Jornalista há quase 30 anos, escreve a coluna Aparte desde 1991. Já trabalhou em TV, rádio e foi editor chefe do Jornal da Paraíba e colunista das TVs Cabo Branco e Paraíba. É comentarista político das rádios Campina FM, Caturité AM e editor do portal de notícias Paraibaonline.

quarta-feira, 24/01/2018

A ´esperança´ no banco dos réus

Gol contra

O clima é (artificialmente) de final de Copa do Mundo. Mas as torcidas não vibram nem defendem as cores de seus times.

Pior ainda: qualquer que seja o resultado, realisticamente com os pés no chão, todos nós já estamos antecipadamente derrotados, enquanto nação.

Desvirtuamento

O julgamento do ex-presidente Lula, deploravelmente – e desde a sua fase inicial –, fugiu da apropriada seara jurídica para o embate político inconsequente, por aqui também inevitavelmente sectário e pernicioso e estéril.

Vala comum

Desgraçadamente, é necessário e doloroso reconhecer, não existem imaculados na história política e administrativa do País em tempos recentes.

Bagagem

Lula, que faz de cada iniciativa ou pronunciamento seu uma plataforma em direção aos altares, é um brasileiro singular, líder inquestionável e que levou para o comando do País uma experiência adversa de sobrevivência e a sensibilidade das camadas mais populares.

Legado

Ele foi desmedido e destemido no combate à fome, um ´fantasma´ de seu passado e um monstro que mutila seres humanos, avilta os desígnios de Deus, mas também (e intensamente) aniquila consciências.

Desalinho

Quem consegue conservar as lentes sem o embaçamento do radicalismo míope, mesmo não concordando com a trajetória e postura do ilustre petista, sente inevitavelmente tristeza e desapontamento ao contemplar as circunstâncias indignas nas quais Lula se meteu, atingindo o País em decorrência da liderança que exerce.

De bom tamanho

Sobre o recurso a ser apreciado hoje, o PT e Lula estão conseguindo precisamente o que desejam para o momento: converter um julgamento judicial numa comoção exageradamente passional, onde não há espaço para qualquer racionalidade.

Contraponto

Para tanto é utilizado como anverso o governo raquítico e rasteiro do presidente de plantão, Michel Temer.

Ou seja, é na opulenta impopularidade de Temer que se fermenta a mobilização em favor de Lula.

Companheiro…

Não custa lembrar que o atual presidente apenas completa um mandato que originariamente foi conquistado pelo PT, que de forma livre e pragmática escolheu – renovadamente – ter o PMDB e o próprio Temer como companheiros de chapa.

… De chapa

Temer não estava estampado na urna eletrônica de 2014.

Quem apareceu lá foi Dilma Rousseff.

Enraizar-se

O fato é que o voluntarismo dos primeiros tempos do presidente Lula no governo foi sendo gradualmente transformado num “projeto” duradouro e ousado “de poder”, como batizou o ex-superministro José Dirceu.

Contados a dedo

Do núcleo de correligionários que orbitava em torno de Lula no começo da década passada, poucos têm atualmente a possibilidade de transitar sem uma tornozeleira eletrônica ou de observar a aurora sem as sombras de uma cela.

´Mercadoria´

Na perspectiva de tornar duradouro o seu ´reinado´, o PT enxergou na compra de apoios de agentes políticos – a toque de caixa – o atalho para esse intento.

 

Escancarou

Foi tão além nesse propósito que decidiu participar do desairoso ´melaço´, lambuzando-se de dinheiro público pelo duto da corrupção, que avançou da cooptação de políticos mercenários para as parcerias com empresários dispostos a entronizar o ´partido dos trabalhadores´ não negociatas habituais em nossa história ´republicana´.

´Mão na massa´

Nessa farra regada pelos cofres da Nação, a inspiração inicial de custear o ´projeto de poder´ referido acima cedeu espaço para o enriquecimento pessoal (e milionário) de dirigentes partidários, ´tudo junto e misturado´ numa contabilidade abaixo da superfície e da luz solar.

´DNA´

A renovada chegada, hoje, de Lula no banco dos réus ocorre também – e principalmente – porque até as ruas de São Bernardo do Campo (SP) – berço do movimento sindical vigoroso dos anos 80 e da criação do PT – sabem que quase nada de relevante foi e é feito no partido e nos governos petistas sem o conhecimento e/ou concordância do ex-presidente.

Torrente

Lula é réu (ou investigado) em várias ações judiciais ou inquéritos porque precisa explicar os R$ 270 milhões que várias acusações, indícios e delações (de ex-ministros seus) apontam terem sido repassados a ele e ao seu partido, em forma de propina ou de ´caixa dois´ – expressão que o PT aperfeiçoou para ´dinheiro não contabilizado´ em campanhas eleitorais.

Nada de…

E, convenhamos, falta um mínimo de humildade ao ex-presidente, como demonstrou novamente ontem, em discurso – sim, discurso na véspera de seu julgamento.

´Mea culpa´

“Eu duvido exista neste país um magistrado mais honesto que eu”, proclamou Lula, ungido pela auréola de santidade que se permitiu.

Ele emendou: “Não tem um partido político melhor com o PT”.

´Epígrafe´

No fecho da sentença que condenou Lula em 1ª instância, o juiz Sérgio Moro cravou oportunamente: “Não importa o quão alto você esteja, a lei está acima de você”.

Descomunal

Ao julgar recentemente um dos inúmeros recursos relacionados à Operação Lava Jato, um dos desembargadores do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, o de Porto Alegre, João Pedro Gebran Neto, grifou as dimensões “estratosféricas” e “amazônicas” desse oceano de corrupção que o brasileiro se ´acostumou´ a quase diariamente ver jorrar diante dos seus olhos – e em ataque indireto ao seu bolso.

´Metástase´

“Na medida em que a operação se desenvolve, cada vez mais fatos são descobertos, envolvendo novos personagens e núcleos, podendo-se comparar os esquemas de corrupção a um câncer, de alto poder lesivo e considerável capacidade de se espalhar”, escreveu Gebran em outro de seus despachos.

´Perdão´

Sempre vem à tona o argumento de que, inobstante tudo isso acima mencionado, o ex-presidente continua a merecer a confiança de expressiva fatia do povo brasileiro, como mostram as pesquisas de intenção de votos.

Outra etapa

A observação é pertinente, apesar de os números serem uma fotografia de momento.

A abordagem eleitoral certamente será objeto de comentários ao longo das próximas colunas e meses.

O Brasil diante do ´espelho´

Quando um País para diante de si (e da TV) para assistir, em alguma medida, ao julgamento de seus escombros éticos e da apropriação espúria e desavergonhada da administração pública federal em mais de uma década, tendo como personificação disso o seu mais festejado líder em tempos recentes, faz-se necessário atestar o nosso esfarelamento moral, a sangria e dilapidação do patrimônio coletivo, como também se impõe (de coração dilacerado) refazer um slogan que contagiou corações e mentes não faz muito tempo: a desilusão está vencendo a esperança.

Como não lembrar do lendário cantor jamaicano Bob Marley: “Talvez as pessoas não me decepcionem. Talvez o problema seja eu, que espero muito delas”.

O 1º turno das eleições ocorre hoje...
Simple Share Buttons