Padre Edjamir Silva Sousa: O Reino em simples parábolas

Da Redação. Publicado em 13 de junho de 2021 às 18:15.

Foto: Ascom

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Na primeira parte do Evangelho segundo Marcos (cf. Mc 1,14-8,30), Jesus é apresentado como o Messias que proclama o Reino de Deus. Marcos procura aí demonstrar como Jesus, com palavras e gestos, anuncia um mundo novo (o “Reino de Deus”), livre do egoísmo, da opressão, da injustiça e de tudo o que escraviza os homens e os impedia de ter acesso à vida verdadeira.

O evangelho nos situa na Galileia, terra da infância de Jesus, lugar de aprendizagem, de discernimento, lugar de fala do nosso Mestre, lugar dos primeiros tempos do anúncio do Reino. O ambiente agrícola da Galiléia ofereceu ao Mestre o jeito e a linguagem simples que mais tarde vai se tornar a própria linguagem do anuncio do Reino de Deus:

“Bem aventurados os humildes de espirito, porque deles é o Reino dos Céus (…). Bem aventurados os puros de coração, por que eles verão a Deus” (Mt 5, 3. 8). Não será de Jerusalém, com toda a sua pompa religiosa, mas de Nazaré da Galileia que virá a Salvação (Jo 1, 46).

A experiência de semeadura e colheita serviu para mostrar como o Reino tem seu ritmo próprio de desenvolver-se, independente da preocupação humana. A sementinha colocada na terra segue seu ciclo natural, até produzir a espiga, sem deixar-se influenciar pela fadiga do agricultor. É neste contexto que nos aparecem as “parábolas”.
Uma grande multidão segue Jesus (Mc 3, 20), a fim de escutar os seus ensinamentos (cf. Mc 3, 7.20.32; 4,1), ele fala não como os mestre da lei, mas com autoridade (Mt 7, 29), coerência e autenticidade, sempre da forma mais simples, pois o amor tem essa linguagem. E esse jeito de Jesus confunde a cabeça dos presunçosos e dos altivos (Mt 11, 25-27).
A palavra do Reino, uma vez plantada no coração humano, desenvolve-se e frutifica, de maneira misteriosa, pouco contando a insistência do pregador. Esse deve ser capaz de confiar e esperar, pois os frutos, no seu tempo, virão (Sl 1, 3).

Os ensinamentos de Jesus eram transmitidos de forma adaptada à compreensão de seus ouvintes. Ele falava por meio de parábolas, partindo de elementos da vida cotidiana. A simplicidade das parábolas escondia uma riqueza de conteúdo, acessível somente a quem estava sintonizado com Jesus. Caso contrário, corria-se o risco de ficar na materialidade das palavras.

O fato de uma minúscula sementinha de mostarda dar origem a uma árvore considerável serviu para ilustrar o destino do Reino. Embora suas origens sejam extremamente simples, está destinado a crescer e abarcar o mundo. A pequenez é uma etapa necessária. Pretender que o Reino seja grandioso, desde o início, significa atropelar sua dinâmica. O discípulo conhece, de antemão, o destino da semente.

Na sociedade que vivemos em que se associa esse jeito burguês de “produzir” e de “ter” como sinal de felicidade e de sucesso, esse empoderamento vazio de estar sempre feliz como sinal de bênção, ofusca muitas vezes a naturalidade do anúncio do Reino de Deus.

Para muitos, a simplicidade é sinônimo de mediocridade e fracasso. Na ostentação do neoliberalismo anunciar a partilha de bens, a ética da fraternidade, o amor não às riquezas, mas ao próximo, como nos ensina o evangelho, é sinal de muita estranheza.

Nesse contexto, corre-se o risco de não entendermos a essência das mensagens das parábolas e se tentar adaptar o evangelho a uma realidade superficial Quem nesse ethos vai entender a oferta da viúva (Mc 12, 41-44)?

Quem vai entender o lava-pés (Jo 13, 1-17)? Quem entenderá a parábola do rico e de Lázaro (Lc 16, 19)? Quem entenderá a cruz (Jo 18, 1-19, 42)? É importante estar a atentos, pois há uma forma de cristianismo moderno que não no leva a Jesus.

Santo Antônio de Pádua dizia que “quanto mais profundamente lançares o alicerce da humildade, tanto mais alto poderás construí o edifício”. Essa é a força do evangelho e a sabedoria dos humildes.

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