Jornalista há quase 30 anos, escreve a coluna Aparte desde 1991. Já trabalhou em TV, rádio e foi editor chefe do Jornal da Paraíba e colunista das TVs Cabo Branco e Paraíba. É comentarista político das rádios Campina FM, Caturité AM e editor do portal de notícias Paraibaonline.

sábado, 18/03/2017

A aposta de Lula no Cariri

Degelo

Quase um ano após o seu afastamento da Presidência da República, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) deu a 1ª longa entrevista (quatro horas) a um veículo de comunicação do País.

Foi ao jornal Valor Econômico (SP). Dada a importância histórica, seguem alguns trechos.

Saudades do Poder?

“Posso até sentir, mas não agora. Sempre fui uma pessoa que se acostuma com a vida. Tinha uma vida lá, com um ritmo e uma função. Era obviamente interessante, sempre vai ser. Instigante, importante, né? Aqui (Porto Alegre, RS, onde reside) tenho outra vida. Gosto muito de ler, de ver filme.

1ª fumaça

“As pessoas esquecem que na origem da crise de 2008 está a corrupção de um setor desregulado que atingiu o mundo inteiro.

´Mea…

“Vou te falar, acho que cometi um erro importante: o nível de desoneração de tributos das empresas brasileiras. Reduzimos a contribuição previdenciária, o IPI, além de uma quantidade significativa de impostos. Com isso, tivemos uma perda fiscal muito grande. Nossa expectativa era evitar que a crise nos atingisse de forma pronunciada.

… Culpa´

“Por isso, aumentamos também o crédito, mas acho que aí não erramos. Erro foi a desoneração porque, ao invés de investir, eles (empresários) aumentaram a margem de lucro às custas de mais fragilidade nas contas públicas.

Crença

“O que eu tenho certeza é que o meu governo jamais fez foi compactuar com a corrupção.

Transparente

“Entro num tema que acho sério, que é o ´sincericídio´ do ministro por um mês, do Planejamento, o senador (Romero) Jucá (PMDB), quando disse que tinha que estancar a sangria e usou palavras, assim, pornográficas para descrever as relações políticas no Brasil.

Demonstrações

“Se não achasse importante o combate à corrupção, não teria sancionado a lei da delação premiada, não teria respeitado a Polícia Federal, não teria respeitado o Ministério Público, nem nomeado ministros (do Supremo Tribunal Federal) que tivessem uma inequívoca biografia.

“Arma”

“O combate à corrupção no Brasil mais uma vez virou uma arma ideológica. Enquanto as investigações estavam sobre o PT, ou alguém do PT, não havia problema em vazamento, não havia problema em 500 mil pesos e mil medidas. Agora tem.

Mutação

“Uma coisa que, visivelmente, em qualquer país do mundo, seria caso de quebra da segurança nacional, que é gravar o presidente sem autorização do Supremo, tudo isso foi permitido. Agora, quando chega ao PMDB ou PSDB, é criminalização da política.

Protestos de 2013

“Ainda vamos precisar de uma distância histórica para entender. Tem uma parte simples, mas não responde tudo.

Inconciliável

“Tinha gente que dizia pra mim: ‘Tem que fazer aliança com Eduardo Cunha’, mas o rompimento, olhando de hoje, era inexorável. Não existe acordo com Eduardo Cunha. Existe submissão.

Ardiloso

“As 19, ou 15 ou 38 perguntas ao Temer (de Cunha); o pacote de [José] Yunes (amigo de Temer), o que você acha que é, querida? Você está falando de um gângster inteligente. Devia ajoelhar e aceitar as condições? (…) Custaria mais para o país. Muito mais.

Assaltantes

“Você vai me desculpar, mas eu não vou assaltar o país. Eduardo Cunha e eles assaltam o país. Assaltam. Do verbo assaltar. Além de outras coisas, né? Ele tem uma postura, em relação a direitos, coletivos e individuais, extremamente sectária.

Protagonista

“Cunha é claro nas perguntas. Está lá explícito que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, era o Temer.

 

Estilo

“Também não gosto de fazer análises pura e simplesmente moralistas das pessoas. É mais interessante pensar a função delas.

Proximidade

“Não sabíamos que o nível de cumplicidade dele (Temer) com o Eduardo Cunha era tão grande. Nenhum de nós sabia, nem o Lula. Depois é que descobrimos. Ele sempre negou essa cumplicidade que agora todo mundo já sabe.

Conhecimento

“Saber quem eles são, nós sabemos. Não tenho a menor dúvida de quem é (Eliseu) Padilha (ministro) e Geddel (Vieira Lima, ex-­ministro da Secretaria de Governo). Convivi sabendo quem eram. Não tenho essa (intenção) de falar que eu não sabia quem eram. Sabia direitinho. Inclusive uma parte do que sou e da minha intolerância é porque eu sabia demais quem eles eram.

Impotência

“Saber demais não significa que você é capaz de impedir algumas coisas. Por exemplo, o gato angorá (Moreira Franco, ministro de Temer) tem uma bronca danada de mim porque eu não o deixei roubar, querida. É literal isso: eu não deixei o gato angorá roubar na Secretaria de Aviação Civil. Chamei o Temer e disse: ‘Ele não fica. Não fica!’.

´Arsenal´

“Porque algumas coisas são absurdas, outras não consegui impedir. Porque para isso eu tinha de ter um nível de ruptura mais aberto, e eu não tinha prova, não tinha certeza, entendeu? Não acho que é relevante fazer fofoca, conversinha. Posso contar mil coisas do Padilha e do Temer.

Caixa

“Quando li a primeira vez, lá sabia quem era José Yunes (ex-­assessor da Presidência)? Mas lá está Eduardo Cunha dizendo que quem roubava na Caixa Econômica Federal, no FGTS, é o Temer. Leia, minha filha. Não tenho acesso às delações, mas sei o que é um roteiro. E lá está explícito roteiro da delação de Eduardo Cunha. Explícito. Alguém não sabe que o Cunha está dizendo que não foi o Yunes, mas o Temer?

´Faxina´

“Temos um encontro marcado com a democracia. Não importa que ganhe seu opositor. Você vai ter que respeitar; 2018 vai ser um banho com sabão e água sanitária em todo esse processo.

Durona

“Não me acostumei com a crise. Ninguém se acostuma. A única coisa que você sabe é que tem que resistir. Qualquer pessoa pode ser forte. Eu sou ‘dura’.

Ida ao Senado

“Cobraram-me de eu ter ido ao Senado, se o processo era viciado. Fui porque achei que seria importante para o país. É grave porque se uma presidente perde direitos, o que podem fazer com o cidadão comum? Mas, de qualquer jeito, mantinha­-se a institucionalidade. Não estamos numa ditadura em que toda a sociedade perde direitos.

Perfil

“Porque o Temer é isso que está aí, querida. Não adianta toda a mídia falar que ele é habilidoso. Temer é um cara frágil. Extremamente frágil. Fraco. Medroso. Completamente medroso. (Eliseu) Padilha não é. Temer é um cara que não enfrenta nada!”.

Contraste

A visita que Lula fará amanhã às obras da transposição na cidade de Monteiro, na companhia de Dilma, tem a nítida intenção de estabelecer um contraponto ao presidente Michel Temer (PMDB), que entregou o Eixo Leste há uma semana, sob forte aparato policial e diante dos apupos de petistas e de sindicalistas.

Neutralizar

O deslocamento do ex-presidente igualmente tem a notória finalidade de fazer germinar das abundantes águas do ´Velho Chico´ um pré-candidato à sucessão de 2018 incensado pela aclamação popular, para contrabalançar a coleção de processos (e de desgaste) que Lula acumula na esfera judicial, em sua maioria oriunda da Operação Lava Jato.

Largada para 2018

Nos preparativos para esse domingo atípico no Cariri paraibano, o carisma inegável de Lula está sendo cercado por uma gigantesca organização e mobilização, que tem a finalidade de dar contornos épicos a esse evento.

O ´retirante´ de décadas passadas volta às suas origens para tentar reproduzir a mitificação e regressar para casa (São Paulo) feito um ´fênix´, ave que ressurgiu das cinzas.

A vice-governadora já dialoga com deputados....