Padre Edjamir Silva Sousa: Ninguém fica anônimo aos olhos de Jesus

Da Redação. Publicado em 26 de junho de 2021 às 17:05.

Foto: Ascom

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No evangelho de domingo passado, diante do medo dos discípulos com a agitação do “mar”, Jesus usava os verbos: “Silêncio” e “Cala-te”; e a igreja primitiva viu a extensão do poder de Jesus (Mc 4, 41). No evangelho de hoje (Mc 5, 21-43), o Senhor usa os imperativos “Sê curada” e “Levanta-te” para dizer que o Reino de Deus é fraternidade e vida. 

Deus ama a vida! Ele quer apenas a vida! (Sb 1, 13-15; 2,23-24). Pelo seu Filho, nos salva da morte, eis porque Lhe damos graças em cada Eucaristia que celebramos. Ele torna livres todas as pessoas (Gl 5 1), dá-lhes toda a dignidade e capacidade para viver plenamente (Lc 4, 18ss. Mt 5, 1-12).

No meio da multidão, Jesus está atento a estas pessoas concretas, está atento a cada um. Ninguém fica anônimo aos olhos de Jesus. Ele é capaz de uma atenção extrema a cada angústia do ser humano. Não interessa quem possa vir junto d’Ele, não interessa qual é a situação: ele será sempre acolhido.

A misericórdia de Jesus manifestava-se, fundamentalmente, em forma de restauração da vida. Por isso, ele se sensibilizou com o pedido de um pai, cuja filhinha estava à beira da morte. Jesus foi salvá-la, pedindo ao pai apenas manter viva sua fé. Alguns ridicularizavam a afirmação dele segundo a qual a menina não estava morta, mas apenas dormindo. Porém, a fé daquele pai não ficou sem resposta. A misericórdia de Jesus devolveu-lhe a filha sã e salva, como lhe havia sido pedido.

O Mestre ensinou à Sua Igreja que anunciar a Boa Nova é se comprometer com o Evangelho da Vida e que a defesa da vida abraça diversas causas desde as mais simples (Mt 10, 42) às mais complexas (Jo 20, 19-23. Ef 2, 8-9). O cristão que se fecha em seus devocionais “ego-emocionais” ou em seu “formalismo/funcionalismo clericalista”, e não lhe toca as pautas nobres da vida, se torna uma figueira estérea (Lc 13, 6-9). 

Recentemente um representante da igreja disse que “o papel da igreja é preparar para a vida eterna” (https://www.acidigital.com/noticias/papel-da-igreja-e-preparar-para-a-vida-eterna-nao-contar-mortos-diz-ispo-de-goias-87582). É curioso como alguns manifestam uma latente pulsão de morte velada no discurso da vida eterna

Eles desejam a vida eterna, fazem muitas pontuações sobre a busca da salvação, mas num deslize existencial e de fé, fazem rupturas com a vida, sem o mínimo compromisso ético com Jesus e as pessoas em suas realidades. Frequentemente somos revisitados pelas antigas heresias: gnosticismo, docetismo, maniqueísmo, jansenismo…e muitos adentram na escuta dessas pseudo-catequeses e fazem delas sua espiritualidade. 

Aos ministros e ao rebanho da Igreja convém saber que não somos pastores de almas (linguagem dos antigos muros dualistas superados na Encarnação (Jo 1, 14. Ef 21, 14)), mas de pessoas, com tudo aquilo que elas são espirito, alma e corpo (1Ts 5 ,23) e na sua realidade concreta. A Deus compete salvação; a nós, em Jesus Cristo, levar vida ao povo (Jo 10, 10). 

A segunda leitura de hoje é prova disso (2Cor 8, 7. 9. 13-15), pois conta-nos que o apóstolo Paulo tinha organizado uma ação caritativa junto das comunidades que tinha fundado na Ásia Menor, na Macedónia e na Grécia, em favor dos irmãos de Jerusalém que estavam em dificuldades. Paulo justifica esta ação de partilha pela generosidade de Cristo que é modelo para os cristãos. Esta iniciativa correspondia às orientações da jovem Igreja (Atos 4, 32-35).

A partilha não se dava apenas entre os seus membros da própria comunidade, mas também entre outras comunidades, pois quem se compromete com evangelho se sente implicado na construção do bem comum. As primeiras comunidades cristãs tinham a preocupação com uma ética que fosse baseada não em moralismos – que o Filho de Deus muitas vezes desmascarou -, mas no testemunho de abertura, de fraternidade e de partilha para aliviar o peso da vida. 

Hoje, amadurecidos na autêntica espiritualidade cristã, suplicamos: “Fazei que todos os membros da Igreja, à luz da fé, saibam reconhecer os sinais dos tempos e empenhem-se, de verdade, no serviço do Evangelho. Tornai-nos abertos e disponíveis para todos, para que possamos partilhar as dores e as angústias, as alegrias e as esperanças, e andar juntos no caminho do vosso Reino” (Oração Eucarística – VI -C).

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