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Arimatéa Souza

terça-feira, 16/02/2021

´Éramos três´

Despetalar

A vida tem seu curso próprio, inexorável, sob os insondáveis desígnios de Deus.

Eis a fé professada pelos cristãos.

Na vivência humana e perceptível dessa assertiva está a constatação de que, à medida que os anos avançam no nosso calendário pessoal, igualmente vai ficando encolhida a ´agenda´ dos amigos remanescentes.

Partida

Assim está sendo com o querido amigo e jornalista Assis Costa, que foi privado, na manhã de ontem, de contemplar mais uma aurora, como se a ausência de luz pudesse relativizar o sentimento latente de perda e de vazio.

´Nosso´ tempo

É mais um fraterno amigo/irmão que se vai prematuramente.

Eis um unilateral juízo de valor que vem à mente, ´humanamente´, poucos segundos após escrever os primeiros parágrafos deste texto.

´Ontem´

Faz pouco mais de um ano que perdi o contato diário e fraternal com outro intenso amigo: William Monteiro, cuja saudade o tempo só faz fermentar.

Amigo comum

Há décadas, fui apresentado a Assis Costa justamente por William, seu colega de redação do antigo Diário da Borborema.

Aproximação

Rapidamente assimilei a sua vocação para o jornalismo e o seu jeito de falar intensa e quase incansavelmente.

Era um desmedido apaixonado por Campina Grande e pela cultura regional.

Exemplo

Devo fazer uma derivação para pontuar a postura dos dois mencionados amigos em memória, algo por demais oportuno em tempos de radicalização de posições e de segregações comportamentais, em decorrência da não aceitação da pluralidade de opiniões.

Campos opostos

Por muitos anos, William prestou assessoria à família Cunha Lima (Ronaldo e Cássio).

De outra parte, Assis era um amigo de muitos anos do ex-senador José Maranhão.

Respeito mútuo

Mesmo com a visceral contenda, desencadeada a partir das famosas convenções do MDB em 1998 – que marcou o rompimento entre os ex-governadores Ronaldo e Maranhão -, nunca William e Assis discutiram sobre opções pessoais e/ou profissionais ou preferências político-partidárias.

Inarredável

O respeito mútuo balizou sempre a convivência entre ambos. Sempre.

Confiança

Assis buscava diariamente informações sobre o estado de saúde do ex-senador Maranhão, mantendo a crença de que ele retomaria a normalidade de sua vida.

Preservados

Por um desses caprichos da vida, ambos fizeram a passagem sem saber a morte do outro.

Talvez tenha sido melhor assim, com a amizade sendo retomada sem qualquer lapso de tempo.

Juntos

A última conversa presencial ´a três´ – eu, William e Assis – ocorreu na noite da minha posse na Academia de Letras de Campina Grande.

Ao luar

Passada a parte formal da solenidade, adentramos a madrugada conversando no jardim que fica na frente do auditório do Tribunal do Júri de Campina Grande, passando em revista a história e as contribuições de muitos ´imortais´ que passaram pela Academia.

Futuro acadêmico

No meu discurso de posse, inclusive, dizia que William e a Academia tinham ´um encontro marcado´, algo referendado posteriormente por Assis, ao realçar a cultura acumulada de William (Nezinho).

 

Intensidade

Contam-se nos dedos de uma mão os dias por mês que não conversava com Assis, debulhando os fatos e protagonistas da ´cidade-mãe´.

“Diga aí comandante”, era a saudação inicial

recorrente.

Ressalvas

Assis era um crítico frequente do jornalismo ´virtual´, no que diz respeito à cobertura dos desdobramentos dos fatos e à superficialidade das abordagens.

Repórter nato

Com frequência, costumava me informar sobre fatos recentes já remetendo o texto para publicação no PARAIBAONLINE, ao mesmo desfrutando e compartilhando o acúmulo de informações que os sucessivos anos de redação de jornal e de interação social lhe propiciaram.

Acervo

Falei acima sobre a identificação de Assis com a cultura regional.

Ele possuía uma discoteca com MILHARES de discos, boa parte em vinil e predominante de artistas nordestinos.

Essência

Era um homem autêntico, até áspero – à primeira vista.

Mas, no fundo, era possuidor de um coração que não cabia dentro de seu corpo.

Permanente solidário e solícito, pronto para ajudar.

´Alô´ final

Nossa conversa derradeira foi na véspera de sua internação.

Logo no começo do diálogo senti que ele estava apreensivo e com vontade de conversar. Isso me levou a prolongar além do normal o contato.

Convicção

Além de (mais uma vez) repetir que estava impaciente com a limitação dos contatos presenciais com os amigos – devido à pandemia e, no espaço de tempo mais recente, por conta da limitação recomendada pelo médico -, comentou que imaginava passar poucos dias hospitalizado.

Ansiedade

Após a intervenção cirúrgica e as complicações que se sucederam e que o levaram à UTI, aumentava em mim o desejo de receber a notícia de sua alta hospitalar e de retomar as conversas diárias.

Ocaso

Às 3h09 da madrugada de ontem, uma mensagem de seu filho Alan dizimou essa expectativa e, simultaneamente, erigiu um indelével monumento com a argamassa da tristeza.

Eterna…

“Muito obrigado por tudo, por seu carinho e respeito. Aqui, fostes um pai para mim”, verbalizou o padre Leandro, reitor do Seminário Diocesano de Campina Grande, na cerimônia religiosa final.

… Gratidão

“Obrigado por seus conselhos, testemunhos e amizades. O choro é de saudade, não é de desespero”, acrescentou o sacerdote em meio a muitas lágrimas.

Legado

Na despedida, o filho Alan recordou as inumeráveis histórias e ensinamentos recolhidos nas conversas com o pai.

“Era uma enciclopédia ambulante”, grifou.

“Tinha um coração gigante”, bradou o sobrinho João Neto.

Não aprendi a dizer adeus

Até hoje não consegui deletar do meu celular o contato do amigo William. Certamente ocorrerá o mesmo com o de Assis.

É como se, inconscientemente, houvesse a expectativa de uma nova chamada; de uma primavera florida e alegre sucedendo um outono de silêncio.

Nessa recusa interior em aceitar a fatalidade, talvez esteja entranhado um ensinamento do memorável tribuno conterrâneo Alcides Carneiro: não é digna desse nome “a amizade que desaparece à beira de um túmulo”.

“Qualquer dia, amigo, a gente se encontra...”
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