrevista falando como uma espécie de ´porta-voz´ do grupo governista descontente com a presidente Ivonete.

Pendência

Ele disse que a continuidade no cargo de secretário está indefinida: “Estamos ainda analisando essa questão. A presidente deu um prazo até quinta-feira”.

Avaliação

Melo informou que “vamos (seu grupo) continuar conversando com os nossos amigos. E, se chegarmos à conclusão que é melhor para o grupo – eu sou do grupo, sou um soldado! – vamos ficar. Se a gente achar outra alternativa, vamos estar acompanhando os nossos colegas”.

Tendência

“A nossa intenção – prosseguiu o vereador – é de assumir. Mas assumir tendo autonomia e podendo participar da gestão. O que estamos pedindo é mais transparência. Não estamos acusando ninguém, mas pedindo participação. Acima de tudo, o que a população pede é transparência”.

Colegialidade

Seguiu Márcio: “Se tem uma mesa diretora, por que ela não participar nem ser chamada para as decisões dessa casa? Eu não vejo problema alguma a presidente e o secretário sentarem para discutir a questão dos pagamentos, seja a fornecedores ou funcionários. Discutir cortes. Tem que ter participação”.

Papel simplório

Para Márcio, “não adianta ser secretário para apenas estar naquela cadeira (do plenário) para ler ou assinar requerimentos. Esse modelo eu não concordo. E a culpa não só da presidente Ivonete, porque isso já vem de muitos anos. Mas nada impede que essa Casa possa modificar essa lei”.

“Ditadura”

Em tom mais enfático, Márcio Melo declarou que “vivemos numa democracia, e não numa ditadura onde só um manda. Caso contrário acaba a mesa diretora e fica só a presidente. Os demais cargos são de enfeite? Eu discordo dela (Ivonete), a partir do momento em que ela não quer entrar em diálogo”.

Sem fraternidade

O vereador se permitiu amiudar o desencontro interno, ao dizer aos jornalistas que “nem votos de Feliz Natal ela enviou aos vereadores”.

Tudo azul

Ex-presidente da Câmara, o vereador Pimentel Filho (PSD) afirmou aos jornalistas que “deixei a Câmara sem precisar de praticamente nada”.

“Entregamos a Câmara muito bem”, reforçou.

Alfinetada

Pimentel foi adiante numa velada comparação com a gestão atual: “Eu sempre paguei em dia a Câmara”, observando em seguida que a sua assessoria ainda não recebeu o mês de dezembro.

 “Ditatorial”

Outro ´dissidente´ da mesa diretora, Saulo Germano, comentou que “no biênio atual e até hoje” a gestão de Ivonete “está sendo uma administração ditatorial”.

Sem diálogo

“Eu só tomo conhecimento das decisões da Casa através da imprensa. Nós não temos contato direto com a presidente”, revelou Germano, que estava de licença do mandato até a última semana.

Limitada

Ao ocupar a tribuna, o vereador Sargento Neto explicou que abdicou do cargo na mesa diretora porque “achei que a minha contribuição foi muito pequena”.

 

Rumo ao lixo

“Nós temos uma certeza: muitos desses requerimentos não servem para nada. Só servem para acumular nas secretarias”, acentuou o edil.

´Ordem do dia´

Segundo o parlamentar do PRTB, “cada um tem que ter o seu posicionamento e honrar as calças que veste”.

Contexto

A expressão foi verbalizada quando ele defendeu o seu projeto “que dá mais autonomia ao 1º secretário”.

Voz de comando

Pronto para a batalha com Ivonete, Sargento Neto bradou aos colegas em plenário: “Soldado que vai para a guerra e tem medo de levar um tiro é um covarde”.

Silêncio

Ivonete Ludgério presidia os trabalhos nesse momento, e não respondeu ao colega que acabara de usar a tribuna.

Mas aceitou o convite dos jornalistas para conceder entrevista.

É do jogo

A presidente começou as suas declarações salientando que “é normal essa questão de renunciar. Cada vereador é dono do seu mandato por quatro anos, e faz dele o que acha que é necessário e da vontade dele e de seu eleitorado. Para mim é muito natural que alguém renuncie, até porque o prazo para a posse já extrapolou”.

Virar a página

“Esta é uma casa de discussões e de soluções. Portanto, nada é estranho no caso de uma renúncia. Amanhã (hoje) terá que ser feita uma nova eleição (para a 3ª Secretaria).

Dar um tempo

Ivonete anunciou que “vou esperar a vontade deles (Márcio, Saulo e Neto). Eles são livres e independentes para tomar as decisões que quiserem tomar”.

Nunca antes

No tocante à alegada concentração de poderes na presidência, a vereadora ponderou que “eu não quero magoar os presidentes anteriores, até porque um deles é o meu marido (deputado Manoel Ludgério). Mas em nenhuma gestão houve tanta transparência quanto na gestão de Ivonete. Isso não pode se falar. Essa questão não me atinge”.

Aberta à conversa

Quanto à sua intransigência, citada por colegas de Câmara, ela respondeu que “sou uma pessoa que gosta de dialogar. Todas as mudanças feitas na Casa têm as assinaturas dos membros da mesa anterior (2017/2018). Essa questão de espaço, nunca cobraram dos outros (ex) presidentes”.

Sem resistência

No que se refere ao pedido de divisão de atribuições com os demais cargos da mesa, Ivonete declarou que “se for para compartilhar, tem o ônus e o bônus, e responder solidariamente com a presidente. Se a maioria decidir, a vereadora Ivonete aceita”.

“Assédio”

Sobre a condução “ditatorial” apontada por Saulo Germano e Márcio, a presidente da Câmara campinense asseverou: “Olha, isso é assédio moral”.

Retrovisor

Ela aproveitou a ocasião para rechaçar outros ataques: “Já teve presidente aqui que expulsou a turma da APAE (Associação de Pais e Amigos de Excepcionais) – eu nunca fiz isso! Teve presidente aqui que deixou dívidas para que eu pagasse (seu antecessor foi Pimentel Filho), mas nunca assumiu. Só assume o lado bom da história. Eu assumo o ônus e o bônus. Só responsável pelas decisões que tomo, mas nunca tomo sozinha”.

Mudar a pauta

A presidente apelou para que “vamos trazer para a Câmara discussões que sejam de importância para a cidade, e não questões pessoais”.

Contra

A bancada de oposição sinalizou que votará contra o projeto do Sargento Neto.

Passando a régua

É possível atestar que os temas coletivos passaram ao largo desse ´batismo´ de 2019 da Câmara campinense, até mesmo o protesto feito nas galerias contra as mudanças no sistema de transporte coletivo e o recente reajuste na passagem de ônibus.

Só…

As discordâncias ásperas e azedas acima relatadas – cumulativas ao longo dos últimos meses – já foram imputadas como pura invencionice da coluna Aparte.

… Recordando

Em novembro passado, quando este colunista trouxe o assunto à tona, o vereador Pimentel Filho declarou que era “uma grande irresponsabilidade alguém publicar um negócio desses”.

Saudosista

Ele foi além: “Parece coisa de menino. O jornalismo virou criança agora. Eu sou de um tempo do jornalismo com seriedade, que ia procurar se a informação era correta ou não”.

Tudo pode mudar

É bom pontificar que o pano de fundo de toda essa querela não são causas coletivas, mas interesses pontuais e pessoais, o que não significa incondicionalmente serem ilegítimos.

A crônica da nossa política sugere que, mais dias menos dias, as arestas se dissipem como uma nuvem. E tal como ela, indecifrável sem a luz do sol.

E, nesses instantes, quase sempre o interesse público não triunfa.

Ney Suassuna tem sonhado com o Senado...
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