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Arimatéa Souza

sábado, 06/03/2021

Adeus, com eterna gratidão

O café esfriou definitivamente

Certamente muitas pessoas estão muito mais credenciadas, até por força da cronologia, a falar (e recordar) acerca do empresário José Carlos da Silva Júnior, que desde ontem deixou a Paraíba órfã de seu arrojo empresarial e dos seus ensinamentos.

Mais adiante, o que segue é o relato de uma convivência pessoal de aproximadamente duas décadas: de convivência, admiração e respeito.

Em série

Pelo seu ineditismo, pela subestimação de seu potencial dizimador e por equívocos e negligência de nossas autoridades, a Covid-19 se converteu no Brasil numa espécie de ´linha de produção de cadáveres´, que deixa um rastro de dor, tristeza e orfandade.

Exercício de…

Pior ainda, é que o egoísmo inoculou a insensibilidade em muita gente, diante dessa tragédia nacional diária, na qual os óbitos são contados em centenas.

… Desumanidade

A morte prematura, na maioria dos casos, está sendo banalizada e incorporada à paisagem urbana de forma inaceitável.

Adolescência

Quando de minha juventude, aprendi a encarar a empresa São Braz como um crescente motivo de orgulho para Campina Grande, com o aroma adicional e diferenciado de a sede da indústria estar localizada bem próximo à residência que morava, no bairro da Liberdade, em Campina Grande.

Imaginário

A imagem distante que nutria do empresário José Carlos da Silva Júnior era a de alguém que encarnava o espírito buliçoso e empreendedor da ´cidade Rainha´.

Vocação

Os anos se sucederam e agigantou-se em mim o pendor para a atividade jornalística. Como a necessidade de sustentação se impunha na ´hierarquia´ das prioridades, restou-me buscar um estágio nos jornais locais nas horas vagas.

´Ponte´

Mediante um amigo comum – Rildo Ferreira -, o vereador José Luiz Júnior viabilizou (sem me conhecer) um estágio no memorável jornal Gazeta do Sertão, de propriedade do campinense ímpar que foi o economista Edvaldo de Sousa do Ó, que funcionava onde hoje está instalada a STTP.

Relatos

Ao frequentar a ´Gazeta´, por diversas vezes testemunhei ´Dr. Edvaldo´ conversando na redação com editores e fazendo menção a diálogos e à sua amizade (e admiração) com o empresário José Carlos.

Proximidade

Edvaldo e José Carlos conversavam praticamente todos os dias, às primeiras horas da manhã, além de regulares refeições comuns.

Obstinação

A impetuosidade e o instinto empresarial de JC eram sempre ressaltados por ´Dr. Edvaldo´ – um misto de amigo, confidente e consultor.

Nas ondas do rádio

Veio a chance de estender, como voluntário, a experiência embrionária na Pastoral da Comunicação da Paróquia das Graças (Liberdade) para a produção de um informativo semanal da Diocese de Campina Grande, aos domingos, na Rádio Caturité.

Encadeamento

Posteriormente, com a inclinação indomável para o jornalismo, passei a atuar na Rádio Caturité como radialista.

Algum tempo depois, surgiu o convite para trabalhar no Jornal da Paraíba como repórter político.

Endosso

Antes da aceitação, realizei uma consulta prévia ao superintendente da Caturité, advogado José Cursino de Siqueira, que prontamente acolheu a conciliação das atividades, como acrescentou que eu estava indo para uma empresa organizada e zelosa de sua imagem.

Trilha

Poucas semanas antes, o filho de ´Dr. Siqueira´, jornalista Carlos Siqueira, havia feito semelhante percurso, só que em outra empresa do Grupo São Braz: a TV Paraíba, onde permanece até os dias atuais.

Brincadeira

Devido a essa proximidade de ingresso no grupo e à sucessão de anos que atuamos por lá, eu e Carlos Siqueira erámos chamados pelos colegas de jornalismo como ´os netos´ de ´Seu José Carlos´.

Degraus

Progressivamente, as oportunidades foram surgindo e passei à condição de colunista, secretário de redação e editor geral do Jornal da Paraíba – nesse último caso por sugestão da jornalista Lourdinha Dantas (para sucedê-la) e por referendo do economista Arlindo Almeida, que era diretor administrativo do grupo.

Adequação

Até essa fase, os contatos com ´Seu José Carlos´ eram restritos à cobertura de eventuais pautas.

Com a chegada à editoria, obrigatoriamente, houve a mudança no meu horário de trabalho, que se estendia até altas horas da noite.

Chegadas…

E aí surgiu a crescente aproximação com ´Seu José Carlos´. Ele gostava de visitar à noite o JP, especialmente o setor gráfico. Sempre curioso sobre as rotinas da empresa.

… Inesperadas

Nessas visitas, gostava de se inteirar sobre os fatos recentes, compartilhar histórias que vivenciou ou testemunhou.

Afinidades

Aos poucos, ele descobriu minha afinidade com o noticiário econômico e passou a prolongar os diálogos, uma vez que apreciava comentar o tema.

Igualmente, passou a apreciar a linguagem objetiva que era marca que adotava (e adoto) na coluna Aparte.

Reprovação

´Seu José Carlos´ tinha o hábito de experimentar o café do jornal, quase sempre que lá comparecia.

E, muitas vezes, reclamava: “Vocês não tomam café, mas garapa”.

´Tradutor´

Os contatos foram intensificados quando seu ´José Carlos´ me convocou para ajudá-lo na elaboração de textos que necessitava.

Por muitos e muitos anos coube a mim dar forma e palavras aos seus pensamentos, opiniões e conceitos.

Interação

Essas formatações demandavam conversas prolongadas e agradáveis. Normalmente, ele iniciava o diálogo perguntando, de forma instigante, o que eu achava que seria a opinião dele sobre determinado tema.

A partir dessa percepção inicial, dava contornos às suas ideias.

Decifrar

Periodicamente, ele ligava para mim para ´tirar dúvidas´ sobre fatos e/ou personagens atuais de Campina Grande, alegando que havia ´perdido o contato´ com as novas gerações.

Monitoramento

Com o fechamento do Jornal da Paraíba, de comum acordo com o seu filho Eduardo Carlos, escolhi deixar o Grupo.

De tempos em tempos, ´Seu José Carlos´ telefonava para saber como estava e se necessitava de alguma colaboração.

Chamamento

O afastamento do Grupo não suspendeu a sua convocação, vez por outra, para auxiliá-lo nos eventos em que era convidado para participar e/ou ser homenageado.

Intuitivo

Desde os primórdios da convivência, sentia a sensação de que o dono do Grupo São Braz era um ser diferenciado, muito mais do que um empresário bem sucedido nos negócios.

Confirmação

Mozart Santos, experiente executivo, que também construiu uma bela amizade com ele, ratificou essa impressão: José Carlos era um homem à frente do seu tempo.

Superação

Uma frase do próprio JC simboliza a constatação acima: “Não adianta ser melhor que o concorrente. Você tem que ser melhor que você mesmo ontem”.

Aprendizado

Atestei nesses anos todos, na prática, o que dizia o ex-diretor financeiro da São Braz, Hélio Pimentel: “Quem por alguns anos trabalhou com José Carlos está preparado para o resto da vida”.

Além do…

No dia em que fez 90 anos, realizou a inauguração formal da ampliação da capacidade de produção da unidade de Cabedelo.

… Horizonte

Mas as suas palavras já miravam a expansão subsequente.

Nessa oportunidade, me disse que naquela quadra da vida o trabalho era uma das poucas fontes de prazer que desfrutava na plenitude.

Fôlego

“A gente conversa com José Carlos e parece que ele está começando agora”, comentou certa vez o seu amigo e empresário Otto Muniz.

Sempre ativo

Até onde a pandemia permitiu, compareceu diariamente à sede da São Braz, muitas vezes até nos finais de semana.

A empresa era a inseparável expansão de sua família.

Amor à vida

Uma frase de seu discurso na solenidade de celebração dos 90 anos da Associação Comercial de Campina Grande sintetiza bem esse seu estado de espírito: “Quem vive 90 anos sabe muito bem o que é conjugar o verbo amar em todos os seus tempos e modos”.

Despedida é mergulhar o coração no oceano da saudade...
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