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Arimatéa Souza

sexta-feira, 22/11/2019

Câmara campinense ´atravessa o passo´

´Paraquedas´ parlamentar

A maioria dos vereadores de Campina Grande renovou a aposta – mais uma vez -, ontem, numa doença que acomete histórica e periodicamente o povo brasileiro: a amnésia.

Os edis votaram velozmente, como alguém que transporta fogo ou está consciente de que realiza algo errado, um projeto que chegou na véspera e que tramitou em regime de ´urgência´.

Entenda-se com ´urgência´ o literal atropelamento das normas regimentais e a não tramitação em nenhuma das comissões temáticas existentes naquela casa legislativa.

Bem público

A matéria meteórica é a doação de uma área de 24 mil e 800 metros quadrados à empresa privada que organiza a Vila Sítio São João, na avenida Floriano Peixoto, bairro Dinamérica.

Sem vida

Diga-se, de passagem, que o que se viu ontem na Câmara campinense foi a renovada constatação da inutilidade dessas comissões anualmente formadas para apreciar os temas que por lá tramitam.

Capítulo anterior

Registre-se, igualmente, que há alguns meses foi anunciada a concessão da referida área, ao mesmo Sítio, em forma de comodato, sem ônus pecuniário, pelo período de 20 anos, com a propagada contrapartida do acesso de alunos da rede municipal de ensino, no período junino, e eventual realização de eventos da PMCG no local.

Retrovisor

À época, esta Coluna pontificou que ao longo dos últimos tempos o citado Sítio – singular em sua inspiração e, inegavelmente, um dos polos de atração turística no período do Maior São João do Mundo – estava gradativamente se transformando numa casa de shows.

Contenção

Quando o projeto foi colocado em votação, ontem, o vereador Bruno Faustino (PSB), líder do que restou da oposição em Campina, ponderou pelo adiamento da matéria, sob a alegação de que algumas variáveis precisavam ser melhor discutidas e avaliadas.

Questionamentos

Ele citou que o Sítio está localizado vizinho ao local onde a PMCG está construindo o novo Hospital da Criança, que se trata de “um terreno muito valioso”, e que a mensagem remetida pelo Poder Executivo sequer informa a avaliação feita acerca do valor do imóvel.

“É um prejuízo para todos nós (vereadores)”, alertou.

Abrir o debate

O socialista ressaltou que “a sociedade está vigilante nas nossas ações”, insistindo que “esse projeto precisa ser discutido não só pela Câmara, mas por toda a sociedade”.

“Qual será a contrapartida?” – indagou.

Presente

Por fim, Bruno Faustino afirmou que “essa entidade” (Sítio) está sendo presenteada. Não podemos votar isso a toque de caixa”.

Apoio

O vereador Pimentel Filho (PSD) disse que votaria favoravelmente porque “Campina é uma cidade turística”, comentando mais adiante que o vereador João Dantas (PSD) – criador do Sítio São João – “é lascado (liso), e há muito tempo faz cultura” na cidade.

Assessoramento

João Dantas – visivelmente inquieto na sessão – passou a fazer uso da palavra.

Inicialmente, informou que apenas “dou consultoria àquele projeto” (Sítio São João).

Desafio

Mais adiante, afirmou que se for comprovado que o empreendimento, no local atual, “teve um centavo de dinheiro público, eu renuncio ao meu mandato”.

Disponibilidade

O vereador elencou que o Sítio sempre facultou o acesso gratuito à rede municipal de ensino e está à disposição dos eventos municipais e estaduais.

Captação

Ao avançar em suas palavras, Dantas revelou que tomou “três empréstimos pessoais” para propiciar a instalação do Sítio na avenida Floriano Peixoto.

Abstenção

Ele enfatizou que “tenho liberdade técnica” para apreciar o projeto, mas que iria se abster quando da votação.

Desacordo

O orador seguinte foi o vereador Galego do Leite (Podemos), que comunicou que “a bancada de oposição não coloca as suas digitais essa questão”.

Nitidez

À sua ótica, a impertinência da doação “está mais clara do que o sol do meio dia”, ressalvando que a importância do Sítio São João para a festa junina não estava em discussão.

Generosidade

“É uma doação generosa. Noutras épocas, esta Casa já teria caído”, arrematou o parlamentar.

´Noutros verões´

A vereadora-presidente Ivonete Ludgério (PSD) argumentou que “não existe pressa” para votar o projeto, recordando que “já houve aqui doação de terreno a uma grande construtora desta cidade no governo anterior (Veneziano)” para a construção e comercialização de casas.

Placar

Apurados os votos, 14 edis votaram pela doação do imóvel (inclusive Rodrigo Ramos, do PDT); três votaram contra (Galego do Leite, Olímpio Oliveira, do MDB, e Bruno Faustino), e o sargento Neto (PRTB) se absteve.

O detalhe

O próprio João Dantas acabou votando o projeto.

Consequência

“A cidade irá cobrar de nós esse posicionamento”, registrou Bruno em sua justificativa de voto.

Nada a declarar

Encerrada a sessão, João Dantas avisou aos jornalistas que “sobre o Sítio São João, eu não falo. É um projeto da cidade”.

Silêncio

O vereador Alexandre do Sindicato (Podemos – ex-PHS) avisou que também não daria entrevistas.

Projeção

Em consulta informal ao mercado de corretagem de imóveis, a Coluna apurou que o imóvel doado tem um valor de mercado atual entre R$ 7 milhões e R$ 10 milhões.

Ponto…

É incontroversa – insisto – a contribuição que o Sítio São João oferece, há muitos anos, ao Maior São João do Mundo.

… Pacífico

E deve receber – avalio – estímulos e apoio da cidade e até mesmo do Poder Público, o que tem acontecido também regularmente, talvez não no volume necessário.

Transcende

Mas a premissa acima não comporta a aprovação célere de tamanha doação, que deveria passar por uma discussão mais ampliada.

Chamuscado

Quando se erra na forma, inevitavelmente o conteúdo fica desconsiderado.

A maneira como o projeto tramitou o compromete já na largada.

Execução

Igualmente é necessário mencionar que não existe nenhuma entidade de caráter público ou organização não governamental por trás do Sítio, mas sim uma empresa privada que receberá uma doação equivalente a (por baixo) mais de 100 vezes o seu capital social registrado.

´Queimou o filme´

É em função de procedimentos dessa natureza que o Legislativo amarga crescente e já imenso desgaste perante a opinião pública.

Abandonados

Princípios basilares da coisa pública, como publicidade e impessoalidade – para citar apenas dois – ficaram ao relento.

Obviedade

Salta à vista que a votação de um projeto que transita na esfera do interesse evidente de um dos vereadores cria, incondicionalmente, um constrangimento ao colegiado.

Mídia

Abordar o assunto na imprensa também causa constrangimento, até porque o vereador/ativista cultural é da convivência permanente de muitos jornalistas, inclusive este colunista.

Motivação

Em nota divulgada ainda ontem, a direção da empresa Memorial do Homem do Nordeste Ltda., (Vila Sítio São João) – da qual legalmente João Dantas não faz parte – alega que a doação tem por finalidade a “viabilização de um dos principais equipamentos culturais e turísticos da cidade”.

Outro tom

O texto acentua que “politizar a importância de um equipamento dessa grandeza é desconhecer um instrumento de cultura e inclusão social que busca resgatar a história do Nordeste”.

Novel acadêmico

Na parte final da coluna de hoje, os votos de sucesso (e de acolhida) ao jornalista e professor Jurani Oliveira Clementino, colunista do PARAIBAONLINE, que assume hoje – 19h, no auditório da Associação Comercial – a cadeira de número 29 da Academia de Letras de Campina Grande, sucedendo ao professor e teatrólogo Hermano José Bezerra.

O patrono da cadeira é Lino Fernandes de Azevedo, e o discurso de recepção será proferido pelo professor e historiador Bruno Rafael Gaudêncio.

Como ensinou a marcante escritora francesa Simone de Beauvoir, “todas as vitórias ocultam uma abdicação”.

Os olhos de Cássio só enxergam 2022...
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