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Arimatéa Souza

sexta-feira, 15/05/2020

Demolição tropical

Retrato em preto e branco

Esta quinta-feira nos ofereceu a exata dimensão do quão instável é a situação do país diante do comportamento do presidente da República, a quem caberia ser o elo catalisador das forças nacionais para um enfrentamento coeso e focado ao coronavírus e suas brutais consequências – as já visíveis e as ainda encobertas pelo ofuscante isolamento social.

Preliminar

Não se trata, sublinho, por antecipação, da dicotômica postura de ser contra ou a favor do presidente, mas sim a depuração de sua conduta.

Recortes

Observe, leitor, o que andou dizendo, ontem, Jair Bolsonaro, começando pelo diário e desnecessário pronunciamento que faz, todas as manhãs, ao sair da residência oficial.

Aceno

“Tem que reabrir, nós vamos morrer de fome. A fome mata, a fome mata! Então, [é] o apelo que eu faço aos governadores: revejam essa política, eu estou pronto para conversar. Vamos preservar vidas, vamos. Mas dessa forma, o preço lá na frente serão centenas a mais de vidas que vamos perder, por causa dessas medidas absurdas de fechar tudo.

Diagnóstico

“O Brasil está se tornando um país de pobres. O que eu falava lá atrás, que era esculachado, estão vendo a realidade agora aí. Para onde está indo o Brasil? Vai chegar um ponto que o caos vai se fazer presente aqui.

Sugestão

“Essa história de ‘lockdown’, de fechar tudo, não é esse o caminho. Esse é o caminho do fracasso, quebrar o Brasil. Governador, prefeito, que porventura entrou nessa onda lá atrás, faça como já fiz alguma vez na minha vida. Se desculpa e faz a coisa certa.

Subordinados

“Segundo a OIT (Organização Internacional do Trabalho), os informais da América Latina perderam 80% do seu poder aquisitivo. O pessoal celetista também, estão perdendo. Vai faltar dinheiro para pagar servidor público. Ainda tem alguns servidores achando que quer ter a possibilidade de ter aumento neste ou no ano que vem. Não tem cabimento, não tem dinheiro.

Assertiva

“O Brasil, está quebrando! E depois de quebrar não é como alguns dizem, [que] a economia recupera. Não recupera. Vamos ser fadados a viver num país de miseráveis, como tem países na África Subsaariana”.

Presságio

“Está morrendo gente? Está. Lamento, lamento, mas vai morrer muito, mas muito mais se a economia continuar a ser destroçada por essas medidas. A gente vê o pessoal mais pobre de São Paulo, na periferia, no Rio de Janeiro também, continua todo mundo se movimentando”.

Incitação

Num encontro com empresários, organizado pela Federação das Indústrias de São Paulo (parte presencial e parte virtual), o presidente disse que “os senhores, com todo o respeito, têm que chamar o governador (João Doria, de São Paulo) e jogar pesado. Jogar pesado, porque a questão é séria, é guerra.”

Confrontação

“Nós temos que mostrar a cara, botar a cara para apanhar. Porque nós devemos mostrar a consequência lá na frente. Lá na frente, eu tenho falado com o ministro Fernando (Azevedo), da Defesa… os problemas vão começar a acontecer.

Incontrolável

“De caos, saque a supermercados, desobediência civil. Não adianta querer convocar as Forças Armadas porque não existe gente para tanta GLO (Garantia da Lei e da Ordem).”

Pressa
“Nós devemos buscar cada vez mais rápido abrir o mercado. Como eu abri agora, por exemplo, o decreto colocando academias, salões de beleza e barbearia (como atividades essenciais). Semana passada eu botei a construção civil e a questão industrial.

Ilação

“Tem governador falando que não vai cumprir. Eles estão partindo para a desobediência civil.”

´Fantasmas´

“É o Brasil que está em jogo. Se continuar o empobrecimento da população daqui a pouco seremos iguais na miséria. E a miséria é o terreno fértil para aparecer aqueles falsos profetas, aquelas pessoas que podem levantar borduna e partir [para] fazer com que o Brasil se torne um regime semelhante à Venezuela. Não podemos admitir isso.”

Boicote

“Vocês que anunciam em jornais e televisões. Tem TV e jornal que vive esculhambando o Brasil. Por favor, não anunciem mais nessa televisão e nesse jornal.

Indução

“Vão para outras TVs e outros jornais, que tenham um jornalismo sério, que não fique levando o terror o tempo todo entre lares aqui no Brasil”.

Retração

“Globo, Folha, Jornal do Commercio e Estadão reduziram 25% o salário do seu pessoal. Estão sentindo na pele agora, não adianta dar pancada no Jair Bolsonaro.

Curandeirismo

“Agora votaram em mim para eu decidir e essa questão da cloroquina passa por mim. Está tudo bem com o ministro da Saúde (Nelson Teich), sem problema nenhum, acredito no trabalho dele. Mas essa questão da cloroquina vamos resolver. O ministro da Saúde anterior (Luiz Henrique Mandetta) dizia que só pode usar em caso grave… não pode mudar o protocolo agora? Pode mudar e vai mudar”.

Achismo

“Cloroquina hoje ainda é uma incerteza. Houve estudos iniciais que sugeriram benefícios, mas existem estudos hoje que falam o contrário.

Escudo

“Se o Conselho Federal de Medicina decidiu que pode usar cloroquina desde os primeiros sintomas, por que o governo federal, via ministro da saúde, vai dizer que é só em caso grave?”

Desagregador

Sem emissão de juízo de valor sobre as declarações acima, salta à vista que essa estratégia de confrontação com governadores, prefeitos, imprensa e o Ministério da Saúde é, no mínimo, desaconselhável nesse instante.

Outra face

A mesma percepção se aplica à postura de diversos governadores, ao tom beligerante de parte da mídia; e a setores da classe política.

Afogando-se

Sem um mínimo de unidade, na situação em que se encontra, a chance de o Brasil soçobrar por muitos anos é crescente e imensurável.

Ontem e hoje

Resgate-se uma célebre frase do poeta espanhol Calderón de la Barca: “Ao rei tudo, menos a honra”.

Na cabível adequação, às nossas lideranças e autoridades ´tudo, menos as nossas vidas´.

É preciso recitar

“Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.”

(poeta Carlos Drummond de Andrade)

Brasil: erámos o ´gigante adormecido´. Viramos o ´gigante enfraquecido´...
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