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Arimatéa Souza

sábado, 23/11/2019

É ´outono´ dentro de mim

Abatimento

Hoje é mais um daqueles dias no qual sou impelido a escrever sob a inspiração de despedidas inesperadas e da separação que dói na alma e no coração.

É um daqueles momentos em que o gotejar dos olhos ameaça inundar o teclado do computador, irrigando a saudade que edifica outro monumento dedicado à solidão.

Dúvida

O que dizer e como reagir a uma amizade fecunda, intensa, que não registra um desentendimento sequer?

Lacuna

Como conviver com a ausência de uma pessoa sempre presente, nas celebrações das alegrias e nos infortúnios, sempre profundos, marcantes e inesperados?

Parceiros e…

William Monteiro de Lima, que ontem foi chamado à presença de Deus, e eu conjugamos, ilimitadamente, o verbo compartilhar.

… Solidários

Uma mão e uma voz içando o outro nos mergulhos próprios das desventuras inevitáveis da vida; mas também a permuta de momentos felizes se corporificava no cotidiano.

Vida longa

São bem mais de três décadas de convivência. Inicialmente na memorável rua Rio de Janeiro, no bairro da Liberdade, em Campina Grande, onde minha mãe morou por 72 anos.

Reminiscências

Nas calçadas e batentes da rua, conversas prolongadas e prazerosas. Num primeiro momento, de minha parte, muito mais de escuta. Depois, noutra fase etária, tomando parte mais intensamente nesses diálogos, muitos dos quais com a presença de Ivan Sodré, um intelectual que contagiava qualquer interlocutor.

Fecho

Muitas vezes, a parte final dessas conversas ocorria na cozinha da casa de minha mãe, à base de bolo e café.

Recado…

No instante em que surgiu a oportunidade de ir trabalhar no Jornal da Paraíba, William deu uma recomendação, com a premissa de que eu nunca a esquecesse.

… Direto

“Sei de sua origem, da criação que Dona Madalena e Seu João lhe deram. Mas qualquer que seja a função que venha a ocupar no jornalismo ou qualquer posto que venha a assumir profissionalmente, nunca perca a humildade”.

Indutor

Além das periódicas observações que fazia acerca de minha trajetória profissional, fundamentadas em sua experiência, ´Nezinho´ – como os amigos mais próximos o chamavam, numa alusão ao nome de seu pai – foi decisivo, pelo apoio e pelo estímulo para dois dos meus passos profissionais marcantes: a assinatura diária de uma coluna – justamente a APARTE que você está lendo agora – e a criação do site de notícias PARAIBAONLINE.

Tomou à frente

Quando me mudei para a minha atual residência, há muitos anos, a calçada não dispunha de árvores.

Antes mesmo de qualquer menção ao fato, ao conhecer o imóvel William foi logo se adiantando e dizendo que providenciaria as árvores próprias para o local e para a necessidade de sombra.

Acompanhamento

Duas dessas mudas ele mesmo fez questão de plantar e de adubar nos meses iniciais.

Vez por outra, me dava conta de um carro estacionado em frente à minha casa: era William trazendo um balde com água dentro do carro, para regar as plantas, alegando que eu esquecia desse procedimento ou não realizava na necessidade da planta.

Apego ao verde

Era habitual levar na mala do carro ferramentas e utensílios para plantar árvores pela cidade e cuidar da conservação de outras.

Legado

William deixa a sua marca e um trabalho, anônimo, gratuito, solidário e solitário em dezenas de praças e em muitos parques campinenses, a exemplo do Parque da Criança.

Na verdade, ele plantava a imortalidade.

Interação

Nos falávamos praticamente todos os dias, predominantemente por telefone. Especialmente ao final da noite, quando eu concluía a jornada de trabalho: ele com a sua crônica insônia, e eu muitas vezes postergando o sono pelo prazer da companhia virtual, quase sempre passando os fatos principais do dia em revista, com as visões de cada um.

Ao ar livre

Um capítulo especial dessa convivência diz respeito aos encontros (bacuraus) noturnos na Praça da Bandeira ou no restaurante Manoel da Carne de Sol, notadamente nas noites de domingo, quando “resolvíamos os problemas do mundo”, para invocar a expressão que ele utilizava.

Retalhos

Muitas dessas noites na companhia de muitos amigos em comum. Um deles, bissexto, mas muito enriquecedor, era o jornalista Josué Sylvestre, ocasião em que revisitávamos a história de Campina, quase sempre incorporando informações, fatos e personagens imperecíveis.

Restrito

Os frequentadores da Praça sabem muito bem que a parte final dessas noitadas, via de regra, era eu e William sozinhos, sob o testemunho da lua, quase sempre conversando sobre política e filosofia, duas de nossas paixões.

´Malote´

O ´boa noite´ dessa conversa era a entrega a ele de publicações a respeito desses dois temas, que eu lia durante a semana e guardava para repasse posterior.

Dois exemplos

Cadernos Ilustríssima, do jornal Folha de São Paulo; e ´Eu´, do jornal Valor Econômico.

Atrás dos livros

Quantas vezes não fomos juntos para João Pessoa, com esse deslocamento culminando nas livrarias da capital.

Indicações

Vez por outra, Nezinho perguntava se eu havia lido determinado livro ou tratava de um livro recém lançado.

E, invariavelmente, proclamava: “Ari, você não pode morrer sem ler esse livro”.

Clássico

Foi por seu estímulo que avancei um pouco mais na leitura da produção do inglês William Shakespeare, uma de suas paixões na literatura.

Mandamento

Esse inglês ensinou que “guarda teu amigo sob a chave de tua própria vida”.

Sábado é dia de poesia

“A amizade é um amor que nunca morre”.

Poeta Mário Quintana.

Epílogo

Nossa última conversa ocorreu no jardim de sua casa, quando me relatou e detalhou a ´pancada´ que sofreu com o diagnóstico de câncer que havia recebido.

Mas disse que estava aglutinando forças e fé para a batalha que iria iniciar.

Ancoradouros

Duas pessoas eram o seu ´porto-seguro´, em motivações e angulações diferentes, por ele mesmo referidas como os seus mais afetivos amigos: este colunista e o ex-governador Cássio Cunha Lima.

Equilíbrio

No passado, diante de fatos e situações que o jornalismo impõe, William em muitas ocasiões mediou e modulou as diferenças de concepção e de abordagem desses seus privilegiados interlocutores.

A síntese…

Tomo por empréstimo, na integralidade, duas expressões de Cássio acerca de Nezinho: “Culto e inteligente, leal e fiel, ético e decente, humano e solidário.

… Perfeita

“Tanta coisa para lembrar, tanto para contar… Digo apenas uma coisa: perdi o meu maior e melhor amigo”.

Amigos para sempre

William, há alguns anos, com insistência constante, solicitava que eu adquirisse um terreno num dos cemitérios da cidade, com a ressalva de que não se tratava de algo funesto.

O seu argumento dimensionava o seu coração: “Num futuro bem distante quero estar perto de você e de Cássio para sempre”. Foi atendido na aquisição.

“Qualquer dia, amigo, a gente vai se encontrar”, acalenta Milton Nascimento.

“A despedida é um momento de tristeza, em que corações se preparam para viver uma saudade”...
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