Padre Edjamir Silva Sousa: “Mostrou-lhes as mãos e o lado”

Da Redação. Publicado em 12 de abril de 2021 às 23:57.

Paraíba Online • Padre Edjamir Silva Sousa: “Mostrou-lhes as mãos e o lado”

Este II Domingo da Páscoa reforça o que significa a Páscoa na sua totalidade: A Ressurreição do Corpo de Cristo: Cabeça e seus membros (cf. Cl 1, 8).  

Há uma linguagem nas aparições do ressuscitado que convida-nos a uma atenção melhorada e sem lentidão (cf. Lucas 24, 25-26) para descodificar a mensagem: primeiro dia da semana, três dias depois, os panos e as faixas de linho enrolados, a barca, as redes, pão, peixe, fração, fim de tarde, amanhecer, caminho, portas fechadas, perseguição, entrou no meio, desejou a paz. E hoje nos aparece a figura de um corpo, com marcas de pregos, açoites, crucificado, mas glorificado (Jo 20, 27).

Na manhã do primeiro dia da semana, as mulheres e os discípulos fazem a descoberta do sepulcro vazio. O que aconteceu? Há uma questão imediata: “roubaram (tiraram) o corpo do Senhor?!” (cf. Jo 20,13). É que a comunidade dos discípulos ainda não tinha dado por conta o que o Senhor havia lhes dito: “segundo a qual ele devia ressuscitar” (Jo 20,9). As aparições aos discípulos (comunidade de fé) destrói toda a ambiguidade das possíveis interpretações erradas. 

A perícope de hoje (Jo 20, 19-31) nos situa naquele mesmo dia (o domingo) em que o Ressuscitado aparece à comunidade de fé; e, agora, na presença de Tomé, mostra-lhe o corpo e diz: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado”. (Jo 20,27). 

Uma das belas anotações sobre o corpo nos vem da psicanálise Lacaniana quando interpreta o corpo como lugar de registro, lugar simbólico, lugar das metáforas das relações e condição de presença no mundo (cf. Lacan, J. (1998a). O estádio do espelho como formador da função do eu. In: Escritos (pp.96-103). Rio de Janeiro: Jorge Zahar (Texto original publicado em 1966). O convite a tocar o corpo do ressuscitado não significa uma curiosidade para crer, mas para fazer uma memória de uma vida de serviço doada aos outros que está ali inscrito naquele corpo (cf. Mt 20, 25-28). Neste sentido não devotamos as chagas de Jesus Cristo, mas tocamos no registro de uma vida como um todo.

A eclesiologia paulina nos ensina que a igreja é um corpo (na diversidade de seus membros) e que tem Cristo como cabeça (cf. Cl 1, 8. 1 Cor 12-14). O binômio “corpo” e “cabeça” descreve a totalidade de Cristo Ressuscitado. Jesus ressuscita, mas de certa maneira está unido na Igreja (cf. Mt 28, 20): guiada pelo Espirito Santo, na vida sacramental, na Palavra proclamada e testemunhada pelos seus amigos e na presença dos irmãos. Ele ressuscita em união com este corpo. 

Ao mesmo tempo em que Tomé toca nas chagas de Jesus (κύριος), toca também nas chagas da comunidade-igreja (humanidade ferida pelo pecado): os pobres, sofredores, excluídos, os aflitos, abandonados, caluniados, perseguidos, odiados.

A ressurreição de Jesus não é uma realidade individual, mas alcança todos os membros do seu Corpo. Portanto, a fé que Jesus reclama a Tomé não é a um caminho intimista, mas estar preparado para tocar nesse registro (o seu corpo) onde o outro (viés social) está fortemente presente.

É importante para nossa geração ouvir esse relato evangélico e sua mensagem quando que hoje o corpo, em suas representações, muitas vezes está aprisionado a uma ideia de perfeição (diferente de saúde), um corpo inibido e recalcado por causa de uma palavra amarga ou pela violência física, o corpo que tem registro de um abandono (como vimos esta semana o caso de uma criança abandonada, aqui em Campina Grande, dentro de uma caixa), os corpos de mais de 345 mil vitimas do Covid-19 (que para muita gente, patologicamente, isso não significa nada), o corpo dos trabalhadores, dos desempregados, o corpo dos negros e os traços de uma resistência e sobrevivência, o corpo de quem é vitima dos abusos sexuais, o corpo de uma pessoa aprisionada a uma doutrina maquiavélica que não lhe comunica a vida plena. Este também é corpo de Jesus e quem comunga de Jesus comunga da vida do outro. 

Jesus, pondo-se no meio deles”. Não é mais o sepulcro o lugar da experiência da ressurreição, mas a vida comunitária da fé e do serviço. Sendo assim, vencendo a tentação de uma comunidade egocêntrica, recebe-se o primeiro e fundamental dom do Ressuscitado: “A paz esteja convosco!”. A paz que é fruto da justiça (cf. Isaias 32,17) supõe a instauração de uma nova ordem equitativa, na qual as pessoas possam se realizar como seres humanos, sua subjetividade ser respeitada, suas aspirações serem satisfeitas, seu acesso à verdade, a educação, os direitos básicos serem reconhecidos e sua liberdade pessoal ser garantida. 

Quando a comunidade professa a fé na ressurreição do mesmo Cristo-Senhor que foi crucificado, morto, sepultado, como membros de seu Corpo, vence toda tentação de individualismos e exclusivismos espirituais. 

O Discípulo Amado, testemunha que aquele que fora crucificado, cujas mãos estão perfuradas e o lado traspassado é ele o único que pode desejar e dar a verdadeira paz: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo dá” (Jo 14,27). Portanto, compreender este Shalom, requer entende-la como algo que é fruto da missão de Jesus, e que é entregue à sua comunidade, para que também ela seja anunciadora e fazedora da Paz: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio (…) recebei o Espirito Santo”, 

 A fé na ressurreição do Senhor é testemunhada por todo o seu corpo ressuscitado. Que o Tempo Pascal nos ajude a abandonar o nosso sepulcro e fazer a experiência da Misericórdia que ressuscita todo o Corpo.

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