Padre Edjamir Silva Sousa: Saber cuidar e saber discernir. Este é o critério

Da Redação. Publicado em 25 de abril de 2021 às 21:37.

Foto: Ascom

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O Tempo Pascal é o momento feliz onde a comunidade eclesial recorda as maravilhas que o Senhor Ressuscitado fez e faz (mesmo que sendo desprezado por isso) desde a Galiléia, passando por Jerusalém até os confins do mundo (cf. Atos 10,38). A linguagem deste domingo, como sinal a ser interpretado, para compreender a presença de Jesus na comunidade e os seus ensinamentos, passa pelo binômio: Pastor/Mercenário

Façamos um caminho para compreender a espiritualidade do texto de hoje.  Em João 9, 40-41, o evangelista fala da cegueira dos fariseus. Em Jo 10, 1-18, em contra posição aos fariseus, Jesus se auto-intitula como porta. A conclusão natural desta discussão sobre a cegueira está logo depois, em Jo 10,19-21, sobre o discurso do Bom Pastor, ensinando como tirar esse tipo de cegueira dos fariseus e de seus devotos. Em síntese, Jesus fala do pastor e dos assaltantes (Jo 10,1-5); Jesus é a porteira das ovelhas (Jo 10,6-10); Jesus é o Bom Pastor (Jo 10,11-18). E por que ele é bom? Por saber cuidar.

“Saber cuidar” é a consciência que Jesus tem de si mesmo e de seu ministério: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu; e enviou-me para anunciar a Boa-Nova aos pobres, para sarar os contritos de coração, para anunciar aos cativos a redenção, aos cegos a restauração da vista, para pôr em liberdade os cativos, para publicar o ano da graça do Senhor.” (São Lucas, 4, 18-19); e o  testemunho que a comunidade dá de Seu serviço à humanidade: “Ele passou pelo mundo fazendo o bem” (Atos 10, 38). 

Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e assaltantes” (Jo 9, 40). De quem Jesus está falando nesta frase tão dura? Provavelmente, se referia aos líderes (incluindo religiosos) que arrastavam o povo para trás de si num personalismo doentio. Jesus já havia denunciado as lideranças de sua época, pois tinham a extrema carência de serem aprovados, de estarem no centro da razão e da atenção, desse eterno culto à sua personalidade (cf. Mt 6, 1-6. 16-18), defeito que muitos de nós temos e que são os modos de subjetividades a sustentar os regimes totalitaristas e autoritários. 

Na esteira da psicanálise compreendemos que estes são inseguros de si mesmo e, por isso, fazem de tudo para se colocar no centro e quando não são aprovados revisitam seus afetos mais primitivos de sua remota infância: a hostilidade e agressividade (cf. Freud (1930-1936) O Mal estar na Civilização. (Ed. Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, Vol. 23). Rio de Janeiro. Imago.)  

São atitudes que não respondiam (e não respondem) às esperanças do povo. Não estavam interessados no bem comum. Enganavam muitas vezes com uma narrativa (proselitista/ positivista/de retidão/ de pureza e de justiça), mas deixavam o povo na pior. Portanto, aceitar Jesus como nosso pastor e redentor é abrir os olhos e dissipar certas as cegueiras. A propósito, lentidão e a cegueira são sintomas que o ressuscitado quer curar na vida cotidiana do seu povo: “Abriu-lhes então o entendimento” (Lucas 24, 45).

Entrar pela porta é o mesmo que agir como Jesus agia. O critério básico para discernir quem é pastor e quem é assaltante é a defesa da vida das ovelhas. No evangelho Jesus pede para o povo não seguir as pessoas que se apresentam como lideres, mas não buscam a vida do povo, que não cuidam, não tem propósito de bem comum, não tem misericórdia com ninguém e que se escondem por traz de uma plasticidade de piedoso, justo e reto, mas “são lobos devoradores”. (Mateus 7, 15).

“Saber discernir”. As primeiras comunidades cristãs enfrentaram, com o discernimento do Espirito, os falsos pastores doutrinadores que, inclusive dentro das comunidades eclesiais, apresentavam um Jesus distante e frio, sem amor e misericórdia (cf. 1João 4. 1-19). Eis ai a heresia que, como um fantasma, ofusca o discernimento, esfria o coração de muitos e destoa a missão do próprio cristianismo em todos os tempos e lugares: do Jesus misericordioso ao “lobo” mercenário.      

O discernimento passa por aquela linguagem (frase) que Jesus disse e que até hoje cantamos: “Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.” Este é o critério!

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