Fechar

logo

Fechar

Padre Edjamir Sousa Silva – A espiritualidade do cajado

Da Redação. Publicado em 18 de julho de 2021 às 19:19.

Foto: Ascom

Foto: Ascom

A primeira leitura de hoje (Jr 23, 1-6) é uma passagem pertence à coleção de vários oráculos relativos aos últimos reis de Judá. O texto diz: “ai dos pastores…” (v. 1). A profecia faz oposição aos reis, que deveriam cuidar do povo, no entanto abandonam o rebanho por causa de interesses particulares com os grandes. O Senhor Deus é comparado a um pastor (Sl 23,1-4; 78,25-26; 95,7), e os reis e outras lideranças deveriam ser reflexo dessa presença divina.

A profecia se dirige contra esses maus pastores que se ocuparam em dispersar e dividir o rebanho, ao invés de agregar e unir; e comportaram-se de maneira perversa e irresponsável (v. 2). Então, Deus, que derruba os poderosos de seus tronos, vai reunir o que foi disperso, procurar o que está perdido e conduzir a lugares seguros. Em seguida, vai suscitar novos pastores para apascentar seu rebanho segundo o seu coração (Jr 3,15; 29,10-14; 30,10).

Deus estabelecerá um descendente de Davi, que será competente, defenderá o direito e a justiça aos pobres e excluídos e terá por nome “Senhor, nossa justiça” (v. 6). Ele usará da justiça para reunir o que se dispersa e curar o que está ferido. O texto cria, então, a expectativa de um enviado de Deus para o cuidado do povo.

A segunda leitura (Ef 2, 13-18) comunica a realização da profecia em Jesus Cristo, que busca unir a todos. As segregações devem ser superadas, e, as diferenças, diminuídas, pois o Senhor aboliu os motivos que separavam as pessoas. Cristo estabelece uma unidade de paz (v. 13.17). Ele veio unir, congregar, derrubar os muros e, como diria o papa Francisco, “construir pontes”. As atitudes que vemos de exclusão, discriminação, injustiça e preconceito não nasce da fé cristã, mesmo quando usam o nome de Deus.

Domingo passado ouvimos o envio missionário dos 12 apóstolos (Mc 6,7-13). Entre as várias recomendações feitas por Jesus, estava aquela de não levar nada para o caminho “a não ser um cajado apenas” (6,8). Este é único elemento que distingue a missão dos discípulos, isto é, o cajado como símbolo do pastor, pois as outras coisas permitidas (túnica e sandálias) qualquer um viajante poderia levar.

O evangelho de hoje (Mc 6, 30-34) inicia retomando o contexto da missão de domingo passado: “Os apóstolos reuniram-se com Jesus e contaram tudo o que tinham feito e ensinado”. Os enviados compartilham com o Mestre a missão realizada, certamente com seus momentos de sucesso, mas também as dificuldades, frustrações, pois dessas eles não seriam isentos, uma vez que o próprio Senhor já lhes havia advertido (“Se em algum lugar não vos receber…” Mc 6,11). 

Os discípulos não conversam apenas de suas questões, mas principalmente as situações que afligiam o povo de Deus. E aqui está a espiritualidade do cajado: “Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas”. (Mc 6, 34).

O que o Senhor falou naquele dia? O conteúdo do ensino de Jesus era o Reinado de Deus. O Senhor os ensinou a ter empatia, que historicamente, como dizia o profeta Jeremias, os pastores não conseguiram ter: “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se o rebanho de minha pastagem, diz o Senhor!” (Jr 23,1). 

Ainda hoje sofremos da mesma mazela da indiferença de muitas lideranças, descompromissadas com parte da população. A Igreja, como o mesmo olhar e coração de Jesus, contempla muitas vezes que, diante da hostilidade e da indiferença dos grandes, o povo vive como ovelhas sem pastor. A presença de Jesus no meio da humanidade e a presença dos discípulos-pastores comunicam que: “De geração em geração a sua misericórdia se estende” (Lucas 1, 46).

O Concilio Vaticano II disse que “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angustias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angustias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (…). Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história.”. (Gaudium et Spes, 1).

Em tempos como o nosso é preciso se reinventar na esperança. É tempo de humanizar nossa fé, esperança e caridade. O mundo caminha graças ao olhar de tantos homens e mulheres que abriram frestas, que construíram pontes, que se arriscaram até mesmo em batalhas aparentemente inúteis e desgastantes. Consideremos o testemunho do profeta Jeremias: uma pessoa terna e ansiosa de paz, mas teve muitas vezes de estar em luta contra os seus: reis, sacerdotes, pessoas falsas, contra todos aqueles que faziam mal ao povo, lutou até mesmo contra a hipócrita do senso religioso de seu tempo. Lutou também contra si mesmo, basta ver seus diálogos de dor: “Porque minha dor é continua?” (15 18); “maldito o dia que nasci!” (20,14ss).  

O que o tornou caro e tão próximo era a religião interior e cordial que ele praticou, antes mesmo de formular anúncios. Aquela religião pessoal (interior) formulada e reformulada pela palavra: “Quando ouvi tuas palavras, alimentei-me, elas se tronaram para mim uma delicia e a alegria do coração, o modo como invocar teu nome sobre mim, Senhor Deus” (Jr 15, 16). 

É importante continuar crendo e cantando a misericórdia de Deus, se refazendo a partir do amor de Deus-humanizado para preencher o vazio da vida e superar a depressividade de nossos tempos. Nunca é vão dizer: “Creio Senhor, mas aumentai a minha fé!”.

Share this page to Telegram
Matérias Relacionadas

2018 - Paraiba Online - Todos os direitos reservados.

BeeCube