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Arimatéa Souza

quarta-feira, 04/12/2019

A gota d´água

´Livre atirador´

O ex-governador Ricardo Coutinho é, na plenitude, o que poderíamos chamar de um ´animal político´.

Dito de outra maneira: é um exímio ideólogo, que se guia, invariavelmente, por suas crenças, intuições, instintos e intenções.

Esgrima

Ele deu outra demonstração esta semana, ao açoitar novamente pela mídia o seu sucessor, ex-secretário e ex-correligionário João Lins Azevedo Filho.

Aparência

A contenda entre eles, para uma parte expressiva da oposição estadual – e parte da mídia especializada -, se constitui numa ´briga de fachada´ (fake News, na expressão da moda), que teria por finalidade neutralizar a visibilidade de seus adversários.

Estratégico

O capítulo mais recente dessa disputa desnuda e/ou comporta outra angulação: a de que os dois protagonistas buscavam o momento e/ou a conveniência de colocar no outro o ´figurino´ do traidor.

Ofensiva

Em entrevista no final da noite de 2ª feira, em João Pessoa, Ricardo fez uso de seu discurso perfurante, que culminou com a avaliação de João e de aliados de que chegara o momento propício para a saída do PSB.

Vitimização

Nas declarações televisivas, o ex-governador buscou apequenas o seu sucessor: “Servi para eleger um governador que não tinha nem 1% de conhecimento (pela população) na Paraíba, e era natural que não tivesse, mas não servi para ser o presidente do partido deste mesmo governador”.

Temor

Noutro momento, RC frisou que João teve qualquer tipo de sombra à sua volta: “Quem teve de graça o cargo de governador, quando não seria eleito nem para vereador, tem medo de 2022, como se eu fosse pleitear”.

À deriva

Houve farpas também na direção de Edvaldo Rosas, ex-presidente do PSB/PB e atual secretário de João: “Edvaldo Rosas não dava conta do partido fora do governo, imagina dentro. O partido começou a afundar”.

Despedida

No começo da tarde de ontem, ganhou as ruas a longa carta do atual governador comunicando a decisão de se desligar da legenda socialista.

Resgate

É importante realçar alguns trechos, que misturam desapontamento, decepção e indicações para o futuro político e administrativo do Estado. É o que segue.

Transbordou

“Tenho exercido os limites da paciência para não incorrer nas falhas que a pressa leva sempre a cometermos. Mas, como humanos, todos temos nossos limites. E o meu chegou com o PSB, partido ao qual sou filiado e me elegi governador em 2018.

O que o move

“Saio do PSB em busca da democracia perdida.

Sem…

“Muitos achavam que essa decisão deveria ter sido imediata ao ato de força que culminou com a dissolução do Diretório eleito em congresso, sem a menor justificativa.

… Açodamento 

“Não a tomei em nenhum desses momentos, embora justificativas não faltassem, justamente para que os ânimos pudessem ser serenados, o diálogo restabelecido e a ordem verdadeiramente democrática voltasse a predominar no PSB paraibano.

Medo do espelho 

“O que se viu, no entanto, foi a falta de qualquer gesto ou atitude de autocrítica pelo terrível erro cometido com a bonita história de nosso partido na Paraíba. Nos nivelamos a legendas autocráticas, de ocasião, sem zelo pelos mandatos eletivos em andamento.

Só retórica

“E pensar que o partido acaba de realizar evento nacional para promover uma Autorreforma. Sem democracia interna não existem sequer reformas, imaginem autorreforma.

Concretude 

“A democracia que defendemos não deve ser um conceito vago, um ser abstrato, que se usa quando convém, para embasar as próprias teses e dar ganho de causa a argumentos e procedimentos. Democracia é uma palavra viva que precisa estar presente no nosso dia a dia.

Sem rancor 

“Mágoas e rancores não cabem em meu coração. Apenas lamentações. A primeira, por ter que deixar o partido pelo qual fui eleito. Sem antes deixar de agradecer a todos os militantes, dirigentes e colaboradores que confiaram nas nossas propostas e têm hipotecado solidariedade irrestrita nesse momento tão delicado.

Dor… 

“A segunda e última lamentação eu não poderia deixar de registrar, porque essa dói profundamente e não vou guardar apenas comigo, pois isso faz mal à alma.

… Profunda

“Ironicamente, as maiores críticas ao nosso Governo nesses 11 meses não vieram da oposição, dos partidos políticos, dos sindicatos e associações de classe, dos deputados na Assembleia, da imprensa, dos artistas e intelectuais, das universidades e da sociedade em geral, que têm toda legitimidade para contestar e apontar os caminhos a serem seguidos pelos governantes.

Dentro… 

“A maioria das críticas – ou melhor, dos ataques – veio de membros do nosso próprio partido. E não foi do militante lá na ponta ou de alguém que votou e contribuiu de alguma forma, talvez desgostoso com algum fato menor ou desentendimento com alguém dos quadros governamentais. O antagonismo veio de figuras de proa do PSB, que mesmo antes da Intervenção ou do golpe, já atacavam o governo, secretários e o governador.

… De casa 

“Cheguei a ser severamente criticado em entrevistas e redes sociais simplesmente por dar continuidade ao Projeto do PSB, por sequenciar obras e realizações que não foram concluídas até 31 de dezembro de 2018 e muitas dadas como concluídas e inauguradas.

 

Mandonismo 

Mantivemos nomes e continuamos todos os programas e projetos do governo anterior, com direito a ampliá-los, incorporando novas visões e atores sociais. Mantive grande parte da equipe anterior, mesmo assim, pelo fato de ter realmente assumido as funções de governador do estado, tomando minhas próprias decisões, com possíveis erros e acertos, não foi do agrado de alguns que achavam que continuariam a governar a Paraíba.

Comando paralelo 

“Convivi neste período, com boicotes e sabotagens internos à gestão promovidos por alguns, que apegados a funções e salários, não tiveram a dignidade de entregar seus cargos, agindo ou não sob algum tipo de comando superior.

Incompreensível 

“Confesso que ainda não entendi o porquê disso tudo. Quais objetivos se escondem – se é que existem ou foi de ato impensado – para a semeadura de tanta discórdia em uma legenda que venceu as eleições de forma consagradora e transformou-se na maior agremiação partidária do Estado.

Virar a página 

“Mas, como a vida é feita de ciclos, iniciaremos uma nova caminhada a partir de hoje.

Renovação

“A cada chamado da vida, o coração deve estar pronto para a despedida e para novo começo, com ânimo e sem lamúrias”, assim escreveu um famoso escritor alemão (Hermann Hesse).

Nova etapa

“Não abri diálogo e nem avancei em qualquer tratativa, ante minha filiação anterior ao PSB. Mas irei fazê-lo neste final de ano, a fim de iniciar 2020 em uma nova e acolhedora casa. Não pretendo criar novo partido ou seguir modismos oportunistas.

Guardar…

“Irei mudar de partido porque o meu atual desconfigurou-se por completo na Paraíba. Mas os princípios e o conjunto de ideias que acredito, caminharão sempre comigo.

… Coerência

Vou procurar uma legenda que se afine com nossa visão de mundo e de Brasil, que não seja sectária, dona da verdade, que não exerça patrulha ideológica e refute alianças programáticas. Também que não flerte com o extremismo, com o fanatismo político, seja de direita ou de esquerda, nem tampouco pratique a idolatria personalista. Que os discursos para dentro sejam os mesmos para fora

Fecho

“Democracia, sempre! Ditadura, nunca mais!”

Sem demora

Poucas horas depois, a direção do PSB da Paraíba – leia-se Ricardo Coutinho – divulgou em resposta uma nota, ácida, como é próprio de seu estilo.

Leia trechos.

Sem surpresa

“O anúncio da desfiliação de João Azevêdo do PSB, partido pelo qual se elegeu governador há pouco mais de um ano, não surpreendeu os paraibanos e apenas é a formalização de um ato de traição.

Pecha

“Traição a seus companheiros de partido, a seus apoiadores e, principalmente, ao povo paraibano que lhe concedeu o voto para que a obra administrativa iniciada pelo PSB no governo de Ricardo Coutinho tivesse continuidade.

´Mea culpa´

“O PSB se sente na obrigação de pedir desculpas ao povo paraibano por tê-lo feito acreditar que o técnico, o secretário e ´fiel escudeiro´ do ex-governador Ricardo Coutinho, daria continuidade à gestão que transformou nosso Estado.

Eleitorado

“É principalmente ao povo paraibano que João traiu, porque nosso povo queria que o governo do estado, antes fatiado em conveniências e interesses políticos, continuasse sendo um lugar onde os filhos e filhas do povo continuassem a ter direitos iguais, e um governador que não compactue com tudo que representa retrocesso social, como acontece agora com o governo Bolsonaro.

Retaliação

“Antes de anunciar sua saída do PSB, João Azevêdo praticou atos seguidos de perseguição mesquinha e desrespeito a filiados históricos do partido.

Ausente

“Raramente frequentou a sede do PSB e pouco se interessava com os destinos do partido.

Obcecado

“Mesmo sem ter completado um ano de governo, transformou seu desejo de reeleição em uma obsessão. Por isso, esqueceu de governar para cuidar apenas de fazer intrigas.

Ilegítimo

“Toda a produção do governo, este ano, foi produto de 2018. João Azevêdo continuará a ter legalidade para assinar qualquer ato inerente à função que exerce, mas jamais terá a legitimidade política, jamais poderá explicar a sua traição e perseguição aos que foram o alicerce para a que ele sentasse na cadeira de governador.

Conquista

“Só a legitimidade constrói uma liderança e liderança se conquista, não se impõe.

Sacrifício

“Sem o apoio do ex-governador, que sacrificou, em nome desse projeto, e a pedido do próprio João Azevêdo, uma eleição certa para se dedicar, incansavelmente, à continuidade do projeto, João Azevêdo jamais seria eleito para qualquer cargo.

“Dissimulado”

“João Azevêdo se mostra agora um dissimulado. Escondeu de nós, seus ex-companheiros de partido e do povo paraibano que o elegeu, a sua verdadeira natureza, revelando-a por inteiro apenas depois de receber o maior cargo público do Estado”.

Seguir adiante

Ainda a nota do PSB: “Apesar das traições, da máquina de destruição de reputações e das perseguições em todas as esferas da administração estadual, continuaremos na

´A política ama a traição, mas abomina o traidor´.”

Algum reflexo dessa ´racha´ na Operação Calvário?...
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