Médicos defendem tratamento precoce na CPI da Pandemia

Da Redação com Agência Senado. Publicado em 19 de junho de 2021 às 9:44.

Em reunião marcada pela participação principalmente de senadores governistas, a CPI da Pandemia ouviu nesta sexta-feira (18) os médicos Francisco Cardoso e Ricardo Zimerman, que defendem o “tratamento precoce” para Covid-19 com o uso de cloroquina e outros medicamentos. O relator, senador Renan Calheiros (MDB-AL), optou por não fazer perguntas e deixou a sala após as explanações iniciais dos depoentes.

Os senadores Marcos Rogério (DEM-RO), Eduardo Girão (Podemos-CE), Luis Carlos Heinze (PP-RS) e Jorginho Mello (PL-SC) fizeram perguntas sobre o chamado “tratamento precoce”. Nas respostas, Francisco Cardoso disse que sua posição favorável baseia-se em pesquisas, assim como em sua experiência pessoal.

— Fui honrosamente convidado pelo Ministério da Saúde a compor a equipe de profissionais responsáveis pela construção da Nota Orientativa 17, sobre orientações para o tratamento inicial da covid-19, com doses adequadas de hidroxicloroquina e cloroquina. Apesar de não podermos atribuir causalidade direta, os dados mostram que, desde a publicação da Nota Orientativa, o número de óbitos por caso novo sofreu progressiva e contínua queda no Brasil até o fim de 2020, quando começou a segunda onda, causada pela variante P1 — afirmou.

Ele complementou que, em sua vivência na tratamento de pacientes com covid-19, já atendeu mais de mil casos muito graves, com poucos óbitos.

— A equipe com a qual trabalhamos em São Paulo já atendeu mais de 4 mil casos com pouquíssimos desfechos fatais. Nós temos resultados — disse Cardoso.

Para o médico, a cloroquina foi demonizada após estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) com a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ainda nos primeiros meses da pandemia, quando 22 pacientes morreram. Cardoso disse considerar que esse estudo é “a maior vergonha científica dos últimos anos”.

— Foi o maior desastre científico do Brasil em décadas. Calculou errado a dose do grupo de alta dosagem, expondo os pacientes a níveis séricos potencialmente fatais. Foi dado o equivalente a 12 gramas de cloroquina em dez dias. A bula do remédio é clara: não se deve dar mais que 1,5 grama de cloroquina em três dias, sob risco de graves eventos tóxicos. O estudo deu 3,6 gramas de cloroquina em três dias a doentes graves, dose 2,4 vezes maior que a permitida em bula. Nos primeiros três dias, morreram sete pacientes. O braço do estudo de alta dosagem teve cerca de 40% de mortes, e foi interrompido quando se viu o que estava ocorrendo — disse.

Cardoso também garantiu que a cloroquina tem base científica:

— Vieram da China os primeiros trabalhos com medicamentos reposicionados de outras doenças para tentar tratar os doentes que começavam a lotar hospitais e suas UTIs. De todos os remédios testados, o que apresentou inicialmente o melhor desempenho foi a cloroquina e sua prima farmacológica, a hidroxicloroquina. Incluindo um pequeno ensaio clínico randomizado que mostrava grande potencial da droga no combate ao novo coronavírus.

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Foto: Jefferson Rudy/Agência Senado

Já Ricardo Zimerman destacou que o “tratamento precoce” não se resume à cloroquina, e que ele apresentaria bons resultados na prática.

— Budesonida inalatória: é um ‘sprayzinho’ que quem tem asma usou a vida inteira. Reduz em 91% o risco de seu irmão internar, do seu pai internar. É usado no sistema público inglês, mas aqui não foi recomendado. Colchicina: são 20% de redução de combinação, internação e morte. Nitazoxanida, [a respeito de] que tiram sarro, que é um vermífugo, só que não conhecem biologia. Ela induz a expressão de interferon, um potente antiviral, tem ação antiviral em bula já. Saiu agora estudo americano em preprint: 85% de redução de risco de internação. Ou seja, 85% de redução de risco de internação [com a nitazoxanida]; 91% de redução de risco de internação com budesonida inalatória; 20% com a colchicina. A proxalutamida, que foi alvo de gargalhadas: num estudo ambulatorial, reduziu 91% o risco de internação. Está aceito para a publicação sair esta semana — explanou.

O médico acrescentou que Arábia Saudita e Irã incorporaram a hidroxicloroquina no tratamento contra a covid-19, devido aos bons resultados que alcançaram nesses países. Também citou estudos a favor da ivermectina, e que o sistema público britânico de saúde (NHS) teria incorporado o corticoide.

Lockdown

O senador Jorginho Mello lembrou que Ricardo Zimerman publicou um estudo, com base em dados do Amazonas, defendendo que as medidas de lockdown poderiam ter colaborado no desenvolvimento da cepa P1

. Isso porque, segundo essa tese, muitas pessoas teriam ficado aglomeradas em suas casas, o que teria facilitado uma mutação viral mais dinâmica. A tese causou revolta no presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM), pois Manaus, onde a média de moradores por domicílio é bem menor do que no interior do estado, teve muito mais mortes pela covid-19.

— O senhor está totalmente equivocado sobre meu estado, não sabe o que está falando. Você me desculpe. O senhor está dizendo que no Amazonas, porque tem uma aglomeração maior e tal, por isso replicou mais o vírus? Não diga isso! Porque na capital o número de infectados e mortos foi muito maior que no interior, me explica isso? Em moradias do interior, moram seis, sete pessoas por casa. Porque no interior, que o número de pessoas que moram numa residência é bem maior que na capital, o número de infectados é menor que na capital? — questionou.

Na resposta, Zimerman voltou a defender o rigor de seu estudo, que foi feito com base em dados oficiais do Ministério da Saúde relacionados à localização de telefones celulares durante o período pesquisado.

Já o senador Marcos do Val (Podemos-ES) defendeu algumas ações governamentais no combate à pandemia. Para ele, o atual governo não pode ser chamado de “negacionista”, pois só na quinta-feira (17) vacinou mais de 2 milhões de brasileiros.

Relator

Em protesto contra fala do presidente Jair Bolsonaro em live na quinta-feira (17), a favor da “imunização de rebanho”, o relator da CPI, Renan Calheiros, comunicou que preferia não fazer perguntas aos médicos. No entender do senador, o Brasil tem falhado ao não se pautar exclusivamente na ciência no combate à covid-19.

— Quando chegamos a quase 500 mil mortes, tivemos ontem (quinta-feira) a continuidade criminosa da defesa da imunização de rebanho. Do desdém com a eficácia da vacina. Essa irresponsabilidade não pode continuar. Isso é a reiteração do crime. Um presidente da República não pode chegar a tamanha irresponsabilidade. Os brasileiros estão morrendo! Sabemos que ele tem pulsão por morte, mas ele precisa respeitar a memória de todos. O presidente da República continua a fazer o que sempre fez, dessa forma irresponsável, utilizando indevidamente as mídias sociais para induzir brasileiros à morte, com mentiras, com falsidades. Jamais esperávamos chegar no Brasil a tamanha irresponsabilidade! — frisou Renan, que se retirou dos trabalhos em seguida.

A saída do relator causou revolta nos senadores governistas. Para Eduardo Girão, a retirada teria explicitado que o relator já tem posição predefinida.

— Desde o início da CPI, o relator está o tempo inteiro fazendo perguntas. Agora ele abandona a CPI, vai embora, porque realmente parece que não interessa a busca pela verdade, apenas uma parte da verdade. A gente tem dito isso desde o começo da CPI. Hoje está claro, está explícito para o Brasil inteiro isso — reclamou.

Marcos Rogério foi outro que criticou a saída de Renan:

— O que ficou evidente aqui é que o relator já tem uma sentença debaixo do braço. Se alguém tinha dúvida, hoje está evidente. Lamentável isso, lamentável.

Destituição do relator

O senador Flávio Bolsonaro (Patriota-RJ) cobrou dos membros da CPI da Pandemia uma discussão sobre a destituição do relator do colegiado, Renan Calheiros (MDB-AL). Para ele, o gesto de retirar-se da sala de audiência, deixando de ouvir os convidados, mostra que Renan não atende ao requisito básico de respeito ao contraditório e orienta-se por uma opinião pré-concebida.

— Essa postura de se levantar da CPI foi um desrespeito não só às pessoas que estão aí hoje para falar, mas a todos os membros da CPI e um desrespeito ao Senado Federal. Uma postura dessas é reprovável.

Flávio Bolsonaro também questionou a legalidade da participação de Renan na comissão de inquérito: o filho do relator, conforme acrescentou, é governador de Alagoas e poderia ser alvo de investigação.

 

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