Padre Edjamir Silva Sousa: Ressignificando nossas festas

Da Redação. Publicado em 23 de maio de 2021 às 10:36.

Foto: Ascom

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A FESTA DE PENTECOSTES originalmente era conhecida com festa da colheita (Ex 23,16), ou festa das semanas (Ex 34,22; Dt 16,9; Nm 28,26). Uma festa agrícola, celebrada sete semanas após o início da colheita. Com o tempo as festas judaicas foram associadas a acontecimentos marcantes da história de Israel.

A Páscoa, por exemplo, passou a lembrar da saída da escravidão do Egito (Dt 16,1-8). A festa da colheita se tornou a festa da renovação da aliança (Dt 16,9-12). No tempo tribal essas festas eram celebradas nas casas. Mais tarde passaram a ser celebradas no Templo e, por isso, foram transformadas em festas de Peregrinação (Ex 34,22-24).

O que era uma celebração familiar passou a ser um ritual vivido no Templo, com a presença intermediária do sacerdote. Só os judeus puros podiam participar, assim muitas pessoas passaram a ser excluídas da festa de Pentecostes. Porém, as comunidades cristãs nascentes deram origem uma prática totalmente diferente, sem exclusão.

No tempo de Jesus crescia, dia a dia, o número de empobrecidos e escravizados. Era comum a revolta de muitos grupos contra a opressão dos romanos. As constantes guerras e a luta pelo poder tinham consequências desastrosas na vida do povo. Como, se isso não bastasse, parte das autoridades judaicas fez aliança com os romanos (a amarga experiência da aliança entre altar e trono). A Lei judaica passou a ser usada para controlar o povo judeu. As festas eram ocasiões para arrecadar tributos. A saída era resgatar o sentido original da casa e das festas na vida das comunidades.

Nesse contexto, as primeiras comunidades cristãs fazem um retorno à casa, à vida comunitária e solidária (At 2,42-46; 4,32-­35). É um pequeno grupo que vive a festa de Pentecostes como espaço alternativo de resistência e esperança.

Essa festa volta a ser a festa da casa, marcada pela solidariedade. Entre os seguidores e seguidoras de Jesus não havia pessoas excluídas, todas eram convidados. E é nesse contexto de abertura que acontece algo extraordinário: “De repente, veio do céu um barulho como o sopro de um forte vendaval, e encheu a casa onde eles se encontravam. Apareceram então umas como línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles” (At 2,2-3). É no espaço da fraternidade que o Espírito de Deus se manifesta: “Todos ficaram repletos do Espírito Santo” (At 2,4).

Na casa as pessoas vivem novas relações, baseadas no amor, no respeito e no acolhimento de cada um dos membros. É essa experiência que fundamenta a mensagem de Jesus para todos. Assim, o movimento de Jesus se torna essencialmente missionário e profético sob a luz e a orientação do Espírito Santo.

A proposta da festa de Pentecostes é uma volta à vida partilhada, ao acolhimento e à solidariedade para com todas as pessoas. É um apelo que nos inquieta, pois vivemos num mundo onde se espalha a cultura da indiferença social: “crianças submetidas a violência, humilhadas e abandonadas, mulheres estupradas e exploradas, jovens, adultos e idosos marginalizados, correntes intermináveis de exilados e refugiados, violência e conflito em tantas partes do mundo” (São João Paulo II em sua mensagem do dia 25 de dezembro de 2000).

No Brasil convivemos com essa realidade. Muitos vivem uma existência miserável, sem as mínimas condições de uma vida digna. A violência, o medo e a insegurança fazem parte do nosso dia a dia. A nossa sociedade continua oprimindo e excluindo. Em certos ambientes pode se ver que as alianças entre altar e trono continuam a legitimar algumas práticas desumanas.  Como ser fiel à proposta de vida plena para todos e todas dentro desse cenário?

Nas comunidades cristãs não pode haver exclusão. A boa convivência dá leveza a vida e novo vigor para a missão: “Recebereis uma força, a do Espírito Santo que descerá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e a Samaria, e até os confins da terra” (At 1,8).

É importante criar espaço em nossas comunidades para que todos e todas se sintam amados e aceitos no seu modo de ser e pensar a vida.  As festas da comunidade não devem a principio existir para arrecadar dinheiro para pagar contas e fazer reformas (própria da religião de mercado), mas como ocasiões para aprofundar os vínculos existentes entre as pessoas. Se não há acolhida e fraternidade, não tem sentido ter festa. Tem show, mas o Espirito de Deus não se faz presente. Pois a lição que recebemos de Jesus é que onde Reina o amor, Deus ai está.

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