Padre Edjamir Silva Sousa: A comunidade como lugar da identidade

Da Redação. Publicado em 30 de maio de 2021 às 16:38.

Foto: Ascom

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Desde a Antiga Tradição Apostólica, os discípulos de Jesus são batizados em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo (Mt 28,, 19). O Batismo cristão, feito em nome da Trindade, comporta algumas exigências. A primeira delas consiste na comunhão fraterna. Como a Trindade, os discípulos aprendem a construir uma comunidade a serviço uns dos outros, sem competição, sem mestres, sem a “unção dos narcisistas”, sem grandes, mas apenas irmãos (Marcos 10, 32-45. Jo 15,15). 

 

A linguagem bíblica para descrever o lugar da experiência viva do Deus Uno-Trino é a comunidade de irmãos (Mt 18, 20. Atos 2, 1-11) que mesmo na diversidade está coesa, unida, fraterna. Esse espaço reproduz a identidade da comunidade de amor entre o Pai, Filho e Espirito Santo. 

O ideal trinitário leva os discípulos a superar todas as formas de pecado: a indiferença, inimizade, contendas, rivalidades, competições, deboches e tantas outras atitudes que anulam pessoas e não contribuem para a unidade. Sem fraternidade vivemos o ateísmo na prática, ou seja, remar em direção contrária aos mandamentos de Jesus. A espiritualidade trinitária busca a comunhão verdadeira e profunda, a exemplo do próprio Deus.

Há uma curiosidade sobre Deus que nasce no Antigo Testamento: “Moisés disse a Deus: ‘Quando eu for aos filhos de Israel e disser: ‘O Deus de vossos pais me enviou até vós’; e me perguntarem: ‘Qual é o seu nome? ’, que direi? ‘(…)”. (Ex 3, 13-15). Essa inquietação retorna no Novo Testamento: Disse-lhe Filipe: Senhor mostra-nos o Pai, e isso nos basta” (Jo 14, 8). 

Ao longo da história dos povos da Bíblia, como também da Tradição da Igreja, a comunidade de fé procurou entender a identidade de Deus, pois a clareza de quem Ele é não é mistério que se oculta, o cristianismo não é religião do ocultismo ou obscurantismo, mas do Deus que se revela no cotidiano da existência (Jo 14, 1-14). Na comunidade da Trindade não há um sistema de anulação de identidades, nem de afirmações narcísicas, mas um lugar de plena realização e revelação: “Eu sou o que sou” (Ex 3, 14). 

Segundo o apostolo o Paulo (Rm 8,14-17) nosso Deus é relação; pois Ele é amor, é compreensão, é acolhida, é comunhão. Ele sempre vai ao encontro do ser humano para integrá-lo na sua família, oferecendo-lhe a vida plena que este mundo hostil não oferece. Deus se realiza assim, e manifesta seu ser assim, nesse encontro com o outro.  

A vida comunitária eclesial não é o lugar de despersonalização, de excluir ou diminuir, mas é lugar de conhecimentos, de uma sadia autoafirmação e de inclusão desse EU SOU/EXISTO DE CADA UM no EU SOU DE DEUS: “Nele nos movemos, somos e existimos” (Atos 17, 28). Não é por ocaso que o mistério do ser pessoa humana se mistura e se dilui no Mistério do Criador (Gn 1, 26-28).  

A partir disso entendemos o fato de Jesus ser considerado mediador entre a Trindade e nós, pois o Eu sou de Jesus (que assume a condição humana) leva consigo o eu sou/existo de cada um de nós, sem distinção de pessoas (Rm 2, 11. Atos 10, 34. Tg 2, 2-9.12). Em ambos os mistérios, procuramos mais compreensão, com espirito de humildade e abertura, a partir daquilo que cotidianamente se revela para nós. 

Anunciar o Reino de Deus é levar em consideração esse Eu sou/existo de cada pessoa. O diálogo com as ciências humanas pode nos ajudar a compreender um pouco nesse mistério. Portanto, a comunidade deve ser o lugar de abertura, de segurança e confiança mútua onde cada pessoa se integra, se desenvolve, acontece descoberta de si, tende a amadurecer na fé e afetivamente, é feliz e coloca-se em tudo aquilo que é a serviço do Reino de Deus. O mandamento do amor tem seu significado nesse fundamento. 

Quem acolhe o convite divino apresentado por Jesus para integrar-se à comunidade trinitária torna-se testemunha da fraternidade. Todos são chamados a pertencer à família de Deus. 

O Sacramento do Batismo, assim como os demais, não é um mero evento social para tirar fotos, mas nos leva a experiência de fé em Deus que deve ser vivida em comunidade (que vai muito além da experiência de grupos): pelo batismo, Deus Pai as libertou do pecado e vocês renasceram pela água e pelo Espírito Santo. Agora vocês fazem parte do povo de Deus” (Ritual do Batismo).    

Num mundo marcado por divisões e intolerância às diferenças, como testemunhar essa espiritualidade de comunhão? Que atitudes devemos cultivar para superar preconceitos e divisões? Quando falamos em Deus, mas somos desumanos nas relações, de qual divindade estamos falando? Será mesmo que estamos falando em Jesus? 

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