Padre Edjamir Silva Sousa: Desestabilizar, desqualificar e destruir

Da Redação. Publicado em 6 de junho de 2021 às 17:20.

Foto: Ascom

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As leituras deste domingo nos põem no caminho do discernimento para identificar as obras que vêm de Deus e as obras que são do maligno (Gn 3,9-15/Mc 3,20-35). É lendo com frequência os evangelhos que vamos tomando consciência disso.  

O tema do Evangelho deste domingo, sobre a identidade de Jesus, mostra que desde os inícios do cristianismo os cristãos sentiram necessidade de responder à pergunta: “Quem é Jesus?”. A compreensão da identidade e da própria missão de Jesus ocorre dentro de um contexto de controvérsias do Jovem de Nazaré com as diversas instituições do mundo judaico que tentam desestabilizar, desqualificar e destruir Jesus. 

O evangelho relata a volta de Jesus para casa, em meio à sua missão: “Jesus chegou a casa com os seus discípulos” (Mc 3, 20). Muitos procuram Jesus, pois querem ouvi-Lo, querem ser tocados por Ele, querem ser ouvidos, querem ser compreendidos, acolhidos, amados, querem obter a reconciliação e a fraternidade que esta sociedade hostil não lhes dá. Estão sedentos de Deus e de uma paz que não acham dentro daquele sistema (Is 32, 17).

A aglomeração da multidão em torno da casa onde Jesus se encontrava suscita preocupação nos parentes de Nazaré e sua intervenção. Esse é um traço característico de Marcos, empenhado em explicar que os parentes e familiares temem que a maneira de Jesus exercer seu ministério possa trazer problemas para a família. Isso também explica o fracasso de sua pregação em Nazaré, onde ele afirmou que nenhum profeta era aceito em sua própria terra (Mc 6, 4).

Os familiares de Jesus se deixam influenciar por opiniões negativas acerca de seu ministério e concluem que Ele estava ficando louco, pois aquilo que Jesus faz e ensina desestabiliza a ordem e escandaliza a muitos: “está fora de Si”. (Mc 3, 21). Contrariando o senso de prudência, de justiça e de sacralidade, que inclusive a instituição judaica normatizava, Jesus revela uma nova face de Deus (1Jo 4,16) sob pena de muitos enfrentamentos: contrariedade, insultos, ódio, rejeição e incompreensões. 

Os escribas julgam que Jesus expulsa os demônios porque compactua com estes (v. 22). O fato é que os gestos de bondade e de amor de Jesus denunciam que os Escribas e os Mestres da Lei, mesmo com aquele discurso de ortodoxia, de cumprimento da Lei ou suas pompas litúrgicas, já nem sabem mais interpretar a Lei de Deus e nem sabem discernir o que é de Deus e o que é do diabo. O Mestre, porém, demonstra que sua atividade libertadora se opõe aos poderes do mal e que sua missão é revelar o Deus verdadeiro.

Parece que a intenção do evangelista é mostrar não só quem é Jesus, quem são os verdadeiros irmãos de Jesus, mas também quem são seus inimigos. Aqueles dois grupos de pessoas fazem dois julgamentos sobre Jesus: os parentes procuram neutralizar a ação de Jesus em nome da normalidade, de tal prudência e do equilíbrio; os escribas mais refinados se tornam extremamente duros em suas críticas, buscando gerar um descrédito total ao afirmarem que Jesus age por meio do príncipe dos demônios. 

A essa dupla acusação, Jesus deixa claro que não está louco e acusar que seu poder vem de satanás é um insulto ao poder de Deus, um pecado contra o Espírito Santo. Por isso, tal atitude de rejeição e fechamento à proposta salvífica de Deus não tem perdão. O pecado contra o Espírito não tem remissão não porque seja mais grave que todos os outros, mas porque inclui em si a rejeição ao perdão, excluindo a atitude de fé e de conversão. 

O evangelista, por meio desse relato, faz um questionamento fundamental aos discípulos: Quem é Jesus para eles? Para segui-lo, é preciso ter clareza de sua real identidade. Para estabelecer uma relação de familiaridade com ele, é necessário seguir seu exemplo. Jesus é o primeiro a fazer a vontade do Pai, e sua obediência acarreta rejeição e incompreensão. Continuar no mundo Sua missão significa fazer também a vontade do Pai, como pedimos continuamente na oração que Jesus nos ensinou, o pai-nosso.

Fazer parte da família de Jesus é a vocação de cada batizado. Todos são chamados a participar da comunidade de discípulos que Jesus instituiu e sua missão se dá no combate ao espírito do mal que oprime as pessoas, isto é, a negação de sua subjetividade (Lc 4, 17-21). Como batizados, escolhemos trilhar os mesmos caminhos de Jesus. Isso implica necessariamente renunciar às obras do mal, como nos recorda a liturgia do batismo e fazer nossa autentica profissão de fé: Para viver num mundo de paz e fraternidade, vocês renunciam ao egoísmo e à injustiça? (…). Para seguir nos caminhos de Jesus, vocês renunciam às ilusões deste mundo e às tentações do espírito maligno? (Ritual do Batismo)   

 

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