Jornalista há quase 30 anos, escreve a coluna Aparte desde 1991. Já trabalhou em TV, rádio e foi editor chefe do Jornal da Paraíba e colunista das TVs Cabo Branco e Paraíba. É comentarista político das rádios Campina FM, Caturité AM e editor do portal de notícias Paraibaonline.

quinta-feira, 09/02/2017

Cúpula atropela Lira

Sem convergências

Pouco, muito pouco, concordo com as posturas e declarações do deputado Jair Bolsonaro (ainda oficialmente filiado ao PSC-RJ).

Mas o alvoroço que ele tem proporcionado por onde tem circulado merece atenção e reflexão.

Reedição

O ´fenômeno´ se repetiu ontem em Campina Grande, misturando afinidade, devoção e até histeria, em doses variadas.

Juvenil

Causa espécie que o ´núcleo´ desse fetiche resida justamente na juventude, uma quadra da vida normalmente avessas à visão retrógrada, preconceituosa e míope, própria do parlamentar.

Lentes

Mas não cabe ignorá-lo, muito menos menosprezá-lo. Bolsonaro é subproduto de uma fase histórica e negra que atravessamos enquanto nação, onde os valores são relativizados e a insubordinação, predominantemente impune, dilapida as elementares regras de convivência.

Terreno…

O desrespeito ´sem cerimônia´ aos direitos naturais e constitucionais começa a virar regra por contagiar a maioria, que se inspira na indiferença ao ordenamento legal do ´andar de cima´ de nossa pirâmide social.

… Fértil

O deputado que ´se assanha´ há meses para disputar em 2018 a Presidência da República é, na verdade, um pescador de águas turvas, recolhendo do desengano da população a seiva para pavimentar o seu projeto de poder segregacionista – por gênese e por conveniência.

Insegurança

A ênfase de seu discurso é no campo da segurança pública, no qual formam um coquetel explosivo a impotência do poder público para garantir o ir e vir do cidadão comum, de um lado, e o medo indisfarçável da população, do outro.

Apelo fácil

O seu discurso armamentista e explosivo soa como solução única e mágica para o enfrentamento da escalada de violência que virou uma mazela nacional pelas milhares de vidas inocentes ceifadas a cada ano; pelas atrocidades da bandidagem e também devido à inexistência da ´força do exemplo´ na punição exemplar aos nossos marginais do ´colarinho branco´.

Profundidade

O ´efeito Bolsonaro´ é um caudaloso rio para os cientistas políticos e sociais, e para diversas outras áreas das ciências humanas.

Risco

Por enquanto, interessa como objeto de estudo. Oxalá, não se converta em outra epígrafe vergonhosa de nossa história republicana.

Aviso prévio

Para a nossa classe política e a dominante elite econômica, Jair Bolsonaro é muito mais.

É sinal de alerta para que saiam da redoma na qual se meteram.

Surfando

Enquanto os políticos focalizam principalmente o umbigo, o deputado arregimenta seguidores gradualmente navegando com o atraente e cômodo discurso da ´revolução´ de práticas, costumes e condutas.

Precedente

Não custa lembrar que há vários meses Donald Trump era motivo de piada dentro e fora dos Estados Unidos.

Deu no que deu…

Por coerência

Mas vamos ao que disse o deputado Jair, ontem, em Campina, durante tumultuada entrevista.

É o exercício da pluralidade.

 

Lição

“Faz parte da política o contato com o povo. Ser bem tratado, isso não tem preço. Quisera eu que os políticos regatassem momentos com esse.

Recepção

“Eu sou bem recebido em qualquer lugar do Brasil. Isso traz esperança e responsabilidade. E isso no Nordeste não tem preço.

Viável

“Se o Brasil não tivesse jeito, eu não estaria aqui (…) Nós vamos chegar lá. Estamos aqui porque acreditamos no Brasil.

Porte de arma

“O que queremos é que o poder retorne para o povo. Nós confiamos na Polícia Militar, mas nós daremos porte e posse de arma para todo cidadão brasileiro.

Revide

“Temos que ter o povo armado para defender a sua democracia e a sua liberdade. E para os marginais do MST… Ao agronegócio, para o produtor rural, vamos dar fuzil.

Os incomodados…

“Deus acima de tudo. Não tem essa historinha de estado laico não. O estado é cristão e a minoria que for contra, que se mude. As minorias têm que se curvar para as maiorias”.

´Tratorado´

O senador paraibano Raimundo Lira (PMDB) sentiu na pele, notadamente ontem, o peso que tem a cúpula do seu partido, que literalmente ´rifou´ a sua intenção de presidir a mais importante comissão do Senado – a de Constituição e Justiça -, um desejo por ele tecido e adubado junto a colegas desde que presidiu (debaixo de elogios) a comissão do impeachment da ex-presidente Dilma.

Resistência

Na véspera, diante da falta de acordo na bancada com três postulantes ao cargo – Lira, Edison Lobão (MA) e Marta Suplicy (SP) -, o paraibano avisou que não retiraria a candidatura e que desejaria ir para uma decisão no voto.

´Dedo´ de fora

“Eu não vou aceitar que seja feita votação dentro da bancada do PMDB, porque há interferências externas nessa decisão. Ou o líder faz a sua indicação, ou a decisão deve ser feita da forma correta, pelo voto dentro da CCJ”, avisou, no começo da tarde, um visivelmente irritado Raimundo Lira, caminhando para uma (e definitiva) reunião da bancada.

Triunvirato

Contra o paraibano, um trio de peso na política e companheiros de ações judiciais (como réus), inclusive na Operação Lava Jato: Renan Calheiros (PMDB-AL), líder da bancada; Romero Jucá (PMDB-RR), líder do governo no Congresso, e o ex-presidente José Sarney.

Isolamento

Durante a última reunião da bancada, Lira certificou-se, na plenitude, de que lhe havia faltado terra sob o chão partidário, ao ponto de sequer ter sido incluído como membro da CCJ, o que poderia lhe facultar a possibilidade de lançar uma candidatura avulsa à presidência.

Retirada

Restou a Lira retirar a sua postulação, abandonar a chance de integrar a comissão e testemunhar a consumação do que o trio acima referido desejava: a indicação de Edison Lobão para presidir a CCJ.

Réu

Trata-se de um parlamentar alvo de inquérito no Supremo Tribunal Federal, sob a acusação de integrar uma organização criminosa que fraudou a Petrobras.

´Óleo de Peroba´

Após a sua indicação, Lobão teve o cinismo de afirmar que investigações “não devem gerar constrangimento para ninguém”.

A base governista em Campina está tão larga que não comporta cinturão...
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