Padre Edjamir Silva Sousa: Onde está Ele?

Da Redação. Publicado em 20 de junho de 2021 às 17:32.

Foto: Ascom

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O ser humano nem sempre entende as duras situações da vida, mas isso não quer dizer que ele fique inerte, que se contente com explicações rasas, pessimista ou estagnado no obscurantismo à mercê dos oportunistas; é nesse momento que Deus se propõe como companheiro na vida (cf. Jo 14, 16). Mas, se Deus preocupa-se com os homens onde está nos momentos de sofrimentos e de dificuldades? 

Na primeira leitura (Jó 38, 1.8-11), Jó interroga-se acerca do sofrimento que o atingiu e do papel de Deus no seu drama pessoal. Alguns dos seus amigos procuram responder às suas questões, apresentando as explicações dadas pela teologia oficial: o sofrimento é sempre o resultado do pecado do homem (cf. Gn 2, 17. 3, 16. Is 53, 3-5. Jo 9, 1-2). Para muitos a vida é sempre um drama, um castigo e quem se retira dela se liberta da divida que tinha a pagar. Jó recusa essas conclusões simplistas, fatalista e demonstra a falência da doutrina oficial sobre o sofrimento. 

Com um apurado sentido crítico, Jó vai desmontando os dogmas da fé de Israel e recusando esse Deus “contabilista” que Se limita a registar as ações boas e más do homem para lhe pagar em conformidade. Parece que algumas pessoas conseguem amadurecer frente ao sofrimento, outros vivem o tempo inteiro buscando “respostas prontas” ou nos “lobos de Wall Street”. 

A segunda leitura (2 Cor 5,14-17), nos ensina que Deus não é indiferente, que deixa os homens abandonados à sua sorte. A vinda de Jesus ao mundo mostra que Deus nos ama e faz o caminho da vida caminhando conosco. Jesus não está preso a vade-mécum, pois ele sabe que a vida não é um jogo de perguntas e respostas prontas, apenas caminha com o ser humano e caminhando o faz discernir caminhos (cf. Lc 24, 13-35). 

O episódio que evangelista Marcos narra, neste domingo, acontece durante a travessia do Lago de Tiberíades (Mc 1,14-8,30). Era território pagão, considerado pelos judeus completamente à margem dos caminhos da salvação. Para entendermos o que está em causa neste episódio convém ter as questões da primeira leitura. 

O “Mar da Galileia” é um lago de água doce, alimentado, sobretudo pelas águas do rio Jordão. O “mar” na mentalidade judaica: era uma realidade assustadora, indomável e desordenada, onde residiam os poderes caóticos que o homem não conseguia controlar, poderes maléficos que queriam destruir os homens. Só Deus, com o seu poder podia pôr limites ao mar, dar-lhe ordens e libertar os homens dessas forças descontroladas do caos que o mar encerrava (Sl 106(107)). 

Situar o barco com Jesus e os discípulos “no mar” (vers. 36), é colocá-los num ambiente hostil, perigoso, caótico, rodeados pelas forças que lutam contra Deus e contra o homem. A “noite” é o tempo das trevas, da falta de luz; aparece como elemento ligado ao medo, o desânimo, a falta de perspectivas. O “mar” e a “noite” definem uma realidade de hostilidade total. O “barco” é, na catequese cristã, o símbolo da comunidade de Jesus que navega pela história. Jesus está nele, mas são os discípulos que se encarregam da navegação, pois é a eles que é confiada a tarefa de conduzir a comunidade pelo mar da vida.

O “sono” de Jesus (vers. 38) durante a viagem refere-se, à sua aparente ausência ao longo da “viagem” que a comunidade cristã faz pela história. Os discípulos, ocupados em guiar o “barco”, têm a sensação de que estão abandonados à sua sorte e que não está com eles a enfrentar as vicissitudes da viagem. 

Onde está Ele? Na verdade, Jesus está com eles no “barco”; Ele prometeu ficar com eles “até ao fim do mundo”. Desde o Antigo Testamento o povo professa sua fé ensinando: “Saibam que Deus caminha à nossa frente” (2Cr 13,12). “Ninguém sairá apressado, ninguém correrá como se estivesse fugindo, pois Javé caminha à sua frente. Atrás de vocês vem o Deus de Israel” (Is 52,12). “Não fiquem aterrorizados nem tenham medo deles. Javé seu Deus irá na frente de vocês” (Dt 1,29-33).  

O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. 

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