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Arimatéa Souza

sexta-feira, 17/04/2020

Crônica anunciada

Delírio tropical

Os ficcionistas ganharam uma fonte de inspiração inesperada. Em meio a uma pandemia que mata pessoas incessantemente pelo mundo afora, e que inevitavelmente vai alterar o modo de vida da civilização atual, o Brasil contemplou, por semanas, um embate público entre o presidente da República e um ministro de seu governo – justamente o da Saúde, encarregado de enfrentar essa pandemia.

Uma lição às avessas oferecida ao mundo; ou mais uma vergonha internacional em nossa história.

Xadrez

O desfecho consumado ontem dessa crise gerencial e política no governo foi precedido de táticos movimentos da parte do presidente Bolsonaro e do seu agora ex-ministro Luiz Henrique Mandetta.

Sem notoriedade

Puxando pela linha do tempo, Mandetta era até a propagação do coronavírus um desconhecido ministro do governo, mas bem conceituado entre os profissionais da área e junto às lideranças que acompanham o cotidiano da Pasta.

Retrovisor

Pessoalmente, Mandetta é um médico ortopedista e ex-deputado federal, que chegou ao posto com o aval do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), e que hesitou de tentar em 2018 um novo mandato para a Câmara Federal.

Pilares

Com o advento da pandemia, o ministro acumulou um protagonismo que teve como lastro algumas ações e opções pessoais: diálogo próximo e constante com os governadores, obediência irrestrita às orientações de sua equipe técnica e interlocução constante com a população.

Sombra

A empatia de Mandetta visivelmente incomodou o presidente, que passou a contestar as decisões do próprio Ministério da Saúde.

Óbice

Bolsonaro não antecipou a demissão por saber que era arriscado e desaconselhável demitir o auxiliar bem avaliado e – principalmente – que conquistou o respeito de fatia expressiva da população.

´Passou…

A impaciência presidencial se manifestou pela renovada desobediência em seguir as orientações governamentais do isolamento social.

… Recibos´

Mas também foi perceptível devido ao impacto financeiro do engessamento da atividade econômica, um setor nevrálgico para o apoiamento à gestão Bolsonaro e para a perspectiva de tentar um novo mandato no ainda distante 2022.

Autonomia

Mandetta – que é um político, não esqueçamos disso – se permitiu alguns procedimentos que denotaram claramente uma exacerbada autoconfiança, a exemplo da reunião com os presidentes do Senado, da Câmara Federal e do Supremo Tribunal sem comunicar previamente ao seu chefe.

Adversários do chefe

Igualmente foram fronteiriças as reuniões com desafetos do presidente, como são os casos dos governadores de São Paulo, João Dória (PSDB), e do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC).

´Armas´

O agora ex-ministro dobrou a sua aposta na interação direta e intensiva com a opinião pública, e na espécie de lema da condução da crise: “foco, ciência, disciplina e planejamento”.

Ousar

Mas Mandetta resolveu – deliberadamente ou não – cutucar a corda e provocar o presidente, ao cabo de uma provocação em sentido contrário – ambas ocorridas no final de semana passado.

Acinte

Bolsonaro, ao visitar a construção de um improvisado hospital em Goiás, tendo a companhia do ministro da Saúde e do governador Caiado, simplesmente fez vista grossa das orientações técnicas e foi (novamente) ao encontro de populares para cumprimentá-los.

´Inimiga 01´

No dia seguinte, Mandetta pagou pra ver: concedeu uma entrevista exclusiva à Rede Globo, com quem Bolsonaro trava uma briga violenta e sem tréguas desde o período de sua campanha rumo à Presidência, em 2018.

Eu ou ele

Num momento de suas declarações, um indicativo de que Mandetta induzia a sua saída do governo: “Eu espero que essa validação dos diferentes modelos de enfrentamento dessa situação possa ser comum e que a gente possa ter uma fala única. Isso leva para o brasileiro uma dubiedade. Ele não sabe se escuta o ministro da Saúde ou o presidente”.

´Nas cordas´

Não restou muita escolha ao presidente que não fosse avançar na disposição reprimida de demitir Mandetta e procurar imediatamente o seu sucessor, sob pena de sua autoridade ficar irremediavelmente comprometida.

Senha dada

Terça-feira última, em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, o vice-presidente da República, Hamilton Mourão – que era um defensor e admirador do trabalho de Mandetta -, delineou figurativamente a nova realidade.

Analogia

“Vou usar a expressão do polo. O ministro cruzou a linha da bola ali. Ele não precisava ter dito determinadas coisas. Cruzar a linha da bola é uma falta grave no polo. Nenhum cavaleiro pode cruzar na frente da linha da bola. Ele pode acompanhar lado a lado. Ao cruzar a linha da bola, você comete uma falta. Dá um cartão”, comentou o vice.

Só um…

O capítulo final dessa relação conflituosa entre Mandetta e Bolsonaro (que ontem estava visivelmente abatido) não acontece no presente.

… Está certo

O caminho comum deles se bifurca, mas os desdobramentos da pandemia responderão se o ex-ministro estava correto em seu diagnóstico, ou se os conselheiros mais próximos do presidente e sua aguçada percepção tinham razão. A conferir.

Em tempo

Resta torcer para que o novo ministro Nelson Teich tenha sorte e êxito, porque o sucesso das suas ações representará o restabelecimento da tranquilidade para um país inteiro, que oscila no presente entre a incerteza e a perplexidade.

Bolsa de apostas

Antes de o médico oncologista Nelson Teich ter sido formalmente convidado e aceito o cargo de ministro da Saúde, dois paraibanos foram sondados (ou, pelo menos, cotados) para a Pasta.

Litoral

O primeiro deles foi o médico pessoense Marcelo Queiroga, atual presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.

Sertão

O outro nome cogitado foi Maria Inez Pordeus Gadelha – paraibana de Sousa e formada em medicina pela UFPB -, atual chefe do gabinete da Secretaria de Atenção Especializada à Saúde (Saes).

Na contramão

Ao comentar a destituição de Mandetta, o governador da Paraíba disse que é “uma pena” que haja a demissão de um ministro e de parte de sua equipe justamente num momento em que “em todos os países as pessoas se unem para tentar enfrentar a pandemia. Aqui se cria uma crise”.

Time

“Ninguém é insubstituível. O problema é a hora de se fazer a substituição”, acrescentou.

Alerta…

João Azevedo se reportou novamente à decisão da prefeitura campinense de promover, a partir da próxima semana, a retomada gradual das atividades comerciais.

… Renovado

“É uma decisão sem o mínimo respaldo científico para isso, tomada por pressão de grupos econômicos. Não estão pensando no que virá”, assinalou.

Limitação

Para o governador, em entrevista à ´Arapuan FM´, Campina “não tem os leitos preparados para enfrentar o pique de contaminação”.

Inconsequência

“É uma temeridade, é um risco muito grande”, reforçou, para emendar: “Parece que estão no mundo da lua. É uma cegueira desnecessária. Estão decidindo apenas na base da política”.

O detalhe

As cidades de Areia e Guarabira também sinalizaram a liberação do comércio a partir da próxima semana.

´Assembleia´

Os reitores das universidades que atuam em Campina Grande vão se reunir na manhã de hoje – 10h – de forma virtual, para deliberar sobre o futuro das atividades acadêmicas.

Sem condições

Em entrevista ontem à Rádio Caturité FM (104.1), o reitor da UEPB, professor Rangel Júnior, antecipou que “a nossa avaliação não é animadora” para o retorno às aulas no dia 27 próximo, como chegou a ser agendado.

“Não devemos retomar”, prognosticou.

Todos…

Ao falar sobre a crise do coronavírus, Rangel frisou que “é bom acabar com o achismo”, acentuando que “ninguém deve sair incólume de todo esse processo, no mundo inteiro”.

… Arranhados

“A incerteza é o que está orientando tudo. Se alguém acha que está ruim, poderá ficar pior”, arrematou.

É preciso cantar

Como beber dessa bebida amarga?

Tragar a dor, engolir a labuta?

Mesmo calada a boca, resta o peito (…)

Como é difícil acordar calado

Se na calada da noite eu me dano

Quero lançar um grito desumano

Que é uma maneira de ser escutado

Esse silêncio todo me atordoa”

(Chico Buarque)

Num voo turbulento, piloto e passageiros têm o mesmo desfecho...
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